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23/10/2017

A senhorinha Dona Regina… é a senhorinha Dona Regina! Fazer o quê?


A senhorinha Dona Regina saiu de férias. Surgiu lá de São João do Nunca. Prêmio: ir ver o programa da Fátima Bernardes ao vivo. Teve então a oportunidade de falar bobagem, de reiterar o senso comum conservador contra o MAM, de mostrar a todos que o Brasil ainda tem muita gente desescolarizada que não tem a menor ideia do que se faz em teatro e museu. E cumpriu a missão. Sim, foi isso que ocorreu, ela cumpriu seu destino. Lembrou-me das “senhoras de Santana”, dos anos 80, que fizeram um protesto contra o Geraldão, personagem nu das tirinhas do Glauco. Geraldão, Geraldão … de tanto aparecer nu, poupou os protestos que poderiam vir contra Dona Marta, a personagem tarada que nunca deixava de mostrar os peitos.

Dona Regina não foi ao MAM, duvido que saiba o que é, mas viu fotos na Internet de uma criança que, como ele diz, estava “exposta a um homem nu”. Perguntada pelo artista presente a que a criança estava exposta de perigoso, ela não soube responder. Disse o que viu na foto: a criança estava exposta a um homem nu. Crianças não encontram o nu, segundo essa dona Regina. Ora, Dona Regina é Dona Regina, uma avozinha. Todos nós somos condescendentes com certas avozinhas. Elas fazem bolos, são boazinhas e tal, mas … Minha mãe tem 89 anos, não pensa como Dona Regina, mas é escolarizada, não está reduzida a uma “avozinha”. Mas Dona Regina tem a história dela, fazer o quê?

Não adianta muito tapar o sol com a peneira. É em cima da ignorância total de gente como dona Regina que malufadas e bolsonadas se espraiam. A Besta espectral que paira sobre o Brasil chama os bestas e vice-versa. Dona Regina faz eco no Congresso, onde o deputado que é viciado em pornografia faz um discurso querendo torturar o artista do MAM – viram? E aí o anti-intelectualismo dos espertalhões aparece na mídia internética para dizer que o “povo simples fala a verdade”, contra “intelectualizados e elitistas artistas da Globo”. Esse refrão é da direita, mas a esquerda populista pode utilizá-lo sem dó. E o fez durante 12 anos recentes.

O mundo dá voltas e a direita funciona sempre do mesmo modo. Espera a “voz de Deus”, que é a “voz do povo”, para atacar dois símbolos de poder: intelectuais e TV, no caso, Globo, dado seu padrão liberal. Tática velha. Mas a direita não faz isso só por maquinação. A direita política não tem intelectuais. Tem alguns fazedores de textos que pensam igualzinho a dona  Regina. Até autores de livros, que vendem bem – e por isso vendem -, uma vez na direita, pensam exatamente como Dona Regina. Para essa gente a arte é sempre pornográfica, o nu é sempre perigoso e, enfim, o mundo é povoado de “comunistas” e, agora, de “pedófilos”. Aliás, “pedofilia” é apenas uma palavra que substituiu a palavra “comunista” no vocabulário da direita. A teoria da conspiração come solta. No Brasil a direita já computou tanto “pedófilo” que é difícil todos nós não acharmos que quando tocamos nossos filhos, nós os desejamos sexualmente. Até a Dona Regina deve achar isso, atualmente. A direita jovem apresenta isso como rebeldia, e tem colunista de jornal, metido a escritor, que até acredita na sua rebeldia. Aos cinquenta e poucos anos, se acha rebelde juvenil. Um Lobão da filosofia.

O que fazer com esse senso comum barbárico e tosco que, no Brasil, vem sendo incentivado pela falta de escolas ou por um ensino ruim devido aos baixos salários dos professores?

A ideia do século XVIII, do Iluminismo, ao menos na versão de quem viu de fora a Revolução, como o caso de Kant, sempre foi dúbia. Em meio ao governo de Frederico, “déspota esclarecido”, o filósofo alemão dizia: um crítico pode fazer seu livro crítico e lê-lo, à noite, para uma plateia privada, já esclarecida ou em vias do esclarecimento, isso lhe deveria ser permitido; mas se está no serviço da empresa estatal ou privada, não deve ser crítico, deve fazer as coisas funcionarem como elas estão postas para funcionar segundo as ordens do Monarca. Kant acreditava que gente como a Dona Regina iria cair no limbo e desaparecer à medida que a educação pudesse se espraiar paulatinamente, conquistando todos, um dia, para a “maioridade” intelectual e moral. Pouco mais de um século depois, Max Weber viu na universidade um espaço capaz de substituir a casa noturna de leitura de livros crítico. Ele defendeu o espaço universitário como o lugar de crítica social, como um espaço no qual a própria burguesia conservadora jogava suas fichas de manutenção, para que a sociedade tivesse um respiradouro. Seguindo Kant, Weber também viu a esclarecimento como alguma coisa feita em etapas, com lugares apropriados. Nada deveria ser feito abruptamente. O caminho francês não era o melhor caminho, pensaram esses alemães.

Os americanos viram tudo isso de modo diferente. Eles, os americanos, optaram pelo Iluminismo já pautado por um proto-romantismo. Fizeram a revolução com tintas francesas e com certo liberalismo inglês, mas empunharam valores tradicionais da família com sabor meio que alemão. Não à toa escreveram constituições pelas mãos de Locke, mas depois erigiram grandes universidades para ensinar Hegel e os idealistas ingleses junto com teologia. Fizeram a revolução como revolução nacional contra o imperialismo da potência marítima e colonial, a Grã Bretanha. Derrotaram o rei, mas só vieram a desconfiar da religião bem mais tarde, do mesmo modo que só puderam se livrar internamente da escravidão por um revolução interna que lhes premiou com uma guerra sanguinária. Tiraram de circulação as donas reginas de lá, mas não as eliminaram por completo, deixando-as em condições de, agora, mais magoadas ainda, elegerem para presidência uma Dona Vovó Gigante, a besta nuclear: Trump. Essa pessoa, que tem como mulher uma modelo que mostrou as partes pudendas para o mundo, ainda assim pensa o corpo nu como Dona Regina, mas só se excita pensando em ogivas nucleares como símbolos fálicos que o fazem penetrar um coreano. Tática velha também: populistas de direita adoram o conflito externo, dado que internamente não conseguem fazer um governo minimamente saudável.

Trump são os Estados Unidos – a máquina industrial-militar envelhecida – traindo a própria América – a pátria da liberdade criada pelos Pais Fundadores liberais, o sonho dos imigrantes que queriam a prosperidade. Dona Regina é o Brasil, não “a terra em que se plantando tudo dá”, muito menos o lugar em que a “liberdade abre as asas sobre nós”, mas o vazio na qual todo problema do mundo tem como culpado aquilo que vem do respiradouro weberiano da sociedade. O que os intelectuais e artistas fazem, eis aí o problema – assim brada a direita. Para Dona Regina tudo ofende, pois ela não tem qualquer noção a respeito da necessidade dos respiradouros. Ela é a herdeira daquela mentalidade dos censores da nossa Ditadura Militar, que faziam uma prática tão imbecil que, mesmo quando estávamos na cadeia, sendo torturados por eles, ríamos. Afinal, como não rir de quem, bolsonadíssimos, entravam em teatros para prender um tal de Bertold Brecht?

No Brasil, aliás, Dona Regina pode transitar e aparecer nas fileiras da esquerda também. Pois em matéria de anti-intelectualismo e de reiteração do senso-comum, é bobagem achar que o PT e seus satélites, os PTs 2.0, contaram contra.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 07/10/2017

Vídeo, é interessante ver a resposta da bela Andrea Horta para a senhorinha. Aliás, a reportagem toda do programa é boa.
https://youtu.be/vrHGznhDlZg

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19 Responses “A senhorinha Dona Regina… é a senhorinha Dona Regina! Fazer o quê?”

  1. 14/10/2017 at 20:04

    Parabéns, professor. Penso que essa dona Regina permanece lá na caverna, mas não a “Caverna de Platão”, do “Mito da Caverna”.

  2. Rosana
    09/10/2017 at 02:24

    Nas primeiras linhas do seu “cansativo”texto percebe-se o quão preconceituoso vc é!

    • LMC
      09/10/2017 at 11:12

      Rosana,quanto você recebeu
      pra escrever merda aqui?Eu
      quero saber!!!!

  3. Rosana
    09/10/2017 at 02:18

    Porque a Globo errou em dar voz para aquela mulher?apenas porque ela tem opinião contrária a sua mãe?

  4. Orquidéia
    08/10/2017 at 21:43

    Hã… feliz aniversário atrasado para ela.

  5. Pedro Guimarães
    08/10/2017 at 18:14

    Rapaz, achei que seria um texto inteligente devido ao “filosofia como crítica social”, mas o parei de ler no 4° parágrafo. Até aí, vi somente um cara metido a intelectual cagar pelos dedos. Não coloquei o cagar em aspas, porque parece que realmente escorreu bosta pelos teus dedos. Que diabos de doutores estamos formando hoje…

    • LMC
      09/10/2017 at 12:39

      Pedro,seu jegue!Pra você,senzala,
      campo de concentração e Hopi Hari
      é tudo a mesma coisa.

  6. Mara
    08/10/2017 at 18:08

    AINDA BEM que no Brasil a maioria das pessoas são como a DONA REGINA.E poucos são como você.GRAÇAS A DEUS. VIVA A DONA REGINA. Chupa essa manga. Coisa feia.

    • LMC
      09/10/2017 at 11:08

      Chupa sua vagina,dona Mara.

  7. Augusto P. Bandeira
    08/10/2017 at 18:08

    Espere aí, deixe ver se entendi direito: “A Rede Globo errou de dar voz para aquela mulher. Aliás, erra sempre quando dá voz a quem já tem voz demais.”
    Então a Globo deveria fazer o quê? Censura prévia?

    Olha, se a emissora propõe um tema não técnico para uma audiência composta majoritariamente por não-especialistas, minimamente eles devem ser ouvidos para saber suas posições e então trabalhar com elas – esse é um objetivo honesto; se, por outro lado, o objetivo é fazer com que as pessoas não tenham voz alguma e só digam amém a tudo o que se põe na sua frente então estamos falando de um autoritarismo atroz!

    Eis o conflito gerador da Guerra Cultural que agora o Brasil enfrenta: o senso comum deve ser destruído a todo custo, pois a sanha desconstrucionista não vai parar. O instinto básico de preservação (de si, da própria cria e de terceiros) é maléfico e próprio de ignorantes e obscurantistas? É isso?

    O que os “iluminados-redentores-do-mundo-pós-modernistas-vanguardistas” fazem é só ampliar um sentimento de angústia e mágoa de gente que se sente deslocada no mundo por não poder ocupar espaços que a militância não permita e que não pode ter sua voz na TV por miseráveis segundos que seja.

    Esse falso dualismo trevas X luz revela a verdadeira natureza persecutória da esquerda: democracia, tolerância, direitos humanos são apenas artifícios retóricos úteis à causa, aplicados tortuosamente na prática, mas erodidos na teoria desde a base para consolidar um projeto de poder no qual os “ignorantes” são sumariamente eliminados de qualquer representação para que não criem problemas à classe que deve “comandar o povo”.

    Foram só uns 2 minutinhos na TV e olha o quanto os esquerdistas, internet afora, se assanharam para calar uma senhora! Se fosse uma discussão entre jovens universitários, certeza de que veríamos a massa de doutrinados da UJS (ou algo que o valha) batendo na pessoa que ousou desafiar o sistema.

    Espero sinceramente que haja resposta, ou, ao menos, deixe que outros leiam o comentário. Se, baseado apenas em simpatia ou antipatia, houver outro bloqueio – já é a terceira vez que tento escrever aqui no blog e não consigo – é porque o texto acima está absolutamente correto.

    • LMC
      09/10/2017 at 11:10

      AUGUSTO BUNDEIRA,
      PARA DE FALAR ASNEIRA!!!!!

  8. Orquidéia
    08/10/2017 at 08:36

    Esquecendo dona Regina [ela é só uma mulher do povo,como eu…], obrigada por contar finalmente que não há bons pensadores “à direita”.
    Fiquei um bom tempo à procura de um “direitista” que não fosse louco,_e em vão.

    • 08/10/2017 at 09:21

      Orquidéia, minha mãe é “do povo”, tem 89 anos, não pensa nada como a Dona Regina. A Rede Globo errou de dar voz para aquela mulher. Aliás, erra sempre quando dá voz a quem já tem voz demais.

    • Augusto P. Bandeira
      08/10/2017 at 15:23

      Espere aí, deixe ver se entendi direito: “A Rede Globo errou de dar voz para aquela mulher. Aliás, erra sempre quando dá voz a quem já tem voz demais.”
      Então a Globo deveria fazer o quê? Censura prévia?

      Olha, se a emissora propõe um tema não técnico para uma audiência composta majoritariamente por não-especialistas (especialistas em quê? em nu?), minimamente eles devem ser ouvidos para saber suas posições e então trabalhar com elas – esse é um objetivo honesto; se, por outro lado, o objetivo é fazer com que as pessoas não tenham voz alguma e só digam amém a tudo o que se põe na sua frente então estamos falando de um autoritarismo atroz!

      Eis o conflito gerador da Guerra Cultural que agora o Brasil enfrenta: o senso comum deve ser destruído a todo custo, pois a sanha desconstrucionista não vai parar. O instinto básico de preservação (de si, da própria cria e de terceiros) é maléfico e próprio de ignorantes e obscurantistas? É isso?

      O que os “bonzinhos-censuradores-iluminados-redentores-do-mundo-desconstrucionistas-pós-modernistas-vanguardistas” fazem é só ampliar um sentimento de angústia e mágoa de gente que se sente deslocada no mundo por não poder ocupar espaços que a militância não permita e que não pode ter sua voz na TV por miseráveis segundos que seja.

      Esse falso dualismo trevas X luz revela a verdadeira natureza persecutória da esquerda: democracia, tolerância, direitos humanos são apenas artifícios retóricos úteis à causa, aplicados tortuosamente na prática, mas erodidos na teoria desde a base para consolidar um projeto de poder no qual os “ignorantes” são sumariamente eliminados de qualquer representação para que não criem problemas à classe que deve “comandar o povo”.

      Foram só uns 2 minutinhos na TV e olha o quanto os esquerdistas, internet afora, se assanharam para calar uma senhora! Se fosse uma discussão entre jovens universitários, certeza de que veríamos a massa de doutrinados da UJS (ou algo que o valha) batendo na pessoa que ousou desafiar o sistema!

  9. PAULO LUIZ LOPES
    07/10/2017 at 20:50

    Estamos vivendo uma era de inversão de valores, quando o certo é tratado como errado, e o errado se passa como certo.

  10. Marcelo
    07/10/2017 at 20:05

    Pegueo cancer lendo esse artigo

    • LMC
      09/10/2017 at 12:41

      Não sabe nem escrever
      direito,cara.Fugiu do Mobral!
      kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  11. 07/10/2017 at 14:57

    Filósofo?!…

  12. Carlos
    07/10/2017 at 12:19

    Muitas coisas que hoje em dia são vistas como corriqueiras tiveram grandes lutas sociais lá atrás. Acho que o Brasil poderia investir muito mais na arte, principalmente na formação de público. Precisamos de arte, precisamos construir formas mais livres de vida e de convivência. Alguns alemães ficaram chocados com o conservadorismo brasileiro, com a forma com que o corpo ainda é algo difícil de se falar, como ainda as pessoas se relacionam de forma puritana e complexada com o corpo no Brasil.

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