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23/06/2018

As pessoas feias são feias


[Artigo indicado para o público em geral]

Os feios têm direito à vida. Mas o direito à vida, segundo a opinião de muitos de nós hoje em dia, é concedido também a caramujos. Sartre sabia-se feio e, por isso mesmo, evitava o convívio social. Ele mesmo revelou que não queria expor os outros a terem de conviver com a sua presença pouco agradável aos olhos.

Não estou falando dos disformes, dos mancos ou de qualquer minoria que possa estar sob algum estigma malévolo. Estou falando dos feios. E que não venha o leitor empaturrado de senso comum e da irreflexão com saidinhas do tipo: “qual é seu padrão de beleza?” Ou: “o que você entende por feio?”. Ou pior ainda: “está você dominado pela ditadura da beleza imposta pela mídia?” Quem entra por essas questões nada faz senão denunciar que está querendo salvar a própria pele, ou o próprio rosto, pois é um feio ou uma feia. Sabemos muito bem o que é o feio. Sartre sabia. E não há quem ouse discordar dele, ontem e hoje, ao ver a sua imagem.

Sócrates sabia-se feito também. Seus amigos também – e bem diziam isso na cara dele. E quando ele encontrou com alguém que nada tinha de grego, um místico persa que via a personalidade por meio do rosto, Zópiro, este o chamou de monstro – e se referiu tanto à face quanto ao seu interior! Os bons filósofos nunca se enganaram por questões de relativismo cultural, tempo ou qualquer outra coisa. Quando a feiura os pegou, eles souberam bem disso.

O mundo não tem lugar para os feios, nem mesmo no banco de trás. A desvantagem de ser feio não pode ser compensada por nada. Gênios feios são, antes de tudo, feios. Podem ser chamados para serem gênios, mas não para um chá. O feio é realmente feio. “A coisa tá feia” é uma frase que vai para além de uma avaliação estética. O que é feio é ruim. Criança feia, mulher feia, animal feio, homem feio – tudo que é feio deveria ter espaço, assim dizemos. Mas não damos espaço. O feio nos repugna. Só uma coisa supera o horror que temos à mulher feia, é a mulher feia com bafo. O homem feio nos repugna tanto que nem mesmo podemos nos dar ao luxo de esperar, para matá-lo, que tenha bafo. Mas é difícil o feio ou a feia não ter bafo. Pessoas feias não convivem de perto com ninguém, são isoladas e, então, não possuem qualquer amigo que lhes possa dizer: “cuide-se, você tem bafo”.

Podemos rezar todos os dias na cartilha dos antropólogos que inventaram o relativismo cultural também no plano estético, mas, na hora “H”, somos traídos pelo macaco. Um macaco diante de uma mulher que chama a atenção do homem, se masturba. O macaco não se masturba diante de mulher feia. Basta fazer a experiência. Macaco adora se masturbar para os seios da mulher. Mas se você coloca diante dele uma mulher feia com seios à mostra, ele reluta. Às vezes até começa, mas acaba desistindo.

Existe algo que podemos chamar de padrão estético, claro, dependendo de época e lugar. Mas isso não quer dizer que exista o feio relativo. O feio tem uma tendência ao absoluto que nos desconcerta. Isso nos assusta. Chegamos numa tribo que nunca vimos, num canto da polinésia, e eis que notamos uma mulher “. Às vezes é uma rainha ou princesa. Mas há controvérsias sobre sua beleza entre os nativos. Se ficamos mais tempo até poder encontrar a mulher tida como feia pelos nativos, nós ficamos horrorizados. É feia mesmo. No caso da feia, a unanimidade vem rápido.

O Pitoko não gosta de cachorras gordas. Também não se dá muito bem com cachorras velhas. Fora da sua raça de Golden? Nem pensar! Fora de sua estirpe ele nem chega a olhar ou querer cheirar. Quando ele escolhe uma cachorra, é sempre bonita aos nossos olhos humanos. Mas, quanto ao exemplar que deixa de lado, mesmo, esta realmente não é a menos feia. É a feia par excellence, aos nossos olhos humanos!

Que o feio tenha a possibilidade de ser absoluto é uma tese com a qual não conseguimos lidar, especialmente nós, os liberais modernos, os que pregam igualdade perante a leis, os que acham que devemos todos ter as mesmas as chances no mundo, etc. Não conseguimos aceitar que, numa creche, crianças que vemos que são feias sejam menos acariciadas mesmo quando variamos as origens culturais das moças que tomam conta do local. A feiura ganha consenso rápido demais.

Essa marca dos olhos que, enfim, desafia nossa tendência à relativização, imperativo moral de nossos tempos, nos perturba. Ou melhor, perturba os honestos. Os desonestos diante desse nosso comportamento agressivo insistirão que nada disso beira a verdade, e que o feio é feio só para alguns.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

IMAGEM: INTERVENÇÃO SOBRE A GROTESQUE OLD WOMAN – QUINTIN MASSYS©THE NATIONAL GALLERY, LONDON. Essa gravura ilustra o artigo de Caio Túlio Costa sobre Maquiavel, capaz de ir para a cama com mulheres que ele qualificava como grotescas. (Veja aqui o texto)

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17 Responses “As pessoas feias são feias”

  1. Douglas
    04/05/2018 at 20:51

    Me identifiquei sobremaneira com o texto, infelizmente…

  2. Márcio
    09/04/2018 at 21:25

    Paulo, já tive a oportunidade de vê-lo na TV e no HORA da Coruja com a sua belíssima esposa. E cá para nós: você é simplesmente hor-ro-roso!

    • 09/04/2018 at 22:22

      Márcio, essa coisa de você ficar falando de minha não-beleza, é uma apreciação estética. Coisa de boiola disfarçado. Não, adianta, não é comigo.

  3. FernandoCR
    06/04/2018 at 16:15

    Professor, podemos, um dia, chegar ao ponto de termos cotas para feios?!?! Afinal há aí uma potencialidade para tal minoria.

    • 07/04/2018 at 00:03

      Minoria precisa de real discriminação, não potencial discriminação, para pedir algo que a “integre”. Os feios estão integrados, integradíssimos. Aliás, até demais. Um departamento de educação só tem professora feia. Ha ha ha Maldade minha.

  4. Heriberto Montero
    05/04/2018 at 16:31

    Além de feio é um velho brocha. Ah, deixa eu te falar um segredo: se alguma mulher te aborda é por causa do seu dinheiro, mané. Sexo mesmo elas querem com o garotão de 25 anos.

    • 05/04/2018 at 18:40

      Heriberto, sim, elas me abordam por causa do meu dinheiro, do meu salário, dos meus carros, apartamentos e iates. Agora, sobre garotão de 25 anos, aí é desejo seu. Não se reprima, diziam aos Menudos.

  5. Tiago
    05/04/2018 at 10:49

    Hmmm, acho que agora sim estou começando a entender seu texto. Eu não me atentei ao fato de que se está falando da *palavra e seus usos* e tbm de que você fala na *possibilidade de ser absoluto*.

    É, realmente isso cria um problemão para nós no século XXI. Cria situações perigosas como a palavra “gordofobia” e “aceite o seu corpo”, o que, em ultima instância, é forçar uma “autorização” social para a pessoa continuar doente (obesidade é doença, ngm diz que o anoréxico deve aceitar o corpo dele).

    • 05/04/2018 at 11:08

      Sim Tiago, a questão é o incômodo que o império do absoluto do feio nos causa, se é que ele existe.

  6. Tiago
    05/04/2018 at 00:33

    Não falou, mas eu estou falando pois para dar sentido á palavra feio, vc utilizou o exemplo do Pitoko e do Macaco. Isso coloca o seu uso da palavra feio tbm no campo semântico das relações sexuais e amorosas, pois está falando que o que é feio é aquilo que é rejeitado por parceiros amorosos ou sexuais. Vc usou Pitoko e Macaco para dizer q o feio é absoluto pois esses rejeitam o feio na masturbação e na procura de parceiros.

    Eu estou usando Alcebíades e Simone para dizer q na palavra feio o uso é relativo, já que tem quem se molhe e/ou fique de pau duro perante duas figuras ditas feias em termos absolutos.

    • 05/04/2018 at 01:34

      Tiago, eu respondi já sua questão. No campo animal, pesa o sexo como “atração”, dado a falta de linguagem. Mas o assunto volta para a esfera humana. E aí, enfiar Alcibíades e Simone, tem pouco a ver com a discussão. É óbvio que ambos gostaram de quem gostaram, mas por razões que nada tinha a ver com estética.

  7. Tiago
    04/04/2018 at 21:49

    Usei a palavra universal por engano, quis dizer absoluto, da forma que imagino que você utilizou, como o oposto de relativo.

    Meu ponto é que os próprios exemplos que utilizou tbm podem apontar para o feio como relativo, pois eu não consigo enxergar Alcebíades e Simone dizendo que seus parceiros são feios, o que volta o conceito para o relativo. Um apaixonado nunca diz de seu parceiro que é feio, por mais que ele seja tomado como feio por um grande número de pessoas. Por outro lado, é possível se apaixonar pelo feio?

    Entendi a questão do ensaio, mas estou aqui tentando dialogar com esse mini ensaio, ou chegar a alguma distinção conceitual.

    • 04/04/2018 at 22:18

      Eu falei em Simone? Em Alcibíades? Não! E não falei em relacionamento amoroso, falei, no caso humano, em feio. Um detalhe: um pragmatista não necessariamente trabalha com conceitos. Trabalho com palavras.

  8. Heriberto Montero
    04/04/2018 at 20:10

    Só acho que tu deverias ter colocado a tua foto, filósofo, pois venhamos e convenhamos, tu é feio pra caramba!!!

    • 04/04/2018 at 22:19

      Heriberto o fato é que sou bonito, chego a ser lindo. Não para mim, eu não me acho bonito. Sou bonito para as mulheres. Fico cansado de ser abordado por elas. Felizmente, gente como você me acha feio. Eu não gostaria de ser bonito para você. Por quê? Por uma razão simples: “Eriberto”. É um nome muito caipira.

  9. Tiago
    04/04/2018 at 17:32

    Entendo que a ideia do texto é dizer que o feio é Universal pelo seu fácil consenso e que hoje, resultado da sociedade liberal, isso cria uma contradição , pois foi o liberalismo que nos ensinou que todos devemos partir do mesmo ponto e ter oportunidades iguais, todos tem o direito de e podem ser amados.

    No caso do Pitoko e do Macaco, você estabeleceu uma relação entre o Feio e a atração sexual/reprodutiva. Mas e Sócrates com Alcebíades? E Sartre com Simone? No caso, está defendendo o feio como Universal, mas poderiam Alcebíades e Simone dizer de seus parceiros feios? Se tu acha teu parceiro feio, como pode se relacionar com ele? “Universalmente ele é feio, mas pra mim me dá um tesão, uma paixão”? Se o feio é Universal e existe uma relação entre o feio e o sexo, feio nenhum transaria, já podia virar eunuco, direto.

    É isso que desafia a tendência à relativização. Fato é que se Simone não se molhasse por Sartre e Alcebíades não fosse um apaixonado por Sócrates, aí sim ficaria mais fácil.

    Outra questão é que a Universalização no texto se liga ao consenso e ,com os tempos, o próprio consenso muda. Voc? mesmo escreveu que um nariz proeminente em mulheres há décadas atrás não era considerado belo, agora é. Homens que viam mulheres tatuadas e com piercing não sentiam tesão em 1930 e agora sentem. O que era tido como consenso fácil e rápido do feio há algumas décadas não é mais.

    Desse jeito fica difícil não tender à relativização.

    Você mesmo escreveu da buceta: estéticamente feia, mas atraente. Não entendo como isso não seja um problema para a ideia de um feio Universal que está relacionada com a atração sexual

    • 04/04/2018 at 18:59

      Tiago, filosofia é para ler com a mente aberta. Espero que suas questões instiguem você, ainda que você mesmo já esteja se fechando ao usar a palavra universal, que eu não usei. Outra coisa: filosofia é um tipo de literatura permite o ensaio, o mini ensaio, e não toda hora a tese acadêmica.

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