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26/09/2017

A violência do ejaculador geral da República


Não é segredo para ninguém que relações sexuais criam satisfação para alguns, frustrações para outros e, enfim, jogos de poder para todos. As revistas de auto-ajuda e similares ficam com a primeira parte, os psicólogos e médicos com a segunda e é do campo ético e jurídico a terceira parte. Enquanto ligadas à simbologia do poder, do controle e da violência, as relações sexuais se tornam objeto de filósofos, padres, juristas, juízes e policiais.

Quanto a essa última parte, nossa sociedade ocidental viu Santo Agostinho transformar o pecado original em pecado sexual, trazendo para as relações sexuais uma terrível má fama, uma cunha para o sentimento de culpa, tão necessário para a maneira com a qual o Bispo de Hipona, na trilha de Paulo, moldou a Igreja e boa parte da mentalidade cristã. Os órgãos da criação do milagre da vida foram vistos como órgãos capazes de tornar o homem exclusivamente cultivador de si, distante da reverência para com Deus e, portanto, incapaz de uma vida santa e realmente feliz. Afinal, o êxtase com Deus é perene e o êxtase com outro ou consigo mesmo é falsa felicidade, pois passageiro e, pior, viciante. Além disso, sendo o conjunto dos superlativos, Deus não poderia deixar de lado o monopólio do êxtase quiçá disponível ao homem.

Não é difícil ver nesse controle, já na relação Deus-homem, um elemento da simbologia do poder e, enfim, de alguma violência imiscuída ao ato sexual. Abrir caminho para o êxtase, ter o monopólio dessa porta de entrada para o gozo,  transformou-se em chave para um tesouro posto aos olhos dos pedintes da felicidade. Submeter o outro ao regime de posições sexuais capazes de dar prazer a ele e ao outro, bem como de privá-lo de prazer às portas do gozo, são coisas que são fáceis de serem vistas como elementos de poder e violência. Variações culturais disso se dispõem nas mãos dos que fabricam códigos de ética e, enfim, sobram nos ombros como fardos para os aplicadores e guardiões da lei, bem como para os responsáveis pelas punições dos agentes desviantes. Na nossa sociedade, por exemplo, discute-se agora a ampliação da noção de estupro. Retirar o pênis no ônibus e ejacular em alguém é uma manifestação de exibição de poder, um ato de violência, que pode então deixar o campo semântico do “molestar” e se dirigir para o campo do “estupro”. Se é assim, os guardiões ficam atentos para pedir aos executores de punições feitos mais espetaculares.

Não há dúvida na nossa sociedade que ninguém quer, ao menos no ônibus, levar um jato de esperma no pescoço. Está claro, também, que se alguém repete um ato desses por várias vezes, uma tal pessoa parece estar aquém de entender costumes e leis, oscila entre crime e desajuste psicológico. Uma pessoa assim deve ser tirada de circulação. Mas o seu ato provoca, também, a manifestação estranha, que revela algo mais profundo quanto ao que uma parte da população sente em relação ao corpo e ao sexo. Os pedidos histéricos para que o ejaculador seja antes castrado que punido pela justiça e posto em tratamento denotam algo que eu chamaria de “amor ódio pelo pênis”, parafraseando Adorno e Horkheimer em seu “amor-ódio pelo corpo”. Algo que se passa nas catacumbas mentais de muitos, e que revela uma espécie de disputa de poder entre os impotentes da vida.

É claro que o ejaculador é um impotente. É alguém impotente no sentido de não conseguir um relacionamento normal com mulheres. Mas se ele transgride a lei para revelar uma potência, então desperta em outros impotentes, homens e mulheres, uma espécie de admiração e inveja, algo como um amor-ódio. Arrancar-lhe o pênis, roubar dele o pênis ousado que conseguiu romper com a impotência, eis aí o desejo dos que pedem a castração. Aquele que reclama quer fazer parar o pênis transgressor. Mas se reclama demais, querendo a castração, pode estar claramente desejando que tal pênis possa ser guardado em casa, como uma espécie de arma secreta, com a qual ele possa, numa noite macabra, ressurgir das cinzas de sua insatisfação amorosa-sexual. Também ele sonha em poder usar o pênis de forma transgressora, ou ao menos poder usar algum pênis. E o mesmo vale para a mulher.

Quando conversamos mais longamente com os que pedem a castração do ejaculador do ônibus, que virou notícia nessa semana entre agosto/setembro, notamos como tais pessoas parecem ficar fascinadas pelo fato do rapaz ter cometido o ato e não ter sido preso. Sentimos tais pessoas como que obcecadas pelo poder do pênis do desajustado. Não raro, na conversa, tais pessoas – homens e mulheres – manifestam uma respiração mais ofegante ao comentar sobre a ejaculação, quase que se sentido tocadas pelo líquido viscoso. O nojo está presente, mas antes de tudo está presente uma disputa pelo pênis do transgressor. Aquele pobre diabo feioso, prestes a ir para a cadeia, afinal, conseguiu gozar em uma mulher, coisa que o que pede sua castração, em sua impotência infinita, se vê ainda privado – talvez para sempre!

O sexo tem seu lado em companhia do poder. Sabemos disso. E a violência de quem o utiliza violentamente às vezes esconde a violência dos que não se utilizaram de nenhuma, apena a verbal, aquela dos pedidos de castração.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 05/06/2017

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8 Responses “A violência do ejaculador geral da República”

  1. Thiago
    06/09/2017 at 04:20

    Boa noite. Poderias me apontar bibliografia sobre os valores e costumes da relações sexuais às quais apontaste? Tô preparando a matriz do meu TCC sobre esse caso. Acredito na importância de ir além da positivação – a tipificação penal e divergências doutrinárias que debatem exclusivamente as próprias tipificações – para entender a relação sexual de forma holística, nos moldes e limites do trabalho. Se puderes apontar, agradeceria bastante.

    • 06/09/2017 at 09:26

      Thiago, pode ir pelo meu livro Filosofia política para educadores (Manole), para uma primeira abordagem. Fora isso, a temática sexual é abordada pelos filósofos Alan Soble e Irving Singer. Um livro importante é Love, sex and Marriage, de vários autores, publicado por Raja Halwani. Outro dele, no mesmo estilo: Sex and Ethics.

    • Thiago
      06/09/2017 at 18:52

      Obrigado pelas dicas, Paulo. Mesmo. Caso tenhas alguma autora para indicar, também gostaria. Apenas indicaram uma mulher, cuja última edição de seu livro foi em 1999, não dá para utilizar. Sem modismos ou chiliques midiáticos, preciso de uma autora por causa do estudo desse caso per si. É razoável ter uma perspectiva feminina. Se fosse pra abordar apenas o tema em si, talvez fosse desnecessário. Talvez. De qualquer forma, valeu!

    • 07/09/2017 at 00:23

      Nos livros que recomendei há mulheres, inclusive Nussbaum.

  2. LMC
    05/09/2017 at 11:52

    Que nada.No fundo,os que
    pedem que ele seja castrado,
    estão do lado do estuprador
    contra as feministas comunas
    e marxistas(?).Lembram da
    professora que foi agredida
    em SC?Essa turma apoiou
    o moleque agressor contra
    a professora esquerdista(?).

  3. Tony Bocão
    05/09/2017 at 09:29

    Gostaria de saber o que Diógenes, masturbador público(mas com outra motivação), falaria de um caso destes, mesmo dentro de um pensamento grego, a reação deveria ser bem parecida com isso…

  4. 05/09/2017 at 08:44

    Achei muito interessante a relação estabelecida entre sexo, poder e violência. Ao que parece, essas três instâncias psíquicas estão interligadas com maior ou menor intensidade. É notório – especialmente com os que possuem alguma vivência na saúde mental – o modo como o sexo possui repercussão em alguns doentes psíquicos. Não sou muito afeito a Freud – opto mais por Jung -, mas creio que ele tenha alguma razão.

    • 05/09/2017 at 09:02

      Sinceramente, Jung não. Freud é um bom filósofo. Mas, no caso, não preciso tanto dele. Aliás, preciso de menos Freud do que outros para falar academicamente de sexo.

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