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21/10/2018

Casamento não monogâmico. O “poliamor” na jogada!


[Artigo para o público em geral]

Não passa pelas nossas cabeças, nem em fantasia, um casamento a três. A “união poliafetiva” está excluída do ideário meu e da Fran. Mas isso não é verdade para as nossas famílias, ao menos no passado. Aliás, não é verdade para muitas das famílias brasileiras. No Império muitas negras viveram como amantes bem sabidas e conhecidas sob o mesmo teto da esposa legalmente constituída e seu marido. Uma união assim não tinha amparo legal, mas o reconhecimento era de tal ordem que surgiram vários casos de filhos assumidos legalmente, vindos dessa união “secundária”. Aliás “moços pardos” que estudaram fora e que voltaram ao Brasil e mudaram o panorama intelectual do país é um dado histórico relevante.

Esse costume da família regrada pelo “poliamor” nunca se desfez. Com ou sem escravidão. Ela atingiu ricos e pobres, de maneiras diferentes, mas atingiu. Não estou dizendo aqui da existência de amantes escondidas ou semi-escondidas, mas de amantes que viveram na mesma casa, sob consentimento de todos, ou que viveram em lugares próximos, constituindo famílias que mais ou menos se integraram. Ao contrário dessa prática vir da “promiscuidade dos pobres” ela chegou aos pobres vinda de costumes dos ricos, dos amores sem grandes partilhas de terra,  o chamado “família de ricos”.

Hoje em dia discute-se a questão do “poliamor” com olhos iguais aos que, há dez anos, se falava em “casamento gay”. Repentinamente, como se não tivéssemos passado, como se nossos hábitos não existissem, como se livros de história fossem mentirosos, descobrimos o “casamento a três” e soltamos gritinhos de “oh!”, como normalistas virgens, aquelas que faziam sexo somente com a parte não comprometedora do corpo.

A lei atual tem sido mais condescendente com o “concubinato”, para efeito de herança e outros elementos semelhantes. Por que não pode se abrir para o casamento em forma de “trisal”? Ah, vão achar ridículo que na igreja apareça no altar três noivos, ao invés de dois? Mas isso vai de igreja para igreja. Sempre se poderá inventar uma religião a mais para abençoar uma tal união. E cartórios são cartórios. Pagou, eles fazem qualquer negócio, aliás, como igrejas. Que a lei venha a proibir o harém no Ocidente é uma coisa, que a lei possa reconhecer costumes, no Brasil, que vigoram desde há muito, é bem outra coisa. Nada há de mais velho no Brasil que “poliamor”.

As pessoas que são contra o casamento a três se tornar legal fazem ideia de que casamento em forma de “poliamor” é orgia. Ou seja, elas não entendem que casamento é casamento, que a “fúria sexual” se abranda, que as pessoa caminham em casamentos antes por amizade que por sexo, ao longo de anos, e que muita gente pode amar igualmente mais de uma pessoa e ter sua definição de intimidade realmente mais alargada. Nem todo casal é, como Fran e eu, formado por dois filhos únicos, avessos a intimidades não exclusivistas. Há milhares de pessoas que formaram suas individualidades segundo um campo esférico de ressonância (Sloterdijk) desde sempre ampliados, e que foram incentivados, em relações familiares, a ter mais de um amor por vez. E isso por costumes nossos mesmos, ocidentais, sem qualquer vinculação com o mundo árabe. Somos mais “poliamoristas” do que queremos admitir.

As leis sobre o “poliamor” vão mudar, vamos acabar incorporando a união “trisal”. Os conservadores irão ceder, uma vez que eles, não raro, já praticam tal coisa. Outro dia, em uma rádio, o Bolsonaro confessou que fazia sexo com animais. Não poderia ele, a esposa e a cabrita constituírem uma família feliz, a três? Que incompatibilidade haveria? De QI, nenhuma, embora eu duvide que a cabrita poderia realmente aceitar um tal convívio. Cabritas são seletivas.

Bom, mas brincadeiras com os conservadores à parte, o assunto vai estar na pauta legal. De fato, já está. O Conselho Nacional de Justiça está com o assunto nas mãos. Os cartórios estão esperando. É questão de tempo. E não muito tempo.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Foto: ‘Trisal’: Amanda, Daniel e Letícia: juntos há pouco mais de dois anos Edilson Dantas / Edilson Dantas. Retirado do jornal O Globo.

 

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8 Responses “Casamento não monogâmico. O “poliamor” na jogada!”

  1. Bruno
    02/07/2018 at 19:17

    Se as duas mulheres traírem o cara, ele se torna bi-corno?

    • 02/07/2018 at 19:31

      Bruno, acho que a nomenclatura não irá inovar no caso.

  2. LMC
    21/05/2018 at 16:08

    Se o PG não sabe,que fique
    sabendo:o casal Obama vai
    produzir séries e filmes pra
    Netflix.Este casal é ou não
    é orgulho da América?

  3. LMC
    21/05/2018 at 13:57

    É que fiquei tão indignado com
    o que houve(mais uma vez)na
    Faixa de Gaza e com o que
    houve(mais uma vez)com um
    terrorista armado atirar em
    crianças numa escola dos EUA
    e ainda por cima vendo gente
    achar “normais” estas coisas.
    A mim,não.

  4. LMC
    21/05/2018 at 12:26

    E aquele Casamento Real que teve
    no sábado?Um Don Juan se casa
    com uma negra num belo lance de
    marketing,igual Maluf fez com Pitta.
    E todo mundo sai do show satisfeito.
    Rarará!!!!

    • 21/05/2018 at 12:46

      Esse foi o comentário pior que já vi. Não saber apreciar o casamento real é de uma falta de sensibilidade cultural enorme. Talvez isso seja fruto do fato de você só ver o mundo por meio de política, e pior: política partidária.

  5. Augusto P. Bandeira
    20/05/2018 at 02:39

    As religiões ou tradições não têm mais qualquer poder sobre as consciências para lhes dizer o que é certo ou errado.

    Pode-se discordar a respeito de quando houve a ruptura entre a consciência e seus legisladores. Para efeitos didáticos, deixo como referência a separação efetiva entre Igreja e Estado ocorrida em virtude da Revolução Francesa.

    O ideal de liberdade deu margem à expansão quase ilimitada das experiências e à sua catalogação; não nos esqueçamos que a Enciclopédia foi inventada neste período.

    Se a expansão da liberdade parece ilimitada e toda atitude tem consequências, cabe ao Estado apenas o papel de fazer a redução de danos: não é possível acabar com o consumo de drogas? Legalize-se. Aborto? Idem. “Casamento” a três? Por quê não?

    A expansão contínua dos conceitos, por fim, leva à problemas insolúveis na linguagem, já que nada mais significará coisa alguma. Casamento já não significa união entre duas pessoas adultas – e em breve sequer entre adultos ou mesmo entre humanos: não tem quem considere pets como familiares? E a justiça não os reconhece a ponto de levar seus cuidados em consideração quando do estabelecimento de pensão?

  6. Hilquias Honório
    19/05/2018 at 14:19

    Li essa história do trisal da foto. Curiosa no mínimo. As reações dos conservadores são cômicas.
    Essa da cabrita foi foda, Kkkkkk…

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