Go to ...

on YouTubeRSS Feed

15/07/2018

Como reagem as pessoas à campanha de Cleo Pires sobre estupro?


O sentimento complexo e confuso gerado por Cleo Pires e outras atrizes na campanha “Se eu disse não, é estupro”.

Não sei o quanto uma campanha como a de Cléo Pires realmente serve para alguma coisa além de vender revista – nessa crise brava da mídia em geral – e então, na contrapartida, fazer uma atriz continuar na corda bamba de uma profissão duríssima. Não digo que não tem utilidade, digo que não sei avaliar se os objetivos postos podem ser atingidos com esse tipo de coisa.Todavia, quanto às reações verbalizadas a respeito do que se mostra na campanha, aí sim a utilidade desponta. Não para quem não tem olhos, mas sim para a filosofia – ao menos parte dela, a que chamo de “filosofia como crítica cultural” associada à “desbanallização do banal”.

Como são as reações à campanha, as verbalizadas nas redes sociais da Internet?

A campanha “Se eu disse não, é estupro” desperta ao menos cinco grandes blocos constatáveis de reação (fiz um estudo semelhante a respeito do BBB da TV Gçlobo, que foi publicado no meu livro Filosofia, amores & Cia, da Editora Manole e parte também em Filosofia política para educadores, também da Manole). Tomando o que se pode tomar, ou seja, a verbalização, eis o resumo abaixo, do que pode ser notado como parte visível de um laboratório de antropologia e psicologia.

1) As reações que a civilização espera, ou diz esperar, são as de admiração do corpo de Cleo. O imperativo categórico aí é “tome a mulher esteticamente”. Isso ocorre? Sim, ocorre frases que vão no sentido da admiração da beleza, sem evocar violência etc. 2) As reações que a civilização não espera, mas que estão presentes, são as de cobiça violenta: “se não quer ser violentada, por que mostra a bunda?”. 3) As reações que a civilização pode esperar, mas não consegue lidar com elas pela ótica do feminismo atual, são possíveis de resumir mais ou menos assim: “tenho desejo, quero objetificar essa mulher – até presumo que ela também quer – mas isso não significa que quero estuprá-la, quero sexo”. 4) Há também a ambiguidade: “ela é bela, devo pegá-la com cuidado, mas será mesmo que vai dizer um não se um cara bonitão e rico forçar um sexo?” “Será que não há nisso tudo um feminismo hipócrita?”. 5) E por fim, as reações abertamente chulas, mas que podem ser apenas verbalização de chiste, não contendo real intenção de violência: “ah Cleo, sua putona” etc.

Podemos aprender algo dessas reações?

Tudo que não quero aprender desse conjunto de cinco tipos de reação é aquilo que o feminismo de boteco (e infelizmente de universidade) diz: “nossa, quanto machismo!” Machismo é uma palavra que não explica nada, aliás, do modo que está agora, nem mesmo é uma palavra descritiva. Foi esgarçada semanticamente de tal modo pelo feminismo que perdeu a capacidade de ser de algum uso. Mas, podemos ir além disso.

Das cinco reações, a primeira coisa que precisamos ter claro é que elas não indicam intenções de violência que vão se concretizar, nem mesmo se a violência é explicitada nas verbalizações. A relação direta de causalidade entre a violência contra a mulher e a verbalização não é encontrada com facilidade em pesquisas outras – sabemos disso. Os homens falam muito, as mulheres também, mas a agressão é verificada, na prática, por gente que fala pouco sobre isso. Agressores costumam não verbalizar o caráter agressivo contra a mulher. Boa parte dos agressores são familiares que, durante bom tempo, nunca falaram em estupro ou coisa parecida. Mesmo quando se trata de agressores de fora, sendo pessoas com prática constante ou não de violência, a verbalização não indica muito. Aliás, o comportamento do estuprador é o de quem fala pouco, em geral é introspectivo, e tem um forte desejo de ter domínio das coisas; em geral é alguém com forte sentimento de impotência na vida. Portanto, a verbalização não importa para a violência em si, mas para como a violência é percebida e punida. Ou seja, a verbalização dá o tom a respeito de como os não estupradores acolhem ou não a mulher estuprada. Eis aí a questão.

As verbalizações que indicam que Cléo cria, na propaganda, um sem número de opiniões de sentimentos confusos entre os frequentadores da mídia, são importantes não para se saber se há ou não estupradores em potencial, mas se há ou não agentes de serviços públicos, responsáveis pelo acolhimento da mulher, preparados para realmente acolher a mulher que sofreu violência, em especial a do estupro – um caso delicado, pois raramente denunciado, diferentemente da violência em geral contra a mulher. Ou seja, uma boa parte das reações pode ser tomada como a banalização a respeito da fala da mulher, induzindo a delegados, agentes públicos, médicos etc., a não darem atenção devida à mulher violentada, ou apenas, então, em sentido contrário, reagir também verbalmente vociferando bobagens (tipo das coisa do Frota, falando de proteger mulheres, quando ele próprio não é lá flor que se cheire, ou Bolsonaro e outros querendo castrar estupradores, num gesto desesperado de ganhar voto da população mais reacionária). Ou seja, o senso comum a respeito da mulher estuprada é que pode ser captado na fala de reação à campanha – e isso pode revelar o quanto podemos ou não lidar com o cuidado da mulher.

O que pode ser entendido disso tudo, ao menos nesse nível superficial, carente de estatísticas e entrevistas com os que se manifestam na Internet, é que há uma esfera de dúvida sobre o quanto de fato vale o “não” da mulher. Isso sim é bem visível. Pode-se ampliar a conversa se notarmos que, na mesma mídia que Cleo é anunciada fazendo a campanha, há um vídeo dela, altamente sensual, no qual ela diz que sua fantasia sexual é bondage (ser amarrada etc.). Um vídeo em que o que se quer não é mostrar uma entrevista, mas vender o delírio de uma Cléo Pires como um pico da sensualidade e desejo da brasileira. Ora, se colocamos ambas manifestações de Cléo Pires, o da campanha do “não” e o da mostra do vídeo, podem acreditar, toda a campanha parece ir para o brejo, pois aí sim há revelações esperadas, até então não totalmente ditas. Uma boa parte do público, infelizmente, irá dizer – e isso eu garanto, por conta de outros episódios – o que é dito no grupo 2.

No limite, há um saber difundido no senso comum: se a mulher não quer ser estuprada, então por qual razão ela se mostra sensual, pelada etc.? É incrível como esse saber está arraigado em nós todos. É interessante que essa manifestação é a que realmente surge e é esta que é a mais difícil de ser reconduzida ao seu patamar correto. Pois uma sociedade em que eu gostaria de viver (e que, por isso, chamo de civilizada) seria aquela em que uma mulher pudesse provocar todos os homens, que todos esses ficassem violentamente despertados por ela, sem perder a libido, e ao mesmo tempo conservassem a capacidade da admiração estética, a que permite a nunca ultrapassar o “não”. Esse ideal é uma tarefa dura de alcançar. Só é alcançável por sociedades em que a generosidade está vigente (como indico em outro artigo, em dívida para com Sloterdijk), para além da repressão pura e simples.

Paulo Ghiraldelli 58, filósofo.

Veja fotos da Campanha como outras pessoas e também Cleo:

40-1 44 41-1

Tags: , , , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *