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20/11/2017

Após Michelle Obama, é injusto o mundo voltar ao passado


As atitudes de Trump com Melania começam a dar resultado, talvez bom! Os que realmente querem a emancipação da mulher, agora possuem um parâmetro para julgar: ser Melânia ou ser Michelle? A primeira dama brasileira, a linda e doce Marcela, que tanto enfureceu a parte ignorante de nossa esquerda e de nosso feminismo, não era parâmetro. Discussão há quando há público esperando atitudes, e a questão da primeira dama nos Estados Unidos, sua função e papel, é uma questão real. No Brasil não é e nunca foi. Então, temos de aproveitar a discussão americana, que é mundial, para entrarmos por um caminho melhor. Uma trilha que envolva o relacionamento homem-mulher, especialmente em público, ou seja, o relacionamento que serve como exemplo.

A questão não é Michele ou Melania, mas sim Obama e Trump. Jogar nas costas de Melania o fato dela ser top model e, de certo modo, estar tristemente acostumada a lidar com grosseirões tipo Trump, não é demérito para ela. É a vida. Ninguém pode colocar o dedo no nariz das pessoas pela vida que elas têm. A vida é a vida. Michele cresceu de um modo, Melania de outro. Mas quanto a seus maridos, aí tudo muda. Podem ter crescido de modo diferente, e certamente um harvardiano tem mais de gentleman que um ricaço sem berço. Mas o problema é que a maneira posta por Obama para se relacionar com a primeira dama trouxe de fato uma nova era. Antes, a primeira dama tinha de ser amada e respeitada. Isso nem sempre deu certo. Os republicanos trataram suas mulheres como tradicionais donas de casa, os democratas, como Kennedy e Clinton, as cornearam. Obama deixou tudo isso de lado: tratou Michelle como ele mesmo disse no seu discurso final: esposa, mãe dos filhos dele, “best friend”. Esse último elemento foi fundamental. Michelle se casou com Obama e eles formaram uma dupla. Obama não fazia política todos dos dias, nem mesmo cobrado, pois reservava horas para ficar em casa com Michelle. Trata-se de um casamento que muitos gostariam de ter. Não é para qualquer um. É para ungidos dos deuses.

Melania pode estar muito feliz com seu gorila sem-educação, um homem que não desrespeita mulheres só pessoalmente, mas também como profissional e, agora, como político. Ela inclusive pode não ter força para reagir à situação em que se colocou. Pode nem mesmo ter consciência de que é a boneca que ninguém quer ser – pois ser boneca no bom sentido é ser bem tratada. Mas acontece que, para a política, o modo como ela for sendo tratada deve servir para o feminismo repensar sua prática.

Em vários lugares do mundo, o feminismo se tornou motivo de piada, pois não quis seguir Michelle, “esposa, mãe e best friend”, mas quis eliminar tal figura achando que estava eliminando a tradicional dona de casa serviçal. Esse novo feminismo-piada quis eliminar o feminino do feminismo, pois negou a própria ideia de que há, sim, algo chamado feminilidade. Tornou o feminismo uma forma de moralismo barato, gritaria adolescente e, no âmbito da academia, a estupidez de parte dos “estudos de gênero”. Estupidez? Sim! Pois os tais “estudos de gênero” têm insistido em achar um demônio novo, chamado “sociedade patriarcal”, que tudo explica. Ora, se tudo explica, nada explica. Pois fenômeno tão complexo quanto a questão da subalternidade da mulher não é possível de ser explicado por meio da expressão “é a sociedade machista, capitalista e patriarcal”. É preciso ser realmente uma pessoa sem qualificação intelectual para falar isso. E muita gente fala. Até gente com o diploma de filosofia fala!

Michelle jamais foi por essa via. Aliás, várias correntes do feminismo americano jamais foram por essa via dos textos empobrecidos, vitimistas, e que terminam na “sociedade patriarcal” como sendo a responsável por toda a desgraça de nossos tempos. Michelle sempre foi pela transformação interior da expressão “esposa, mãe e best friend”. E ao fazer isso, Michele agora é o símbolo da luta das mulheres contra Trump. Essa luta é a luta não só pelo livre mercado (que Trump é contra), mas o respeito pelos direitos humanos e pela civilidade. Obama foi um gentleman, é um gentleman. Um homem cujo sorriso acende uma luz no lugar em que ele está. Além de bom presidente, deu um padrão de como tratar uma esposa. Não o cavalheirismo do passado, que punha a mulher num pedestal para prende-la, mas um novo cavalheirismo, que coloca a mulher num pedestal para que ela própria possa pular de pedestal em pedestal, fazendo seu sucesso próprio. Tomara que o feminismo tenha aprendido essa lição. Michelle e Obama ensinaram.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 23/01/2017

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6 Responses “Após Michelle Obama, é injusto o mundo voltar ao passado”

  1. Márcio
    06/02/2017 at 11:28

    Toqueville é um dos meus autores preferidos, inclusive o seu clássico “A Democracia na América”. Mas, infelizmente, não conheço toda sua obra.

  2. Márcio
    05/02/2017 at 22:31

    Caro Paulo, outro dia estive lendo quase todas as redações do ENEM 2015, cujo tema foi “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. Todas essas redações que li em um site da Internet tiraram a nota máxima, ou seja, 1000 pontos. No momento não estou me recordando do site, mas basta buscar no Google: “ENEM 2015, Redações nota 1000”. Li atentamente umas vinte e cinco redações e na maioria esmagadora delas constatei a presença desse conceito de “sociedade patriarcal”, que você critica neste artigo, muito bom e esclarecedor, por sinal. Sim, quando não é “sociedade patriarcal”, é “sociedade machista”, “patriarcado”, “machismo”. Tudo isso para referir-se à violência e a opressão contra as mulheres no Brasil no decorrer da nossa História. O que o professor pensa a respeito dessa transposição de conceitos para um exame da natureza do ENEM que, por outro lado, não tem a prentensão de ser uma tese acadêmica. Você não concorda comigo? E isso acrescido do fato de que, na maioria das vezes, essas redações foram escritas por estudantes recé-egressos do Ensino Médio, muito jovens ainda, na faixa dos 18 ou 25 anos de idade. Tenho 53 anos e obtive 880 pontos naquela Redação de 2015, mas não utilizei tais conceitos que você tão bem critica neste e em outros artigos a respeito do feminismo e da tal “sociedade patriarcal”. Que alívio, após ler seu texto e reler a minha redação de 2015, que ainda guardo comigo o rascunho da mesma! “Sociedade patriarcal… Desse mal, não padeço! E minha notinha não foi nada baixa, modéstia à parte.

    • 06/02/2017 at 09:08

      Márcio, lei Tocqueville, se já não leu, sobre a questão da maioria. Vai se divertir.

  3. Orquidéia
    24/01/2017 at 07:00

    Pois é, agora as “feminazís” terão um espantalho de verdade para atacar.
    Vão ficar bem interessadas nas questões familiares do novo e histriônico presidente norte americano.

    [o agudo no “feminazi” foi proposital]

  4. Hilquias Honório
    23/01/2017 at 19:14

    Essas transformações pelas quais o mundo está passando acertam em cheio aqueles que vivem com a cabeça no século passado. A dificuldade em entender Obama da nossa esquerda é prova disso. Não entendem absolutamente nada sobre o mundo. Mas é bom que o mundo segue avançando, com Michelle a frente.

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