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16/12/2017

Cães mostram que atacar o politicamente correto é coisa de ignorante


Artigo indicado para o público em geral 

Sentei na varanda de uma dessas lojas de conveniência de posto de gasolina. A Fran entrou para pegar cerveja. O Pitoko ficou na porta, do lado de fora, olhando para ela lá dentro. Algumas pessoas sentadas perto de mim comentaram: “olha lá, só esperando a mãe dele”.

Por conta do cabelo branco das pessoas que comentaram, logo percebi que poderiam ter a minha idade. Foi então que me lembrei que nós, dessa geração dos anos cinquenta, estivemos em um Brasil no qual falar que uma mulher era mãe de um cachorro seria uma ofensa imensa. Há quanto tempo foi isso? Trinta anos? Assim pensei. Mas que nada! Puxando pela memória notei que isso não faz dez anos que mudou. Essa mudança completa de vocabulário quanto a cães pertencerem ao conjunto da família, como filhos, é de agorinha. Não dá mais que uma década!

Quando essa nova terminologia foi introduzida, foi o “politicamente correto” que deu o rumo para a situação se tornar mais amorosa, deixando a palavra “dono” de lado e optando pelas palavras “mãe” e “pai” para os cachorros filhos. Atualmente, até mesmo fora dos grandes centros urbanos a terminologia já foi alterada e, junto dela, o comportamento relacional entre humanos e cachorros. O Pitoko tem poupança bancária, tem a caminha dele mas é sempre convidado para dormir conosco, Fran e eu. Ele tem a hora de brincar dentro de casa e fora, no parque. Ele usa nosso banheiro e, aliás, diga-se de passagem, faz melhor que eu. Ele acerta o ralinho dele, com o xixi. Eu sou o maridão tradicional que não acerta o vaso! Pitoko tem as roupas dele e, quando vai ao Pet Shop, ele mesmo escolhe roupas e brinquedos. Mas está longe de ser um criança consumista. Aliás, é isso mesmo: tem oito anos, mas é um eterno bebê para nós. Quer coisa melhor?

A mudança do vocabulário com os cachorros foi tão espetacular, que eles nem mesmo são vistos mais como “pets”. Eles realmente são filhos. O “politicamente correto” agiu tenazmente. Cheguei a presenciar a atuação desse movimento quanto a este especial quesito. Vi veterinários tentando acertar o vocabulário com as pessoas, de modo a não criar constrangimentos. Quando uma mãe chega ao consultório do pediatra, este a trata como “mãe”. Os veterinários começaram a fazer isso. O “politicamente correto” deu essa nova educação para as pessoas, e o período de transição foi rápido. Quase ninguém nem mais se lembra da época em que uma mãe se sentira ofendida se fosse chamada de mãe de cachorro. É interessante que o termo “cadela”, para xingar uma mulher, ainda é usado, mas nenhuma alusão se faz a esse termo quando se fala “mãe de cachorro”. No passado recente a alusão era imediata.

Tudo que disse acima é uma forma simples de lembrar aos que vociferam contra o “politicamente correto” que eles não só a sétima maravilha do mundo que imaginam ser; são só pessoas que não entendem como funciona a história e a vida, e que vão sair sempre perdendo. Não adianta berrarem e não adianta criarem o ambiente tóxico no qual o humor de humilhação, de escárnio, vindo da direita política, quer atacar o “politicamente correto” invocando a (falsa) defesa da liberdade de expressão. Livre é quem pode chamar seu cão de filho. Quem não pode, só perde. Perde amor.

Bem, os anti-politicamente corretos, ainda que tenham escrito livros e feito balbúrdias, são perdedores. A ignorância intrínseca deles os fez derrotados. Eles estão esperneando mais, justamente por isso.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 29/11/2017

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6 Responses “Cães mostram que atacar o politicamente correto é coisa de ignorante”

  1. Francisco Neto
    01/12/2017 at 11:16

    Bom dia Professor, conheci seu trabalho a poucos meses. Li e recomendo a todos a tua obra: Filosofia politica para Educadores. Nesse livro foram abordados diversos problemas sociais e a sintese apresenta por você, foi incrivel no meu ponto de vista. Em relação a esse texto “Cães mostram que atacar o politicamente correto é coisa de ignorante” me deixou cheio de duvidas, eu li o texto por duas vezes e apos esse comentario, partirei para a terceira leitura. O texto obviamente retrata a desconstrução da maldade imbricada na fala “mãe de cachorro” a partir desse ponto me surge a duvida: Chamar a mulher de mãe de cachorro não seria o politicamente INcorreto? afinal, de fato a mulher não pode ser mãe do cachorro, e a partir do contexto usado pelo senhor de que a 10 anos atrás seria visto como ofensa, a desvinculação da ofensa não viria a partir do INcorreto, sabendo que uma mulher biologicamente não seria mãe do cachorro? Estou um pouco confuso em relação esse paradoxo, recomendo seus textos aos meus amigos mas eles só enrolam pra ler, e infelizmente não tive a oportunidade de discutir esse texto com outros além da minha namorada que também ficou confusa com esse paradoxo. Talvez eu tenha interferido na compreenssão dela em relação ao texto. Ademais, passei a admirar o teu trabalho, me identifico muito com a maioria das tuas publicações e passei a recomendar a todos. Grande abraço

    Francisco Neto.

  2. Eduardo
    30/11/2017 at 21:20

    Aqui em casa tiramos nossa primeira foto de natal de nossa nova família: minha esposa, eu e nossos três filhos felinos. Brincamos com a tradição familiar a partir deste novo modelo que inclui. Os reaças burros querem nos fazer acreditar que isso é desvalorizar o humano e que destruirá o que existe. Ja nós achamos o contrário: quando vier um filho humano ele aprenderá o amor e lugar dele na relação com os irmãos de outra espécie. São as mesmas relações antigas (familiares), mas de modos mais leves e inclusivos (famílias ampliadas). Isso que a direita finge não perceber que o politicamente correto não destrói nada que não seja as próprias exclusões , tornando melhor o que já existe e possibilitando a criatividade relacional.

    • 30/11/2017 at 23:00

      Explique isso para o rapaz, o Vlamir, que quer um LGBT de cachorro.

  3. Wlamir Silva
    30/11/2017 at 10:00

    O filósofo entendeu tudo errado… Não há “movimento cachorro”, ou CGPO (Cães, gatos, passarinhos e outros) proibindo ninguém de falar isso ou aquilo… O politicamente correto não é a saudável mudança das relações humanas, é a obrigação de fazê-lo sob o tacão institucional-legal. Aliás, os cães são craques nisso, aproximaram-se dos humanos há milhares de anos e foram conquistando corações e mentes… Sou dono/ pai de uma cachorrinha de nome politicamente incorreto – Crioula -, e a dona reclama de ser chamada de “mãe de cachorro”, em tom bem humorado, cuida dela com esmero materno… Sou visceralmente favorável às mudanças humanizantes, tolerantes e fraternas, e visceralmente contrário ao artificialismo autoritário e obtuso do politicamente correto…

    • 30/11/2017 at 10:19

      Wladimir o politicamente correto segundo você é a caricatura do politicamente correto. Já é o que a direita fez dele. Você caiu na armadilha ideológica. Este texto aqui pode ajudar você a sair disso é perceber que “o filósofo entendeu tudo errado” é uma frase forte, um tanto ousada, e que não deve ser usada à toa. Leia com humildade e atenção: http://ghiraldelli.pro.br/comportamento/os-anti-politicamente-corretos-sao-como-coco-de-cavalo.html
      Pense nisso, para entender a coisa:
      O POLITICAMENTE CORRETO diz para você não falar “isso é coisa de preto” do modo que Waack fez. Então o politicamente correto está errado? O certo é falar a frase racista? Sinceramente, a direita que combate o politicamente correto está errada. Não dá! O politicamente correto não é uma imposição, é um pedido para que a suavidade entre nós se amplie, é um movimento liberal que vem no sentido da “missão civilizadora do Capital” (Marx) e da “carta de Tolerância” de Locke.

  4. Orquidéia
    29/11/2017 at 22:14

    Ele é muito fofinho…

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