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16/12/2017

É racismo sim, senhores!


Este texto é indicado para o público em geral

“No Brasil não há racismo”. Essa frase tem meia verdade de um tal modo que se mostra mentira todo dia. Podemos dizer que há somente preconceito racial, e irmos dormir em paz, principalmente nós, brancos de classe média. Todavia, eu estava com a minha esposa na fila para a entrada no Morumbi e todos os negros foram parados para serem revistados. Eu cheguei com Fran, eu branco de olhos claros e blazer, ela jovem, bonita e clara como leite. Não fomos revistados, sequer parados para apresentar documentos. A fila andou, passamos pelos seguranças, e a revista recomeçou. Como não iria notar esse fato? Como não sentir a chamada vergonha alheia? Mas uma coisa eu sei, jamais vou sentir essa humilhação no meu coração. Sentir vergonha alheia não é sentir humilhação. Se não entendo isso, o fato do meu coração próprio não ser o humilhado, vou tentar dizer por aí, como a direita adora fazer, que William Waack não é racista e, enfim, nem preconceito racial tem. “Era só uma piada da mau gosto”. “Um hábito de brasileiro”.

Sim, mal entendido existe. Burrice na hora de interpretar falas existem. Mentiras colocadas na boca de outros existem. Mas o caso de Waack é bem diferente, ele admitiu e pediu desculpas. Mas vale o fato de ter admitido, não podia negar o vídeo. Só Rocha Loures tem direito de negar vídeo no Brasil. E Aécio tem direito de negar gravação!

O problema é que, para ser pego fazendo o que fez, Waack deve ter repetido muitas vezes uma cena parecida. Senão não teriam a ideia de preparar a armadilha para ele, de deixar o vídeo existir. E o mais terrível: ele não tem vergonha alheia. Pois se trabalha com negros e faz essa brincadeira não com eles, mas com um branco ao lado que será entrevistado, isso mostra não só racismo, mas soberba, até mesmo crueldade. Sente-se impune porque a direita lhe diz, por conta de comentaristas de direita, que ele é bom jornalista. Ora, está cheio de bom jornalista na Carta Capital, uma boa parte estalinista, num elogio infinito uns aos outros para abrirem caminhos para o Céu. Essas corriolas políticas se protegem com esprit de corps. São nojentas. E são nojentas porque inventam mentiras de outros e mentem sobre si mesmos. Fazem jornalismo marrom. Mas um dia as pessoas que estão lhes servindo, resolvem tirar delas a máscara. E tiram. Já enfrentei essa gente mascarada no berro (quanto à esquerda) e na justiça (quanto à direita), ganhei sempre.

O racismo é o pior crime que se pode cometer no mundo moderno. Pois ele desencadeia um desrespeito máximo que alimenta a agressão verba e física, o estupro, o abandono infantil e o aumento do coração frio. É crime no Brasil. A xenofobia também deveria ser. E a Lei Maria da Penha, por sua vez, tinha que ser mais incisiva. A lei que temos tem de ser empurrada para diante, cumprida, já que pela escola não temos tido a oportunidade de acelerar esse processo de defesa de minorias. A direita barra projetos de educação sobre gênero nas escolas, segura programas anti-racistas e faz o mesmo com a violência contra mulheres. Por sua vez, a esquerda só quer discutir esses temas por cânones fechados, raramente fala disso academicamente, coloca a militância na frente dos bois e acaba gerando na juventude um afastamento de seu autoritarismo. A esquerda, não raro, transforma esses temas importantes em aulinhas de educação moral e cívica. E às vezes age com professores e artistas cobrando-lhes didatismo não fora de seu trabalho, mas na própria arte, nas novelas etc. Isso só estraga.

O racismo no Brasil é tão forte, tão entranhado, que temos negros que se odeiam, que fingem que o mundo liberal puro os recebe bem, que vale a meritocracia, mas eles mesmos não percebem que, para fazer esse discurso, estão sendo bancados ou pelo dinheiro público ou por agrupamentos empresariais e partidários. Fazem o eterno papel de capitão-do-mato, até porque estudaram pouco e não sabem o que é um capitão do mato. Alguns sabem, mas perderam a vergonha. Eles mesmo não percebem que cometem erros pelo pouco estudo, e este pouco estudo é por terem sofrido racismo. Mentem para si mesmos. Um capitão do mato sabe que é capitão do mato, mesmo que seja um pequeno vereador.

O racismo brasileiro tem uma cena exemplar, tanto como causa quanto como efeito. Terminada a escravidão, os senhores expulsaram os negros de suas fazendas. Eles foram para as estradas e se aglomeraram no centro das cidades. Salvador e Rio de Janeiro viveram esse horror. Essa reprodução do inferno do porão do navio negreiro transportado para a praça pública. Os negros nus, bêbados, urinando e defecando no centro, e então sendo expulsos para os morros e para os terrenos piores, pela força bruta da polícia. E põe força bruta nisso! Nasceram as favelas. E o negro não saiu mais delas. Quando ele desce o morro e vem para fazer o serviço pesado “no asfalto”, ele precisa sempre pedir desculpas e apresentar sua carteirinha facilitadora, onde está escrito “sou um negro de alma branca”. Ou então, pior: “é mentira que Waack é racista, ele me deu um picolé uma vez”. Ou então: “ele é boa gente, é amigo daqueles outros dois jornalistas e também da repórter – aquela não mente!”

Sou defensor da cota étnica de modo que o negro possa ocupar mais rapidamente a geografia do país como um todo. É maioria numéria e continua minoria sociológica. E nesse caso, pela circunscrição negativa, não positiva. O negro não tem a ver com tons de pele, mas com cultura. Assim, participam das cotas quem se declara negro (coisa que o Magnoli não entendeu e vendeu livro falando essa bobagem), quem se identifica com a cultura negra. As mentiras são poucas e facilmente desmascaradas, se alguém quer burlar o sistema de cotas étnicas. Não é por elas que se nega um lei justa, a de cotas. A escola pública não precisa de cotas para pobres, ela tem que ser boa para todos. Mas uma escola pública, se for boa, põe o negro para fora, não o pobre branco. Eu já vivi isso no Brasil. Eu passei pela escola pública boa, e ela não tinha negros. Eu noto tudo isso porque eu, na fila do Morumbi, sei que passo sem revista e olho outros, ao lado, sendo revistados. Ora, Waack e seus comparsas não notam fila nenhuma.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

PS: Só para lembrar, os senhores jornalistas da direita que agora negam que Waack é racista são os que não viram racismo no negro amarrado ao poste por grupos de limpeza étnica. Houve até a jornalista que disse se alguém gostava do garoto preso no poste, nu, que o levasse para casa. Esse mesmo pessoal viu racismo – e certamente foi isso – na frase do Paulo Henrique Amorim, “negro de alma branca”, dirigida a um jornalista da Globo.

Foto acima: os responsáveis pelo vídeo do Waack fazendo o comentário racista. Veja aqui reportagem!

Foto abaixo, minha irmã Berenice e eu, em 1964. Ela faleceu ao trinta anos, assassinada, se fosse branca, não teria ocorrido o fato.

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2 Responses “É racismo sim, senhores!”

  1. Gabi
    15/11/2017 at 22:30

    Obrigada por se posicionar!

    A escalada obscurantista no Brasil é cada vez mais desavergonhada.

  2. Vinícius
    11/11/2017 at 17:18

    Muito legal os artigos seus, e inclusive sobre a mídia. Recentemente, vi um artigo do portal UOL, listando jornalistas, e inclusive âncoras com tempo de casa, e repórteres, dos EUA, que foram demitidos pelas grande imprensa em função de comentários de cunho racistas e/ou xenófobas feitos ao vivo ou em redes sociais. Lá parece não ter a bola da vez, e não sei como deve ser a legislação trabalhista para mandá-los embora. Talvez o racismo lá tenha sido mais agudo e visível num passado não muito distante, e não toleram mesmo esse tipo de comportamento.

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