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19/08/2017

Amor e feras de Calligaris


O amor não transforma ninguém. Quando se ama alguém e se acredita que esse amor vai transformar o amado, fazendo dele uma pessoa melhor, já se deu o passo para um poço cujo fundo são os espinhos da mentira. Caso o amor transforme, só o faz em aparência, e tão logo as coisas esfriem o monstro interior, que recuou por algum tempo, virá à superfície. A Fera será a verdade diante da Bela. Acredito nisso? É difícil negar que tal concepção tem lá sua força. O psicanalista meu amigo, Contardo Calligaris, acredita nisso (veja o artigo “As belas e as feras”, Folha, 23/03/2017).

Todavia, quanto mais acredito nisso, mais sou desmentido pelas coisas que me ocorrem. Minha vida tem sempre me mostrado que Platão não está de todo errado: Eros é autenticamente transformador. O amante se faz melhor para agradar o amado, como ele ensina no Banquete e no Fedro. Muitas vezes, não raro, o amado aprende a retribuir também realizando grandes feitos de várias ordens. Uma cidade erótica sempre tem a ganhar, ainda que a parte timótica precise, às vezes, de prevalecer. No frigir dos ovos, a cidade sempre melhora por conta dos amores nela ocorridos.

Tive três casamentos. Nos três eu melhorei as mulheres e elas me melhoraram. Às vezes até pequenos namoros serviram para tal. Meu casamento com a Fran é regado por um crescimento mútuo. Dizer que não estamos querendo a cada dia poder apresentar uma face melhor para o outro seria uma grande mentira, um perfeito auto-engano em favor de Freud, o eterno cético sobre as paixões sem máscaras. Nesse sentido, damos à cidade o que não daríamos se não fosse pela relação a dois. Negar a força construtiva de Eros e vir aqui dizer que a tese sedutora de Calligaris é vencedora logo no primeiro round e que, então, também posso ser um pessimista aguçado, seria algo do âmbito de uma heresia, uma afronta ao deus. Não creio que seja de bom alvitre ofender os deuses, eles podem revidar. E se Sócrates chegou a temer Eros, quem sou eu para fazer diferente?

Creio que quando falamos que o amor não tem o poder transformador que a tradição ocidental lhe concedeu, tanto a grega quanto a cristã (ainda que sob nomes diferentes dado ao amor), não estamos de fato levando a sério nós mesmos. Falamos do amor como que exigindo deles não feitos humanos, mas milagres, revoluções celestes, e só por isso temos a sensação de frustração na hora dos contratempos. O amor é um agente de melhoria da cidade por conta da melhoria dos casais, do novo “nós” que, segundo o filósofo americano Robert Nozick, é criado na relação amorosa. Mas o amor não tem a possibilidade de tirar a cidade do seu espaço de cidade. A topologia urbana continua regrada pelos seus edifícios. O que o amor faz pela cidade é alterar a topologia surreal na qual nossas imaginações e projetos morais podem mudar. Usando uma metáfora mais lúdica: com o amor eu mudo a peça do teatro, não o palco.  Posso até mudar o palco com o amor,  mas deveríamos esperar menos isso do que em  geral fazemos.

Nozick apresenta o amor de casal como formando um “nós”. Acreditar que não há um “nós” é acreditar que todo e qualquer amor é de fato impossível. Admitir que há algum amor é já admitir um “nós” possível, não eterno, mas se durável, já capaz de alguma transformação. Ninguém é um “nós” se transformações não ocorreram. Amores desfeitos não fazem as pessoas voltarem a ser as pessoas pioradas que eram antes de amar. Em geral, é isso que o casal que termina um relacionamento não entende. Os participantes ficam magoados. Dizem coisas horríveis como “agora estou te conhecendo, você nunca prestou”. Bobagem. Ambos prestaram, e muito. Há ganhos em caráter, bondade e inteligência que o fim do “nós” não desfaz. Se não entendemos isso, ficamos sempre dizendo de amores desfeitos uma mentira. Esta é a mentira: “namoramos uns anos e não deu certo”. Claro que deu certo.

Isso não tem nada, nadinha a ver com o ditado popular “felizes para sempre enquanto durar” ou “que dê certo enquanto dure”. Não. Estou falando de coisas profundas, ou seja, da natureza de Eros.

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo, 23/03/2017

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11 Responses “Amor e feras de Calligaris”

  1. CBC
    27/03/2017 at 11:23

    É o que Calligaris propõe, um amor além do imaginário, além de si mesmo e do outro mesmo.

    • 27/03/2017 at 14:52

      Talvez você tenha razão, mas aí, ele deve ter falado em outro lugar, não no artigo que li, ou em outros da recente leva da Folha. Calligaris é meu amigo. Vou perguntar para ele.

  2. CBC
    27/03/2017 at 09:51

    Calligaris foi contra um tipo de amor, o idealizado, com toda a ilusão de Um que ele trás. Ele valorizou o amor que suporta o excesso. Não pensar assim não é acreditar no simplório dois faz um, na linguagem universal ?

    • 27/03/2017 at 10:09

      Existe amor que não seja idealizado e, por isso, amor?

  3. Gordini
    24/03/2017 at 16:51

    A visão do amor no Zaratustra::

    “A muitas loucuras pequenas chamais amor. E o vosso matrimônio termina muitas loucuras pequenas para as tornar uma loucura grande. O vosso amor à mulher e o amor da mulher pelo homem, ó! seja compaixão para deuses dolentes e ocultos! Duas bestas, porém, quase sempre se adivinham”.

  4. Mantovani
    24/03/2017 at 10:05

    Ótimo, Paulo!

  5. Orquidéia
    24/03/2017 at 07:47

    Que lindo, prof.Ghiraldelli!

    O sr.Calligaris precisa tomar cuidado com o que diz,pois ele é um psicanalista,e os “simplinhos” normalmente se rendem depressa às palavras dos intelectualizados.
    [ainda mais na prosa tão bem escrita dele]

    O amor, mais do que a fé,pode remover montanhas.

    • 24/03/2017 at 08:42

      Mas o Calligaris realmente acredita no amor como sendo uma coisa perigosa e traiçoeira, Freud não diria outra coisa.

    • Orivaldo
      24/03/2017 at 11:56

      “O amor, mais do que a fé, pode remover montanhas.” Porém, e como sempre tem um porém, se você vir uma montanha se movendo corra que é um desmoronamento.

  6. 23/03/2017 at 21:27

    Belo texto, Paulo.

    • Orquidéia
      24/03/2017 at 21:55

      Para o Orivaldo,

      KKKKKKKKK…

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