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19/11/2019

Camiseta de Luciano Huck não deveria ser tirada do mercado


“Vinde a mim as criancinhas”. Jesus mandou fazer camisetas assim, como esses dizeres, e então foi apedrejado pela multidão.

Hoje cedo encontrei um cachorro beagle, filhotinho ainda, vestindo uma camiseta com os dizerem “Vem ni mim, tô facim”. Sim, um tipo Snoopy. Não consegui deixar de abraça-lo e lhe dar um beijo no focinho. Mas logo tive de sair correndo, uma turba gritando “zoofilia, pega, mata” me perseguiu.

Depois encontrei uma garotinha de 4 aninhos, filha de uma amiga, uma fofura que estava com a camisetinha com os dizeres “Vem ni mim, tô facim”. Sou de abraçar cachorro, mas não criança, mas achei-a atrativa demais para não lhe dedicar uma passada de mão na cabeça, acariciando o cabelinho. Nem bem tirei a mão e tive de sair correndo de novo, outra turba gritando “pedófilo, pega, esfola vivo” me perseguiu.

A vida de quem tem amor está ficando difícil. Essa quase ficção dá bem a ideia do clima que vivemos.

Pedofilila no Brasil NÃO é crime, é caso patológico (zoofilia é crime). O abuso sexual é crime. Além disso, abusadores infantis não são “gente da rua”. São membros da própria família – as estatísticas mostram isso. “Vem ni mim, tô facim” não me traz alusão a sexo! Menos ainda se está numa camiseta de criança ou cachorro. Podem perguntar, podem ler as estatísticas: não é só quanto aos não criminosos que os dizeres de camiseta, sejam quais forem, não induz a crime contra criança. Aliás, uma camiseta com dizeres relativamente adultos, que podem ser tomados como um convite a namoro é exatamente o que não atrai o abusador infantil e o que causa repulsa no pedófilo. Quando uma menina começa a ter traços de mulher, mesmo que seja por conta de uma roupa, ela é rapidamente descartada pelo pedófilo. O pedófilo tem mentalidade de criança, e ele procura outra criança. Criança mesmo. O abusador violento, diferentemente, pode atacar crianças e moças, mas será atraído por muitas coisas, por texto é que não! Detalhes que aludem ao campo do racional – a linguagem escrita –são desconsiderados por ele.

O pedófilo raramente é violento. Os casos de abusadores infantis que vemos no cinema estão no cinema exatamente pela perversidade extraordinária, ou seja, por não serem comuns, por isso dão boa história. No cotidiano comum, nada é assim. Só a mentalidade coberta de ignorância sobre a psicologia alheia pode querer criar problema com uma camiseta com dizeres “Vem ni mim, tô facim”. Pessoas assim não vão ler, não vão se informar, e vendo este meu texto vão me chamar de protetor de abusador infantil, “pedófilo” etc. Pessoas assim são perturbadas e, não raro, elas próprias possuem desejos estranhos sobre a infância, ou então medos causados por uma educação provocadora de desvios. A infância delas foi problemática, e não raro porque nunca puderam vestir a camiseta colorida e bonita do Luciano Huck.

É visível isso quando fazemos pesquisa sobre proteção à infância. A maior parte das pessoas que estão em grupos de militância contra abuso sexual, que elas teimam em chamar erradamente de “pedofilia”, não se preocupa nem um pouco com o que fazem os grupos de proteção à criança que atuam contra o trabalho infantil. Aliás, em muitos casos, o primeiro grupo acha que aquilo que o segundo grupo faz atrapalha o desenvolvimento e a melhoria social, porque as crianças deveriam mesmo trabalhar. O trabalho “tira da rua”, não deixa que as meninas “caiam na prostituição” etc. Assim dizem. Ou seja, no primeiro grupo impera o moralismo barato, não a verdadeira preocupação com o bem estar da criança.

O ataque às camisetas do Luciano Huck é uma bola de neve de ignorância, ampliada pelo ódio – obviamente irracional – da esquerda e da direita contra a rede Globo. É um ataque de tudo que há de obscuro em nossa terra. Isso sim é preciso parar.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, professor da UFRRJ. Autor entre outros de A filosofia como crítica da cultura (Cortez).

 

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4 Responses “Camiseta de Luciano Huck não deveria ser tirada do mercado”

  1. Thiago Carlos
    07/03/2015 at 18:10
  2. José
    06/03/2015 at 21:25

    Vc não acha que esse histerismo todo em torno do tema pedofilia tem a ver com uma certa cultura anti-homem que tem crescido no Brasil?
    Parece que o homem é visto como ser inferior as mulheres, como alguém perigoso, psicopata e não raras vezes estruprador. Se queremos homens melhores, tal como os do primeiro mundo, é preciso investir na cultura, na vida cívica mais igualitária e com mais direitos sociais.

    • 06/03/2015 at 22:07

      José ninguém com um pouco de sociologia diria que há algo maior que a cultura do “homem branco” no Ocidente. Isso está intacto. Investimento na cultura nada adianta se não soubermos criar uma harmonia entre o tradicional e o novo na ampliação da cultura. É necessário saber ser culto. Ser culto no Brasil é ser discriminador fora de hora, e não na hora certa. Não pode.

  3. Hugo Lopes
    06/03/2015 at 19:56

    Nossa sociedade está doente, e muito!

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