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24/10/2017

Alunas de colégios públicos começam a andar de calças!


Nos anos setenta o governo da Ditadura Militar autorizou as meninas a virem de calça comprida para as aulas. O uniforme escolar do Estado de S. Paulo, tornado então cinza e branco, trouxe as meninas para a sala de aula com cinto vermelho e calça colante, com leve boca de sino. Foi um show. Nós nunca tínhamos visto aquelas curvas.

Claro que as pernas das meninas, com saias que já estavam curtas, eram uma delícia. Mas ver o contorno dos quadris e das nádegas nas calças foi delirante. Mais fantástico ainda foi namorar no recreio da escola, com as moças podendo encostar aquela bunda saliente em nós. Era difícil não vir com uma baita ereção para casa, que só passava depois do almoço, numa masturbação altamente perigosa, congestiva. Bons tempos.

Aquele foi um sinal de que as vestimentas estavam se tornando mais comuns. Dizia-se na época: unisex. Como nós, meninos, tínhamos cabelos compridos e usávamos o secador da mãe ou da irmã, logo nos acostumamos a ir nos “cabelereiros unisex”. E assim foi com a blusas, calças etc. Isso não parou mais. O nome unisex desapareceu, quando surge hoje, é brega, mas a tendência da indistinção entre vestuário masculino e feminino por outros apetrechos e detalhes, avança bem. No começo deste ano toda campanha de C&A foi com ênfase nessa possibilidade. Não deu outra: isso chegou às escolas. Os meninos do Colégio Pedro II, no Rio (colégio público), estão autorizados a usarem saia. Nada tem a ver com “luta contra preconceito”. Tem a ver com essa tendência inerente à indistinção, que avança à medida que a mulher se integra ao mercado de trabalho. Ela usa calças e, agora, homem usa saia. No calor carioca, talvez seja até mais confortável que ver os meninos com aquelas bermudas horríveis que torna todo mundo meio que “maloqueiro”, como se diz popularmente.

O que as pessoas de olhos pouco cultos não entendem, e então reclamam da saia, são duas coisas: primeiro, não são obrigadas a usar, deixem os jovens usar; segundo, a moda é uma ruptura necessária com o tempo linear, enfadonho, e necessária exatamente à medida que imita o tempo cíclico da natureza.

A moda é com a cheia do Nilo para as primeiras civilizações: marca uma pequena época do ano. A moda faz parte da semântica da expressão “cultura” em seu sentido antropológico: algo da nossa relação com a natureza, com a cultura da terra, com o cultivo e o culto, o culto dos deuses e o cultivo de si mesmo, que leva a criarmos o homem culto. Fazer parte da moda é cultivar-se. É colocar-se junto do ciclo da natureza, da vida. Esse ciclo é tão intrínseco à nossas vidas que romper com a moda é uma moda. Vestir saia é, no momento, integrar-se com outros jovens, com as meninas, participar do momento, ousar mostrar as pernas diferentes, e, com isso, integrar-se num tempo. Como todo tempo, passageiro, mesmo que a saia para homens fique, esse período da “saia na escola” será “um tempo”. Será em bem menor escala e importância, o que foi o “queimar sutiãs” dos sixties. 

A estética bela deixou a moda como também deixou a arte. Arte e moda não se importam mais com o belo, muito menos com o belo em associação ao harmônico. Arte, moda, cosméticos, adornos e tatuagens: tudo isso é vestimenta em um sentido que não tem mais a ver com cosmético enquanto derivado de cosmos, ou seja, de organização harmoniosa. Cosmético agora é força, expressão, perda de harmonia, rompimento. É a moda do rosto. Mas continua sendo moda, ou seja, tempo parcializado para que nunca possamos esquecer que estamos num ciclo. A linearidade do tempo cristão cansa. O ciclo parece nos devolver à natureza. Há algo de moderno nisso, ou seja, de romântico.

Quando compreendemos a moda, suas extravagâncias e pseudo-extravagâncias, só então, podemos saber o que é o jovem vestir saia. Fora disso, vamos vomitar senso comum e, pior, por para fora preconceito de ignorante.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 21/03/2016

PS: cabeçudo, volto a dizer, VOCÊ não precisa usar saia, tá?

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6 Responses “Alunas de colégios públicos começam a andar de calças!”

  1. Valmi Pessanha Pacheco
    23/09/2016 at 10:40

    Prof. PAULO
    Em Estatística “moda” é o valor de maior frequência. No vestuário a “moda” tenta obedecer às estações do ano, sobretudo onde são mais pronunciadas as modificações da Natureza, que se repetem, intermitentemente, a cada ano. Busca-se a proteção, ou mesmo a adequação, às intempéries naturais. Como dizem os estilistas: coleções outono-inverno e primavera-verão, procurando a adequá-las à elegância e ao bem-estar.
    Quanto ao “unissex”, penso que temos de, mais uma vez, retornar ao Mestre Platão e lembrar a alegoria de hermafrodito, que os antropólogos, psicólogos e sociólogos tanto gostam de pesquisar, a despeito da efemeridade da “moda” assinalada, ou ainda à futilidade do tema.

  2. Eduardo Rocha
    22/09/2016 at 16:59

    Paulo, o que você achou das reformas do governo na educação? Vi algumas notícias hoje pela manhã de que alguns conteúdos como Filosofia, Sociologia, Educação Física e Artes deixarão de ser obrigatórios. Me parece que a decisão de incluir essas matérias serão das escolas e redes de ensino.

  3. Jovanilda Saruê
    22/09/2016 at 10:31

    Esses tempos dos anos 70 e 80 eram fantásticos.

    Tanto faz se é calça ou se é saia, as duas coisas podem perfeitamente ser muito interessantes e sensuais. Acho que é preciso romper tabus.

  4. AA
    21/09/2016 at 18:09

    Já faz vários anos atrás, quando ninguem cogitava neste tipo de cross-dressing, tinha uma namorada que costumava usar calças masculinas. Compradas no setor masculino da loja, ou em loja de roupa masculina mesmo.

    Pela talha similar, muitas calças jeans dela ficavam bem para mim, e claro, passei a usar frequentemente. Sempre achei o máximo dispor dessa coleção extra de jeans. Além disso, let’s face it, acrescentava uma certa complicidade adicional no relacionamento.

    Travestismo enrustido pensarão alguns, mas a verdade é que fiquei vários anos com ela e nunca perguntei o motivo desse hábito. Talvez porque nunca fosse uma questão relevante.

  5. Alexsandre
    21/09/2016 at 17:24

    Só não concordo que não seja também uma reação ao preconceito. Isso está explícito no motivo dessa mudança. Moda e preconceito estão lado a lado.

    • 21/09/2016 at 20:19

      Alexandre acho que você precisa lembrar de quando era jovem, algo se perdeu em você. Não somos militantes quando jovens. Só alguns.

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