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25/09/2018

Queremos delatores covardes ou cidadãos timóticos?


Uma sociedade precisa antes de agentes timóticos, como Jesus. 

Já há algum tempo participei de um programa na RIT TV cujo título era “Em briga de marido e mulher não se mete a colher?”. A ideia básica da conversa era sobre a interferência de um terceiro em conflitos domésticos. Um tema que, quando expandido, pode ganhar outro nome: “Vocês que são brancos que se entendam”. O que está no horizonte em conversas sobre isso é se podemos mesmo nos transformar em Zorros, cidadãos justiceiros que intervém de peito aberto diante de violências privadas e públicas, ou se no fundo queremos apenas uma sociedade de grandes covardes, que fazem todo tipo de delação sem qualquer responsabilidade e checagem do que estão denunciando.

Parece bobagem essa questão, mas não é. Temos requisitado da sociedade, de uma maneira pouco clara, que nós posicionemos contra todo tipo de “situação errada” que vemos. A própria noção de democracia participativa tem, nas suas beiradas, exigido uma postura individual de apontar dedos para culpados aqui e ali. Mas, no meio disso, não sabemos se não estamos é criando a cada dia um “caça às bruxas”, que é justamente a pior coisa que se pode ter em uma sociedade, ou se realmente estamos chamado cidadãos para intervenções necessárias. Não temos estudos sobre isso! Nossa sociologia é ideológica demais.

Posso pegar o telefone e discar para a polícia se vejo que estou diante de um alguma coisa ruim que vai acontecer ou aconteceu. Não há dúvida. Mas, em clima de “caça às bruxas” (vamos matar comunistas ou pedófilos hoje?), devo pensar dez vezes se não estou sob forte campanha ideológica, que me instrumentaliza como um covarde delator ou no mínimo como um inconsequente e irrefletido peão em um xadrez que não entendo.

A denúncia anônima é bom instrumento. Os programas de proteção de testemunha devem sempre melhorar. Todavia, não falo dos mecanismos, falo da histeria das campanhas. As campanhas de denúncia tem um lado útil: velhos, crianças, animais, mulheres, negros,  mendigos, deficientes são, em geral, o alvo preferido dos sádicos babacas que nossa sociedade alimenta. Aliás, esses sádicos são úteis apenas no sentido de justificarem o injustificável, que é a voz reacionária de políticos aproveitadores, aqueles que vivem do ódio disseminado, pedindo pena de morte para tudo. Esses urubus de plantão são os demagogos da direita. Mas, o que penso que deve ser notado nisso tudo, é que as campanhas de denúncia não podem ser maiores que a ampliação da coragem. Se um garoto negro está sendo espancado na rua e, na TV, a dona repórter loira sugere que o espancamento continue, aí o caso não é de parar para a denúncia, mas o agir rápido e dizer: “basta! Vocês não podem fazer isso!”. Nessa hora, não surge nenhum Zorro, apenas um indivíduo que pode ser descrito melhor pela psicologia antiga que pela moderna: alguém com thymos – o órgão da ira, da fúria, da identidade – que tem orgulho de si mesmo, de sua posição corajoso diante da horda, de sua função de guardados presente da civilidade.

Já passou da hora de pensarmos em campanhas que sejam menos estúpidas que essa aí “homens contra a cultura do estupro”. Essas frases vagas só alimentam a inconsequência. Está na hora de conseguirmos construir mais e mais narrativas de cultivo da identidade timótica, de gente capaz de se orgulhar por cuidar moralmente do que é correto. Nesse caso, trata-se de gente que não admite a humilhação do mais fraco pelo mais forte – que é a própria definição de liberal para vários autores – e por isso mesmo é capaz de, no local onde as coisas acontecem ou estão para acontecer, dizer serenamente: “não, não, somos conscientes, cidadãos, isso não pode ser feito”. Precisamos ter essa atitude diante das agressões a todas as minorias, mas precisamos ter narrativas que nos levem a ter essa atitude mais ainda quando putas e moradores de rua estão passando por agressões, do mesmo modo que talvez tenhamos que ultrapassar a soleira da porta do outro, se há ali indícios de que um crime ocorrerá contra mulher ou criança ou animal e outros indefesos do lar.

Não há exemplo de Jesus denunciando alguém,  ou fazendo campanha, o que há é Jesus intervindo pessoalmente, contra a multidão, no caso do apedrejamento da mulher. Pense nisso mais seriamente.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

Foto: Monica Belucci como Maria Madalena.

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9 Responses “Queremos delatores covardes ou cidadãos timóticos?”

  1. Romildo
    02/06/2016 at 02:13

    Eu entendo agora porque as feministas malucas ficaram alvoroçadas com esse caso em particular e não com outros que realmente foram mais graves, digo estupro mesmo. As feministas defendem o direito da mulher ser vadia, dar para quantos ela quiser e ao mesmo tempo com vários parceiros, como foi o caso da moça de 16 anos, bem liberal. O grande problema foi que elas não aceitaram a divulgação do fato pelos moleques ao apresentar a “caça” abatida como troféu, como objeto de uso, nas gravações, isso elas não toleraram, mexeu no ego do movimento.
    Se os idiotas não tivessem publicado o bacanal combinado, a tal moça numa hora dessas já estavam em outras rodadas como de costume e se alguma amiga feministas tivesse conhecimento até diria: “..é isso mesmo mesmo, amiga, detona!”. Mas isso se essa amiga fosse bonita e despertasse tal desejo nos homens, porque as feias e as mais rejeitadas iriam ficar com certa inveja, tentando retirar a liberdade da menina.

    • 02/06/2016 at 09:13

      Romildo, sabe qual seu problema, você não sabe se relacionar com mulheres.

    • Romildo
      02/06/2016 at 14:31

      Só set todas as mulheres forem feministas, daí vc teria razão.

      E digo mais, se vc mexer na sua mulher enquanto ela dorme ao seu lado à noite, pode ir se considerando um estuprador pela Lei( estupro de vulnerável ). Rs.

    • 02/06/2016 at 14:51

      Romildo você precisa pedir para um adulto arrumar uma namorada para você. Urgente.

    • Romildo
      02/06/2016 at 15:02

      Não se comporte como um “filósofo de momento”, isso é oportunismo e é infantil. Parece aqueles jornalistas de senso comum. Uma hora veste de vermelho, outra de azul conforme o público deseja. Aprenda a tomar uma posição.

    • 02/06/2016 at 15:10

      Romildo você precisa ter mais atenção para ler um artigo de filosofia. Você não entendeu o texto, pelo quer vi. Quer mais posição assumida que esta que está aí? Ah, já sei, tomar posição para você é ficar alinhado com esquerda e direita burras, que é o que você entende né? Não, meu caro, leia mais vezes o texto. Umas três eu acho que já melhora. Se não der, leia mais três, OK? Vai, faz isso. Vai dar certo.

  2. Jose
    01/06/2016 at 22:13

    Uma coisa que tem me deixado revoltado e ligar a TV todos os dias e ver jornalistas aos berros pedindo a morte de bandidos. Eu entendo que a população está revoltada já há muito tempo com o aumento da criminalidade do Brasil, de crimes bárbaros e tudo mais, mas acho que usar a televisão para dizer rindo e com toda naturalidade como ouvi um dia desses uma jornalista dizer que bandido bom é bandido morto é um tipo de coisa que não deveria existir. Devemos primar pelo bom jornalismo. No dia que vi esse caso do menino acorrentado no poste também fiquei indignado com a aprovação do fato. As pessoas hoje estão defendendo abertamente coisas que aconteciam antes apenas no obscurantismo. Dizem bandido bom é bandido morto em jornais televisivos com a maior naturalidade. O que alguém de um país mais civilizado acharia do Brasil, acharia da televisão brasileira?

    • 01/06/2016 at 22:33

      De fato a volta do jornalismo desse tipo realmente aconteceu. Ele havia decaído no final dos anos noventa.

  3. Marcus
    01/06/2016 at 19:06

    Ótimo artigo, nem ouso comentar. Parabéns.

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