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24/11/2017

Amor, amores e amar


Para a Fran, minha esposa

Amor é uma palavra que significa união. Elementos que se atraem e querem se unir. É como a força gravitacional, mas sem uma equação regente. Matéria atrai matéria na razão inversa do quadrado da distância e na razão direta do produto de suas massas. Newton assim caracterizou o amor universal moderno, desencantado. Mas os gregos antigos e os cristãos agiram de modo diferente, com um sentido encantado para a força de atração, para o querer ir ao encontro do outro.

Gregos deram ao amor a forma de um deus, Eros. Ele apareceu de dois modos, como deus original capaz de unir as coisas e desfazer o caos inicial, e como demiurgo carente e esperto, capaz de guiar cidades, povos e indivíduos. Para Platão, chegou até mesmo a guiar o filosofar, o querer saber. Para neoplatônicos apareceu no célebre conto Eros e Psiquê.

Cristãos deslocaram essa força de união para o interior de cada indivíduo, subjetivizaram o amor. Transferiram tão impulso para o coração e, aliás, fizeram desse órgão, um pouco na tradição estoica, um processador de buscas pelo ficar junto, cuidar, querer bem. Fundiram filia, o amor de amizade, com eros, o amor do desejo, e produziram um amor com pretensão universal, uma capacidade divina de perdoar até o inimigo.

Eis a história inversa, de maneira pictórica: F = G.mM/dd;   ?;  ?. A fórmula matemática, a seta do cupido e o coração preenchido (ou espetado). Nos três casos o amor surge como força não humana. Napoleão ficou sabendo de Newton que ele não precisa considerar Deus como hipótese para falar da força de união que rege o cosmos, mas, de qualquer maneira, a lei da Gravitação não tinha nenhuma mão humana para rege-la. No caso de Eros, sabe-se bem, ou como um tipo de Titã ou como demiurgo já Olímpico, ele nada tinha de humano, nem mesmo a aparência, pois era um alado. Ao final, apesar do amor cair para o âmbito do coração e depois para a psiquê, como sentimento, como estado d’alma ou disposição mental ou química, e ser então qualificado como característica humana, ele escapa do propriamente humano. Estando no coração, como nos cristãos, foi posto por Deus, e estando na mente logo deriva para a química corporal e, então, é antes do mundo material, algo que comanda a vontade e não propriamente a vontade. Nesse último caso, mantem-se a ideia grega e romana de uma força que delibera por cima da vontade ou imiscuída na vontade, desencaminhando-a em função do mero desejo.

O homem se rende à superioridade dessa força, em termos morais, mesmo quando ela se localiza no seu interior. Em nome do amor, tudo é permitido. A traição à sociedade que se faz em nome da justiça pode ser provocada pela lealdade em nome do amor. Fugas, crimes, roubos podem ser perdoados “se há amor”. O amor é tão difícil de ser sentido (embora pareça o contrário) que, se se manifesta como paixão, pode ser denegrido por vários pensadores, acusado de cegar, mas ao mesmo tempo é enaltecido por outros, como sentimento que não pode deixar de ser respeitado, entendido e louvado. Assim, quando se deixa um esposa ou marido, espera-se que ele ou ela vá aceitar se falarmos que não foi outra coisa senão por algo que não contrariamos: o amor. “Amo outra pessoa, não há mais como ficar com você”. Esperamos que a pessoa deixada saiba entender isso por conta da força do amor e da incapacidade de lhe darmos um basta, e pela nobreza do sentimento. Mas também pela questão da fortuna: quem conhece o amor, quem teve essa sorte, deve aproveitar, pois muitos passarão a vida sem o conhecer. É o que todos nós,  mesmo se traídos, sabemos que vale. Não se pode deixar a sorte passar. Não é justo deixar a sorte passar!

O Dia dos Namorados, pouco importa se criado em função do comércio ou não, é sempre o dia desse elemento misterioso, que tememos e louvamos, que vemos no cão como algo incondicional e que, quando nos pega também dessa maneira, sentimo-nos naquela obrigação dita pela raposa ao Pequeno Príncipe: és responsável por quem cativas. A visão da raposa é de tal modo um imperativo moral que nossa lei a incorporou: “deves amar de qualquer maneira, fujão”. Assim a lei diz ao pai que não paga pensão, e ao marido ou esposa que não cumpre suas “funções matrimoniais”, permitindo aí argumento semi-jurídico para o descasamento.

Simone de Beauvoir é a filósofa que traz o que há de mais correto no escândalo que é o amor: “O ideal do amor e da verdadeira generosidade é dar tudo de si, mas sempre sentir como se isso não houvesse lhe custado nada”.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 11/06/2017

 

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10 Responses “Amor, amores e amar”

  1. Alex Ricardo
    12/06/2017 at 15:18

    Amor fati!

  2. Jose Fernando da Silva
    12/06/2017 at 10:51

    Paulo, em geral concordo com suas palavras. Dessa vez, discordo.
    Aprendi com Wittgenstein que na vida existem fatos, e que a atitude etica passa pelo reconhecimento de que todos os fatos guardam entre si a mesma importanciA (portanto, do ponto de vista etico, todos os dias sao absolutamente importantes e ao mesmo tempo irrelevantes). A atitude etica nos impoe a dificil tarefa de uma entrega maxima no cotidiano a tudo que vivenciamos, fazendo com que nossa uniao com a mulher que amamos ocorra diariamente na vivencia intensa que torna o dia vivido no presente algo absolutamente novo e unico.

    • 12/06/2017 at 11:12

      José, não entendi nada. O que você diz desmente o que eu disse? Agora, o que Wittgenstein diz sobre fato, é tudo, menos o que você está chamando de fatos. Veja-lá. É uma passagem capciosa. Ela não desmente ao todo Nietzsche, que diz que só há interpretações.

    • Jose Fernando da Silva
      12/06/2017 at 13:36

      Quis caracterizar o dia de hoje como irrelevante naquilo que nosso contexto tenta envolve-lo, e ao mesmo tempo caracteriza-lo como um evento em que nos cabe celebrar (com uma atitude expansiva) o amor (assim como em todos os outros dias da vida).
      Nao conheco Nietzsche o bastante para avaliar se ele diz algo proximo de Wittgenstein, no entanto, SE “interpretacao” designar uma especie de mediacao (relacao externa), entao eles nao dizem a mesma coisa.

    • 12/06/2017 at 14:33

      O dia de hoje é irrelevante para você, mas não para quem namora e aproveita a data coletiva para fazer referência e reverência. Agora, sobre fato, em Wittgenstein, isso já não importa no contexto do meu texto, já que você não entrou no assunto do texto, o amor.

    • José Fernando da Silva
      12/06/2017 at 20:12

      Paulo, você tem razão, sou meio eremita e não costumo comemorar datas (o que é um erro, conquanto não o exercite, sei o quanto pretextos se prestam para nos aproximar do que nos é precioso). No entanto, permita-me discordar de você num ponto: penso que falei, sim, do amor. Do ponto de vista tractatiano (que foi o viés com que adentrei nessa discussão), o amor pertence ao inefável, ou seja, podemos dizer que ele pertence ao rol daquilo que compõe a atitude do sujeito em relação ao domínio dos fatos; enquanto tal, ele é fundamental para a expansão das dimensões do mundo do sujeito, assim tornando-o um mundo feliz. Do ponto de vista da eternidade, o amor (a atitude amorosa) deve se estender indistintamente a todo e qualquer fato como condição para a edificação de um mundo com dimensões éticas. É isso.

    • 12/06/2017 at 22:56

      Você pode falar do amor do seu modo, mas poderia respeitar as três formas pelas quais ele aparece historicamente, que foi por onde eu pequei o artigo. Foi isso que eu disse.

    • Jose Fernando da Silva
      13/06/2017 at 08:28

      Voce estah certo. O respeito ao que eh efetivo eh basico, e essas tres construcoes historicas ainda hoje ecoam em nossas vidas.

    • 13/06/2017 at 09:38

      Outra coisa, José, o amor não é inefável, ele é uma relação. As relações não são pedras, mas são completamente elementos do mundo.

  3. Orquidéia
    12/06/2017 at 08:52

    Fio de antena!

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