Go to ...

on YouTubeRSS Feed

21/06/2018

Calligaris e a prostituição como empoderamento


[Artigo para o público em geral]

Mulher tem desejos sexuais. O psicanalista e meu amigo Contardo Calligaris insiste nisso e, por conta da defesa dessa ideia – que não deveria necessitar de defesa, mas necessita (!) – ele levanta a tese de que a prostituição é uma forma de empoderamento da mulher.  É o que diz seu texto na Folha (15/03/2018).

Como sempre, a argumentação dele é boa, mas, desta vez, não foi convincente.

Ele tem razão em dar combate a certo tipo de feminismo que acusa a prostituição de ser unicamente exploração, machismo e alienação. O feminismo simplório, nas mãos de Calligaris, não tem vez. Nisso, concordo com ele. Mas é difícil não perceber que intelectuais como ele, que, como eu, perseguem uma agenda de  ações que busca uma vida mais diversificada e digna para todos, temos a tendência de projetar nos outros e na sociedade em geral gostos próprios, só nossos. Calligaris e eu gostamos de mulheres. Talvez ele goste até mais do que eu. Afinal, não cheguei a ficar na fila de autógrafo da atriz pornô americana Sasha Grey, mas Calligaris ficou. Não pelo livro, mas para poder ver aquela mulher de perto, em carne e osso – no caso, mais para observar a carne mesmo, não os ossos. Esse amor pelas mulheres, essa admiração pelas mulheres, que Calligaris exala, o faz jamais conseguir imaginar a mulher em situação de violência quando o assunto é sexo. Ele sabe como ninguém que a prostituição está associada à violência, que ela é a violência doméstica institucionalizada e sem proteção. Mas na hora de escrever sobre a prostituição, ele doura a pílula. Então, a prostituição salta ao seus olhos com um glamour e uma liberdade que ela não possui.

Claro que tenho medo de ir contra Calligaris e, enfim, cair nas graças dos moralistóides de plantão, que condenam a prostituição por terem tido experiência sexuais ruins, ou por serem criados de forma energúmena, ou ainda por serem frustrados em todo tipo de coisa que se metem. Mas espero aqui ser claro, para que esses moralistóides não venham me aplaudir e não venham usar do meu texto para as suas desgraças. Minha objeção com a tese de Calligaris, de que prostituição é emponderamento, pode admitir em teoria essa faceta, mas na prática a prostituição, por definição, é uma relação comercial. Não importa aqui se estou num mercado livre, onde um quer comprar algo e outro quer vender. O que importa é como se chega a um mercado. Qual o poder de barganha que se tem num mercado é alguma coisa que depende da maneira que se chega nele. E o que importa aqui é como que a mercadoria passa de um lado para o outro na transação. Serviços sexuais são uma mercadoria especial. Todavia, na muda escrever no embrulho do pacote os dizeres “cuidado, frágil”.

A prostituição parece glamourosa na TV, nos filmes A ou B, nos pornôs. Mas ela, na vida efetiva de nossas sociedades, feita por moças pobres ou por estudantes universitárias cujos pais estão bem de vida, implicam em determinado momento no compartilhamento de um espaço privado, solitário, talvez até privado de câmeras (no caso das moças ricas, mais ainda!), entre um comprador de serviços e uma vendedora de serviços. A garantia da integridade psicológica e física da mulher, nessa hora, em que a fruição do serviço, é inexoravelmente feita por alguém atrás da porta, ou não é feita. E surge então, de alguma maneira, o intermediário, o agente da mulher. É diferente do empresário do jogador ou do empresário da atriz. Cafetão é cafetão.

No Brasil, a figura do agente da prostituição é proibida, embora a prostituição não. Desse modo, a proteção paga, se existe, tem de ser levada a cabo clandestinamente – e isso não faz com que uma tal proteção, um tal agenciamento, necessariamente cuide da mercadoria em questão. Quem me garante, como prostituta, que meu protetor, meu agente, sendo uma figura clandestina, não vá, por uns trocados a mais, me deixar cair (cinco minutos só) nas mãos de um espancador, um assassino, um tarado perverso? Ninguém me garante! Até por uma razão simples: esse agenciador não poder existir. E se existir, tudo piora, pois se ele é legal, a criação das casas de prostituição passam a ter donos e, enfim, algumas mulheres serão protegidas e outras, as mais pobres, sabemos bem, não mesmo.

Acreditar que uma situação em que uma mulher, completamente nua, em um lugar reservado e desconhecido, está se emponderando diante da sociedade e do homem que está ali diante dela (talvez armado) é uma insanidade. É preciso glamourizar demais a ideia de que prostituta é o ideal de mulher para esquecer onde estamos, ou seja, no Planeta Terra.

A violência doméstica é nossa constante. E deveríamos notar que a maioria dos homens, quando batem na mulher, nunca deixam de chamá-la de “puta”. E isso mostra bem o quanto ele faria com aquela que é mesmo uma puta. A realidade da prostituição não tem absolutamente nada de interessante, a não ser a de imaginarmos, nós todos, que se trata de um encontro fantástico de potencialização do prazer – claro, é fácil imaginar isso. Mas isso é só e sempre imaginação. É fantasia de homens e de algumas mulheres. Deve sempre ficar na fantasia – fantasia privada, de cada um. Realizar fantasias é um lugar que cabe só no inferno.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 15/03/2018

Foto:  (gift) da bela e provocante Sasha Grey, atriz pornô que representa em filmes a prostituta com desejos incríveis.

Tags: , ,

3 Responses “Calligaris e a prostituição como empoderamento”

  1. LMC
    16/03/2018 at 11:49

    Os homens que chamam
    prostitutas de putas não
    sabem o que é uma prostituta.
    São um bando de carolas
    que o PG e Contardo conhecem
    muito bem.

  2. Bruno
    15/03/2018 at 20:28

    Uma coisa me vem como questão: será que a posição do homem diante da prostituta que cobra pelo serviço é mesma posição que ele fica diante da mulher em casa que ele maltrata?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *