Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

28/04/2017

Da maconha à misoginia


Soninha Francine era da MTV. Fazia um bom programa. Aí foi para a TV Cultura. Bom trabalho também. Mas uma vez pega de surpresa em uma entrevista, respondeu “sim” à pergunta se fumava maconha. Foi demitida por “justa causa”. A TV Cultura alegou que ela lidava com um programa de jovens, e não poderia incentivar a prática de algo que não está dentro da legalidade, o uso da maconha.

Soninha não foi demitida por fumar maconha, mas por dizer que fumava maconha. FHC foi presidente da República, mais ou menos na mesma época, e admitiu que havia fumado maconha. Como secretário da Cultura de Salvador e depois ministro da Cultura, Gilberto Gil foi visto em público fumando maconha. O que poderiam dizer? Algo como “lidam com adultos, não diretamente com jovens”?

Soninha era uma garota naquela época. Uma garota com traços de garota, de moça. Era feminina dentro do que se instaurava como feminino naquele momento. Eis aí o problema.

Na verdade corre na sociedade algo que tem pouco a ver com machismo e mais a ver com misoginia. Uma boa parte da crucificação em relação a comportamentos de mulheres não vem de machismo, mas simplesmente de um rancor específico em relação à mulher qua mulher. Tudo passa e é aceitável, mas quando a mulher se destaca por comportamentos ditos “liberais”, vem sempre algo mil vezes mais terrível que o machismo lhe cobrar. A misoginia não é propriedade de “machões”. Machos ou “machões” não são misóginos. Não necessariamente. Uma boa parte do machismo não tem nenhum problema com as mulheres “liberais”. O misógino tem, se tais mulheres fizerem atos liberalizantes se mantendo mulheres, expondo traços fortes do feminino.

O caso da TV Cultura foi algo que beirou a misoginia. Mulher não pode falar de coisas extremas, embora possa falar de coisas extremas. Depende do extremismo. Assim funciona a misoginia. A mulher é o alvo, mas não pelo fato de se querer mantê-la sob domínio, como no machismo, mas antes por conta dela despertar o inusitado como mulher. A diferença é tênue. Mas para o olhar filosófico agudo, é possível sim distinguir. Até por uma razão histórica: Schopenhauer era misógino. Seu problema era com mulheres, de fato, mas com as que podiam, em algum momento, lembrar sua mãe, escritora de sucesso na venda de livros ruins e uma pessoa que, na mente do filósofo, havia envenenado seu pai. Sua mãe era para ele a essência do feminino na mulher, e daí a misoginia.

O que é o feminino, e sendo assim se faz diferente, é o alvo do misógino. O machista pode querer enquadrar a mulher, o misógino quer que ela abandone o que há de feminino nela, sua própria, digamos, natureza. E se o feminino se mostra como se expandindo, ou seja, a mulher como mulher fuma maconha, a mulher como mulher é boa escritora, a mulher como mulher faz algo interessante – eis aí onde o misógino pega. Ele não quer o feminino fazendo coisa alguma. Ele teme que o feminino se expanda. A pluralidade da existência do feminino e do masculino o incomoda. Tudo deveria ser reduzido. A misoginia é parente do monocordismo e dos dogmatismos. Também é uma obsessão. Por isso o misógino é confundido com o machista, porque ele ataca muito as mulheres. Mas, quando notamos bem de perto o que faz, vemos que ele ataca é o campo de feminino. Ele teme que exista pluralidade de comportamentos.

Muitos misóginos se traem. Há uma leve, mas perceptível imitação deles em relação a certos traços da mulher. Nisso ele difere do machista ou do “machão”. Há uma certa voz e alguns gestos de “bicha velha” nele. Mas a questão aí não é propriamente de homossexualidade, enrustida ou não. A questão aí é que ele não percebe seus trejeitos. O que ele odeia tanto é justamente o que observa demais e, então, pega alguns traços. O feminino que ele odeia se sobressai na hora que faz um ato inusitado, e muitos misóginos se mostram misóginos exatamente nesse momento: nessa hora, copiam o que querem destruir. Os misóginos possuem uma moralidade moralistóide que se revela contra as mulheres. Não se rebelam contra o feminismo se este não trouxer na dianteira mulheres belas ou qualquer outro traço que ele identifique com o feminino (que, claro, pode variar culturalmente).

A beleza das mulheres é problema para o misógino. A inteligência de mulheres, o sucesso delas, tudo isso o irrita se elas se mantiverem ousadas na sua beleza e sensualidade, traços que o misógino pode identificar com o feminino. O que chama a atenção da sociedade nas mulheres, é o que traz, lá na ponta, com olhar sorrateiro e autocorrosivo, o misógino. A feminilidade é o karma do misógino. Repare! Ah, repare na TV Cultura.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 11/09/2016

 

Tags: , ,

8 Responses “Da maconha à misoginia”

  1. Valmi Pessanha Pacheco
    12/09/2016 at 12:29

    Prof. PAULO
    Cumprimento-o pelo texto e pela análise bem fundamentada desse distúrbio comportamental e pela citação da conhecida e decantada misoginia de Schopenhauer.
    Permita-me, todavia, um pequeno reparo sobre a analogia entre a situação relatada quanto à protagonista principal e a do ex-presidente FHC, assim como a do grande artista baiano. No primeiro caso me pareceu ter havido um lamentável preconceito nas relações de trabalho. Quanto aos “homens públicos”, não esquecer que um foi eleito e outro exerceu cargo público de livre nomeação. Na nossa “cultura” é comum celebridades opinarem sobre qualquer assunto, ainda mais que atualmente o tão propalado “efeito medicinal” do THC (alcaloide da Canabis) parece transformá-lo em “droga milagrosa” diante dos deletérios e devastadores efeitos de médio e longo prazo que provoca sobre as sinapses dos neurônios.
    Os adeptos de conhecimentos teóricos que nunca visitaram ou frequentaram instituições psiquiátricas de internação, ou mesmo centros de atenção psicossocial, opinam sempre com muita tranquilidade e soberba sobre o que desconhecem, projetando alhures e generalizando experiências pessoais que consideraram inócuas, porém prazerosas.

    • 12/09/2016 at 13:05

      Valmi o texto não é sobre maconha. Você sabe.

  2. Cesar Marques - RJ
    12/09/2016 at 12:29

    LMC, você tem algum tipo de retardo mental? E eu lá tenho culpa do Eduardo Cunha e Bolsonaro serem do RJ??? Sem contar que pelo seu jargão olavóide “zumbi-mortadela”, é muito provável que você idolatre Eduardo Cunha, Bolsonaro, Pondé, Fernando Holiday, Soninha, João Doria Jr. e outros aí desse naipe.

    • LMC
      12/09/2016 at 13:41

      Cesar.você é debilóide,mesmo.
      Jargão olavóide?????Desde
      quando eu idolatro o Pondé
      e os outros que você citou
      aqui,vacilão?Você idolatra
      é o Lulla,Duduvier e outros
      desse naipe.Vaza daqui,cara!

  3. Cesar Marques - RJ
    12/09/2016 at 09:15

    Bom texto, realmente esclarecedor. Mas só para pontuar, essa Soninha citada pelo senhor, não existe mais. Hoje ela é apenas mais um zumbi-coxinha. Infelizmente, o tempo provoca esse efeito em muitas pessoas.

    • LMC
      12/09/2016 at 09:45

      Cesar,você é um zumbi-mortadela.
      Aliás,vocês do RJ tem Eduardo Cunha,
      Bolsonaro e Pedro Paulo Espancador
      de Mulher.Passe bem.

  4. Alan
    11/09/2016 at 22:31

    Algumas questões colocadas no texto referem-se a misóginos de sexo masculino.

    Assumindo que a misoginia seja concomitante com algum incomodo na “pluralidade da existência do feminino e do masculino” e/ou temor “que exista pluralidade de comportamentos”, então seria possível a existência de indivíduos de sexo feminino também misóginos (note que estou evitando dizer “mulheres misóginas” 😉

    Em tal caso, como indentifica-las? Qual seria a forma de se trairem no gestual?

    • 11/09/2016 at 23:33

      Sim, existe. Alan eu jamais criaria um manual de identificação. Isso é polícia, coisa ruim, não filosofia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo