Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

27/06/2017

As mães podem diminuir a crueldade no mundo


“Pau que nasce torto morre torto”. Bobagem, árvores se dirigem segundo o sol, o vento e os alimentos. Não entorta aleatoriamente. Pode endireitar. Homens podem ser melhores por conta das antropotécnicas de sua produção, que contém um ingrediente sempre presente, fundamental e constituinte chamado mãe. Nesse caso, esse ingrediente precisa exercer sua função que não se resume do de ser progenitora. Defino o humano, como fiz em livro Para ler Sloterdijk (está para ser lançado oficialmente, mas você já pode pedir para editorial@viaverita.com.br), com seguinte frase: o homem é um animal que tem mãe. Pois isso é o homem, o único animal que é construído por uma mãe.

O que faz uma mãe? Além de milhares de coisas ditas por aí, há uma bem sabida, mas nem sempre feita:  a mãe tem de dizer à criança que um bife não faz nada de bom à saúde, pois é defunto, e não faz nada bem para a nossa moral, pois é um assassinato. Toda mãe sabe como dizer isso, pois não é preciso muito. Mas muitas mães reificam suas crianças, fazem delas coisas que estão no mundo de coisas, prontas para descartar tudo; assim, ensinam a olhar para um bichinho e, depois, colocá-lo morto no prato – até mesmo no Natal, quando comemoramos a vida! Toda mãe tem a posse da mágica de extirpar boa parte da crueldade do mundo, mas se deixa levar pelo “reinado da proteína animal”. Acredita na propaganda enganosa das empresas que diz que matar para comer é necessário (em pleno século XXI!), útil, dá emprego, gera pessoas mais bem nutridas e, enfim, não causa nenhum problema, pois os animais não tem alma e não sabem que vão morrer. Não há pacote mais mentiroso que este. Qualquer pessoa que estuda um pouco sabe que tudo isso é mentira. Tudo isso pertence ao desenvolvimento da origem do capitalismo, e que se tornou completamente superável hoje. Duvido que alguém consiga, diante do prato de kibe de beringela da Fran, falar que não está comendo kibe. Desafio.

A indústria da carne é a indústria do hormônio, da falsa ideia de que proteína só vem do sacrifício de animais, da conversa molede que a pecuária é algo insubstituível no capitalismo e, pior ainda, que animais não sabem que vão morrer e não sofrem. Uma pessoa que faz o ensino médio sabe que tudo isso é balela. Uma criança pode não saber, mas para ela basta dizer o seguinte: os animais e nós podemos ocupar a Terra em harmonia, aqui cabe todo mundo. As crianças beijam os animais. Nós é que dizemos para elas que eles “passam doença”. Mas é o inverso, nós passamos doenças para eles, e um cão em casa faz bem à criança, ele amplia assustadoramente a resistência da criança, cria anticorpos de modo ótimo. Há mulheres que acham que há menos doença na boca de seus beijos nas baladas que os beijos de seu cão, mas isso é outra mentira. As crianças sabem disso, mas há mães que preferem ensiná-las errado. Os cães e os outros animais tem bem um saber sobre nós: não nos temem, esperam de nós o cuidado. Esse saber cósmico deles, nós traímos. Só nós traímos os outros seres vivos. Mães são traidoras.

As mães podem fazer uma revolução contra a crueldade. Podem em poucas gerações mudar o mundo. Não o fazem e, depois, aparecem em todo lugar reclamando de tudo. Mulher-mãe não tem mais esse direito no mundo de hoje, de vir reclamar da crueldade, pois a consciência ecológica, os ensinamentos de cuidado com a biosfera e com os direitos dos animais são acessíveis, e elas podem ensinar seus filhos tais coisas. Afinal, as crianças, nesse aspecto, tendem a seguir essa linha de comportamento. Não é como ensinar física ou história a um adolescente. Não! Não é.

Cada mãe poderia por a mão na consciência e dizer para si mesma: tenho mais poder do que imagino. Pois tem. Mas não faz, prefere reclamar depois.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 17/12/2016

Tags: , , ,

5 Responses “As mães podem diminuir a crueldade no mundo”

  1. Samuel
    29/01/2017 at 00:03

    se as mães são responsáveis por não impedir que seus filhos consumam animais, são também por seus filhos serem imprudentes no trânsito, por beberem e matarem gente inocente em acidentes, por serem grandes corruptos que multiplicam a pobreza, por serem bandidos que roubam, estupram, matam… enfim, todas as deficiências morais que seus filhos apresentam, incomensuráveis. Consumir carne de animal é ruim. Também lamento que as mães não ensinem que matar animais pra comer é errado, mas lamento muito mais pelas mães não criarem grandes cidadãos, capazes de mudar essas sociedades erráticas onde se faz todo o tipo de mal; dentre eles, comer carne. É, acho que prefiro lamentar por isso – muito mais do que por um motivo específico, subproduto de um mal maior, que (supostamente, segundo o texto) as mães poderiam evitar.

    • 29/01/2017 at 00:40

      Não mesmo Samuel. Há coisas que estão ao nosso alcance, mas não o controle do mundo. Hábito alimentar é algo fácil de moldar, pois é feito na infância, imprudência no trânsito não, nem está mais no âmbito da mãe. Você não pensou para escrever.

  2. denis
    18/12/2016 at 17:49

    Acredito que vc quis que as pessoas refletissem como as pessoas podem ser ruins so maltratar por exemplo um cachorro daltitante alegre e indefeso,rs , imaginem o que o ser humano pode fazer com outro ser humano, agora eu amo churrasco?, mas de vaca e boi de porco tbm é bom

  3. Orquidéia
    18/12/2016 at 07:35

    Virei vegetariana já adulta,depois que eu soube que os bois e vacas “pedem por si” no matadouro.
    [nunca fui a um,nem minha mãe]
    Sempre evito pensar nisso…prá não chorar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *