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26/09/2017

Dia dos animais – 4 de outubro


Defendo animais. Até aqueles que alguns dizem não merecer! Mas que não me venham com o discurso às vezes pouco inteligente do especismo. O cachorro é realmente diferente. Ele tem a ver conosco de um modo especial. Ele e o cavalo possuem brancos nos olhos, por isso um olhar humanizado. Ele, o cão, e só ele, provoca em homens e mulheres mudanças físicas, ou seja, alterações hormonais. As mulheres produzem hormônios que tem a ver com a produção de leite e expulsão do feto ao verem o filhote do cão. Nenhum outro animal provoca isso na espécie humana. Além disso, o cão tem um apego ao homem, uma necessidade do humano que nenhum outro ser, nem mesmo o próprio humano, possui. Quem não entende isso, me desculpe, mas não entendeu nadinha do mundo. Nadinha mesmo!

O cachorro é uma porta aberta para que o homem se torne humano. A frase significativa e profunda de Nietzsche, “torna o que tu és”, se faz se pudermos nos relacionar corretamente com o cachorro. Hoje é assim. Foi assim ontem. Ontem quando? Quando nós não éramos nós ainda, ou seja, éramos apenas seres das cavernas ainda sem o formato atual, e quando o cão também não era o cão moderno (algo pré-paleolítico). Estivemos em simbiose com  cão, nas cavernas ou coisa parecida, muito antes do projeto efetivamente humano, quando então domesticamos o cachorro (mesolítico). Temos uma série de comportamentos caninos, e que nos distanciam dos macacos que são nossos parentes geneticamente mais próximos. Gostamos da alcateia e da forma de deliberação em assembleia e caçamos em comum acordo, como faz o cão. Ele pode, sim, ter trazido comida para a caverna e ensinado a solidariedade ao homem, além de participar da amamentação conjunta dos filhos e reforçando a noção de família. Sabemos bem que o mito fundador de Roma, com Rômulo e Remo sendo criados pela Loba, não surgiram à toa. Tudo isso explica o fato de, com os cães, nosso amor ser visceral, ser simbiótico, ter lances praticamente fisiológicos.

Outro dado interessante é que, mesmo sem a linguagem, os cachorros nos entendem quase se como pudem pensar com protoconceitos. Se prestarmos atenção neles, veremos que nos entendem muito mais do que esperamos. Quando deixamos de adestrá-los e os tomamos como da família mesmo, passam a reconhecer todos os nossos comportamentos, e nos ajudam em tudo. Claro que são limitados, são como crianças. Ficam a vida toda com traços de nossas crianças. Isso também foi muito bem aproveitado no convívio das cavernas, milhares de anos antes da domesticação.

Os animais não possuem o facilitador do pensamento que é a linguagem. Mas os cães, mesmo sem isso, se comunicam conosco. Latem com timbres diferentes, que imitam os timbres nossos quando expressamos sentimentos, ordens ou pedidos. Posso identificar ao menos sete latidos bem distintos no Pitoko, meu filho peludo (um Golden), e eles não diferem muito do timbre que uso para pedir mais ou menos as mesmas coisas que ele. Além disso, o Pitoko bufa quando tem que esperar, abre a boca de sono quando leva um pito, sabe brincar de fingir, entende várias outros brincadeiras, dá atenção para pessoas como o Datena, e gosta de programas de TV que tenham bola. É extremamente cuidados com pessoas de idade e crianças. Onde eu vou, ele vai. Colado o tempo todo comigo. A dependência dele para comigo é efetivamente amor. Não está comigo por comida. Nem está comigo por agrado. Quer apenas estar comigo. Desde bebê, quando me viu, gostou de mim. E eu dele. Ficou no meu colo. Faz isso até hoje. Entra no carro, vai um pouco no banco, mas logo vem para o colo, mesmo agora estando já enorme. Se viajo, tenho de ligar para ele. Chora e fique infernal quando isso não ocorre.

Pitoko é sociável. Cumprimenta. Dá bom dia. Não ataca ninguém. Passa longe de quem não gosta de cachorro, mesmo que eu não saiba disso. Pitoko dorme conosco, Fran e eu, e nos acorda na hora certa. Sabe os dias da semana, pedindo para ir em passeios diferentes nos dias diferentes, e isso mesmo que nossa rotina mude. Nenhuma dessas teorias babacas que treinadores de animais ou veterinários sem vocação usam explica o Pitoko. Mas, uma boa antropologia, sabe bem do que ele é capaz e como se tornou ligado a nós, ao homem.

Hoje é dia dos animais: 4 de outubro. Mas, fundamentalmente, dia do cachorro. Cuide bem do seu cachorro. Se não houver ninguém do seu lado, ele estará – sempre. É pouco para você? Se for pouco, você veio ao mundo sem autorização de Deus. Volte, reaprenda o que melhores modos, e só então reapareça.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo.

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8 Responses “Dia dos animais – 4 de outubro”

  1. Guilherme Pícolo
    20/10/2016 at 21:26

    Novos estudos genéticos mostram que os gatos começaram a ser domesticados quando o homem ainda dava seus primeiros passos na agricultura. Restos preservados mostram que os gatos eram valorizados pelos egípcios, e um esqueleto desencavado no Chipre em 2004 mostra que as pessoas mantinham gatos como mascotes há mais de nove mil anos.

    “A domesticação de espécies selvagens para complementar a civilização humana é um dos ‘experimentos biológicos’ mais bem sucedidos já feitos”, escreveram os pesquisadores, liderados por Stephen O’Brien, do Instituto Nacional do Câncer, que estuda há anos a genética dos gatos, na esperança de descobrir aplicações para a saúde humana.

    Mais: http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/gatos-sao-domesticados-ha-mais-de-9-mil-anos-4178468

  2. vagner rocha
    18/10/2016 at 19:54

    Muito legal e bonito o texto Paulo, estou pensando em adotar meu primeiro cão

  3. João Neto
    08/10/2016 at 06:14

    Olá, Paulo. Obrigado por manter o blog sempre em dia.
    Pode acreditar que és responsável por manter-me atento às tuas publicações, às quais aguardo com a mesma ansiedade de garoto enquanto esperava chegarem os novos gibis nas bancas. É sempre bom fechar o dia com a leitura que proporciona, os “pingos nos is” bem colocados da tua parte.
    Antes de falar um pouco sobre animais envio um poema do Manuel Bandeira para que leias. Penso que faz sentido para pessoas como tu e ele. Para mim faz sentido, todos os dias, até a indesejada chegar.

    Consoada
    Quando a Indesejada das gentes chegar
    (Não sei se dura ou caroável),
    talvez eu tenha medo.
    Talvez sorria, ou diga:
    – Alô, iniludível!
    O meu dia foi bom, pode a noite descer.
    (A noite com os seus sortilégios.)
    Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
    A mesa posta,
    Com cada coisa em seu lugar.

    Cumprimentos, beba…já sabes 😉
    João

    • 08/10/2016 at 08:18

      João Neto, obrigado pelo poema. É um privilégio meu ter um leitor como você.

  4. Eduardo
    07/10/2016 at 15:26

    Paulo:
    Muito obrigado por este texto.
    Me fez entender uma série mudanças que aconteceram com meu pai nos últimos anos após ele resgatar um cachorrinho que havia sido maltratado na rua (jogaram uma panela de óleo quente).
    O bichinho de arredio e medroso se tornou valente e super amigável e carinhoso. É o orgulho do velho – que sempre foi do estilo homem fechado e que não expressa sentimentos.
    Aliás, dá até para perceber laços positivos de pai e filho para com o cachorro que ele está desenvolvendo que ele não teve com os filhos.
    O encontro da maturidade com o cachorrinho companheiro tem feito meu pai se tornar uma versão bem melhor dele mesmo, como você diz. Mais sensível, mais aberto, mais alegre…
    Um abraço

  5. Orquidéia
    06/10/2016 at 21:45

    Os cachorros são uma graça,mas gosto mais dos gatos.

  6. 06/10/2016 at 10:52

    Depois desse texto, tenho que ter um cachorro.

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