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26/09/2017

Anitta e o ejaculador


Anita é linda, sexy e tem ao seu lado produtores incríveis, que a fazem alcançar boas performances. Seus clipes são adoráveis, se respeitarmos o gênero de entretenimento no qual ela se propõe a trabalhar. Um vereador de Campinas, talvez daquela leva que xingou Simone de Beauvoir como personagem do ENEM (lembram da barbárie?), deu-lhe adjetivos como “vagabunda”, “puta” etc. Anita revidou e o machão ajoelho e pediu desculpas. Ela fez bem em reagir. É preciso colocar o comportamento moralistóide, alimento do fascismo, no seu lugar.

O ejaculador do ônibus, super reincidente, não é um criminoso comum. Seu ato é crime, sendo ele doente ou não. Mas que ele é doente, isso é visível até para quem não tem formação em psicologia ou medicina. Seu lugar não é numa prisão comum, onde seria molestado, mas num lugar de reclusão para tratamento. Mas o que se revelou, ao ser solto, não foi de modo algum um erro de justiça somente, mas a emergência do mesmo sentimento doentio dos que maltratam Anita. Há um sabor de ignorância fascistóide na reação visível na Internet, que pedia que ele fosse castrado. Ou seja, pessoas com ódio das nádegas de Anita são parecidas com pessoas com ódio do pênis esporreador. São pessoas prontas para caírem sob o registro político da extrema direita.

A ideia básica do fascismo é a da superioridade racial. O que se prega é que há uma raça pura. Pessoas que se acham de raça pura aderem ao fascismo, mas o mais terrível da história dessa doutrina é que grande parte de pessoas desprezadas exatamente por pertencerem a grupos subalternizados em tudo, aderem ao fascismo. Imaginam que se puderem estar entre as fileiras dos que defendem uma raça pura, possam sair do gueto de miséria e desprezo em que viviam. Enxergam no partido fascista a varinha mágica lhes daria o aval para serem o que jamais seriam: mandantes e não mandados. Na tentativa de se inserir nas fileiras da extrema-direita, essas pessoas se tornam os mais raivosos defensores de comportamentos fascistas, e elevam a noção torpe de pureza ao grau máximo. Imaginam-se os missionários do Deus da Conduta. Transformam-se nos limpadores do mundo. E como possuem uma noção sobre o sexo que o coloca no âmbito da sujeira, querem extirpar o mundo de tudo que possa ser nádega, vagina e pênis. Transformam-se em gente da pior polícia do mundo, a polícia da castração.

Desse modo, as reações puritanóides aos rebolados de Anita acabam se casando com as reações dos fascistóides que querem todo e qualquer pênis do mundo não ejacule em lugar nenhum, nem mesmo a quatro paredes. Não há crítica ao entretenimento em relação ao trabalho de Anita, mas apenas vingança contra a sua sensualidade. Não há crítica da justiça no caso do ejaculador do ônibus, mas apenas raiva do pênis abstrato, que se manifesta fazendo os que pediram a castração lembrar de quanto não podem ter nenhum prazer com pênis algum, nem com o seu e nem com o de outro!

Há algo doentio no moralismo de tipo fascistóide que reage contra o rebolado de Anita e contra o pênis do rapaz do ônibus. Algo que, em época de eleição, atiça coisas como a “supremacia branca” americana, e despeja votos no conjunto de candidatos que representa a escória do mundo. Trata-se daquele conjunto que quer que o estado, por meio de um chefe neonazista qualquer, interrompa as transmissões da rede Globo, para fazer sumir a Anita, e castre o ejaculador do ônibus, para fazer sumir a lembrança de um pênis ativo em toda a memória da Terra.

Você que não é assim, anti-Anita e anti-pênis, tome cuidado, pois na sua família pode haver alguém aí assim, e que o entregará ao neonazismo, quando este puder promover a limpeza do mundo.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 03/09/2017

PS: alguns escreverão aqui, contra mim: gostaria que fosse sua mãe ou sua mulher a receber uma ejaculada no pescoço. Mas, para quem escrever isso, eu terei de responder o de praxe: leia dez vezes o meu artigo, você não entendeu. E talvez seja alguém que se identificou com um detrator de Anita ou daqueles doentes que temem o pênis.

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9 Responses “Anitta e o ejaculador”

  1. MARCOS A. MORAES
    04/09/2017 at 10:05

    a extrema esquerda está com o mesmo discurso moralista, mas com outro objetivo: quer a cabeça do Juiz. MAM

    • 04/09/2017 at 10:20

      Marcos, o estalinismo é moralista, mas aí no caso do Moro a coisa muda de figura. É outra coisa que funciona: a ideia básica é que as leis “burguesas” são sempre opressoras e blá blá blá.

    • LMC
      04/09/2017 at 10:55

      Bem feito pro juiz que mandou
      soltar o psicopata.Ele atacou
      de novo e foi preso,de novo.
      Grande crônica,PG!

  2. 04/09/2017 at 00:22

    Professor, o fato de eu não gostar do “rebolado” da Anitta não me faz um neonazista, mas me faz ser honesto com meu gosto (aquilo que eu acho gostoso). No mesmo jeito, não acho que mostrar um “pênis” num ônibus é normal, não é questão “moralista”, mas uma questão moral e o senhor sabe muito bem a diferença. A moral e o moralismo são duas coisas completamente, diferentes.

    • 04/09/2017 at 09:26

      Amauri, seu problema é sério, você não entende nem um texto simples.

  3. Hilquias Honório
    03/09/2017 at 22:57

    Professor, antes de mais nada, parabéns pelo aniversário e pela netinha! Mais uma vez me sentindo representado no que escreve. E sei bem disso, pois estou cercado por essa fascistaria. Esses dias, um conhecido chegou a propor que o governo deveria deixar de fazer propagandas a favor da camisinha, e começar a investir na promoção da “abstinência”. Tipos bem representados na figura quase caricata desses vereadores burrões. É cômico, mas também trágico, que tanta gente esbraveje desse jeito, e ainda não possa compreender um pensamento tão simples como o que foi exposto nesse texto. Mas vamos viver a vida, pois esses cabaços podem fazer barulho, mas são a escória, não fazem a roda da história girar.
    Ps: adorei os dois últimos artigos, sobre o Sloterdijk.

    • 03/09/2017 at 23:04

      Honório a sorte nossa é que essa extrema direita, não raro prima do estalinismo no seu ódio ao corpo, em época de eleição acaba não fazendo o número de deputados que promete. Mingua!

    • Tony Bocão
      04/09/2017 at 08:34

      “não fazendo o número de deputados que promete. Mingua!” oxalá! as vezes vendo ao meu redor eu penso o contrário, o que me dá calafrios…

  4. Rafael
    03/09/2017 at 14:09

    Olá professor realmente sobreviver ao mundo contemporâneo é sobreviver a idiotice fascistoide.

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