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20/04/2019

Afinal de contas, o que é ofender o outro?


Os juízes e os promotores estão com uma batata quente nas mãos. Ninguém mais sabe, com segurança, o que é uma ofensa. Mas, em contrapartida, se é assim, eis o reino de melhores ganhos para os advogados. Tudo se presta a entrar como matéria de mais um processo indenizatório ou contra-indenizatório.

Como os profissionais do Direito, todos eles, perderam a capacidade filosófica – principalmente por conta das faculdades que se transformaram em meros lugares e cursos técnicos, inclusive para analfabetos -, então a população começou a procurar os filósofos para que estes possam lhes dizer o que é certo e o que é errado. Estamos em uma sociedade americanizada, em que a guerra de processos de todos contra todos se instaurou da cama ao governo. Então, muitos querem que nós, filósofos, tomados como “profissionais do saber ético”, sirvam como quem possa consultar Deus e dar um parecer mais seguro, quase definitivo, sobre o que vem a ser de fato um pecado que mereça ser exposto a um advogado, de modo a ferrar algum vizinho.

O problema nosso, então, como filósofos, é que não sabemos começar uma conversa sobre ética sem já de cara trazer decepção. Todo bom filósofo é, hoje, antes de tudo um scholar, um professor da filosofia ungido pela academia, e, desse modo, um quase relativista. Ou melhor: necessariamente um perspectivista. Somos obrigados a dizer aos que nos perguntam que há escolas de ética, na modernidade, que disputam terreno. Explicamos a ética do dever, de Kant, e logo falamos do consequencialismo, dos autores da tradição britânica e americana. Isso irrita os que nos procuram. Eles não querem aula, querem dizeres taxativos para saberem se procuram ou não um advogado. Querem saber sobre o “certo” e o “errado” de modo a ver se foram ofendidos ou se a ofensa que fizeram conta mesmo como ofensa.

Sou um perspectivista (eu acho!), e tendo a funcionar de modo oblíquo, causando decepções. Mas, às vezes tento superar isso, e então busco elementos mais decisivos, no sentido de deixar nas mãos dos que me procuram algo mais abrangente. Tenho procurado dar instrumentos no sentido de munir as pessoas com saberes sobre como que, atualmente, definimos o “certo” e “errado”. O critério que tenho mostrado é tirado de um modo de entender a modernidade. Enxergo-a segundo Hegel ou Nietzsche, como uma época da revolução subjetivista. Temos subjetivado muita coisa, temos dado valor a uma tal subjetivação, especialmente porque consideramos a liberdade como elemento subjetivo. E não queremos abrir mão da liberdade – ainda que nesse caso estejamos mais com Hegel que com Nietzsche.

Sendo assim, todas as vezes que estivermos em uma contenda para saber se algo é uma ofensa ou não, o melhor modo de entendermos como que juízes avaliarão um caso, é notar que eles darão uma atenção, ao menos no Ocidente, aos fatores subjetivos. Entre a “liberdade de expressão” e a ofensa objetiva, a primeira pode levar uma grande vantagem. O exemplo mais significativo dos últimos tempos é o da avaliação de um juiz americano, que considerou uma mulher completamente inocente, e sem justificativa para ser multada e mesmo abordada, por fazer o gesto do dedo médio estendido a um policial (Folha de S. Paulo 20/03/2019). O juiz apelou para a célebre Primeira Emenda americana, que protege a liberdade de expressão. Considerou o gesto não como ofensa objetiva, mas como uma legítima demonstração de irritação subjetiva.

O gesto de mostrar o dedo médio significa “foda-se” ou “vá tomar no cu”. Existe na nossa cultura há muitos séculos. Está registrado na comédia de Aristófanes, As nuvens, encenada no ano de 423 a.C. É um gesto pornográfico que indica o falo, e por isso ofensivo. Todavia, não foi assim que o juiz entendeu. Ele alegou que se trata de algo costumeiro, um gesto incorporado no Ocidente, e que perdeu sua conotação de ofensa objetiva e passou a ser algo do âmbito da expressão humana, uma expressão que não pode ser cerceada, que é a de dizer que se está insatisfeito. Eis o que o gesto, para o juiz: estou insatisfeito com a autoridade (policial) e, por isso, eu faço meu gesto com o dedo médio apontado. Não estou necessariamente querendo que a autoridade vá de danar, sirva ao coito e se torna coitado etc. Estou apenas dizendo: “não gostei”. É totalmente lícito, na democracia liberal, dizer “não gostei”. Se não podemos expressar nossa subjetividade descontente com um “não gostei” gestual, a democracia perde seu sentido. Ora, chegamos nisso, nesse tipo de avaliação desse gesto, por conta da modernidade ser a época da subjetivização.

Agamben considera a liberdade como aderente ao gesto que não tem finalidade. O puro gesto. A dança é o gesto sem finalidade. Por isso é expressão da liberdade. Mas, segundo os juízes de nossos tempos, o gesto com finalidade, que é dizer “não gostei”, é uma expressão sim de liberdade. Sabemos que a subjetividade contemporânea passa por problemas diante do conceito clássico moderno de subjetividade, mas, no caso avaliado pelo juiz americano, o que ficou valendo é que a multa sobre o gesto avaliado feriu algo do âmbito subjetivo em geral, algo que tem a ver com a liberdade íntima de se ficar aborrecido.

Creio que se observamos isso, a ideia de subjetivação do mundo como o que rege a modernidade, tenderemos a saber para onde juízes irão olhar, tendencialmente, ao menos no Ocidente. Talvez isso ajude os que nos procuram para saber o que é “certo” e “errado”

Paulo Ghiraldelli Jr. 62, filósofo

9 Responses “Afinal de contas, o que é ofender o outro?”

  1. Thiago
    05/04/2019 at 00:15

    Seria menos trágico se só as faculdades de Direito tivessem se transformado em simples lugares e seus cursos em mero treinamento técnico. As licenciaturas parecem ter só perspectiva de piora.

  2. andre ribeiro filho
    29/03/2019 at 12:41

    ÔÔÔ Professor… olha só…. eu tinha dito pro senhor…. na semana passada…. que quando saiu a pesquisa do ibope… dizendo que a popularidade do bolsa tinha ido pro vinagre… eu falei pro senhor que eu fiquei feliz demais com essa notícia…. e que depois… o zoêro foi pro banheiro e bateu uma punheta…. só por causa dessa notícia ….em sinal de comemoração…!!!!! e ainda… que depois…..na sequência…. eu saboreêi um bolinho de laranja…. um bolinho de laranja fofinho que estava em cima da geladeira lá de casa…. ÔÔÔ Professor… o zoêro anda pensando…. anda pensando que estão aparecendo outras notícias negativas desse governo e que merecem outra punheta…!!!!! e outro bolinho de laranja…. ÔÔÔ Professor… mas aí….antes mesmo deu me masturbar de novo…. ….. eu fico pensando comigo mesmo… assim…. “”” ÔÔÔ Zoêro… presta atenção…. vão aparecer inúmeras notícias negativas desse governo, meu filho……. aos montes…!!!!…. e pela quantidade…. voçê vai acabar batendo punheta quase todo dia….!!!””””” e eu continuo o meu pensamento…. falando comigo mesmo….assim… “”” ÔÔÔ Zoêro… pelo bolinho de laranja tudo bem… mas pela punheta não pode, meu filho….!!! vai ser muita punheta por causa desse governo …. não faz isso, meu filho….!!! voçê vai acabar ficando com a mão peluda….!!!! “”””kkkkkkkkkkkk (Ai, que bobeira…!!!!)

  3. andre ribeiro filho
    25/03/2019 at 14:51

    ÔÔÔ Professor… tem um vídeo no Youtube…. que eu achei legal…. é do canal de um ator famoso que fez a escolinha do Professor Raimundo… old school…. e eu acho que o senhor conhece ele… chama-se bemvindo siqueira… esse comediante é mêio zoêro também na política… e esse ator famoso…. achou interessante o comentário de uma pessoa…. uma pessoa que viu um de seus vídeos…. e a pessoa que comentou… mais ou menos assim… disse… que na política do Brasil…. são os artistas que melhor estão tentando informar à população… e que eles… os artistas…. estão fazendo o papel…. que era pra ser feito pelos jornalistas profissionais…. ÔÔÔ Professor… eu achei interessante … o nome do vídeo é “”tá tudo fora de lugar…”””””

  4. andre ribeiro filho
    23/03/2019 at 12:56

    O ZOÊRO TÁ MALUCO…!!! ÔÔÔ Professor…. o senhor já reparou…. que quanto mais eu escrevo … mais aparecem notícias negativas desse governo…..até o Temer foi preso…. e o zoero fica pensando… assim…””” escreve mais vezes pra ele, zoero…!!!! .””” e eu continuo o meu pensamento…. “”vai que aumenta o número de turbulências desse governo e a reforma da previdência acaba indo pro vinagre…!!!”””””” ÔÔÔ Professor…. e é tanta coisa pra zoar… pra reparar… é muito sortido de notícias bizarras… parece uma fábrica…..uma fartura de temas grotescos…. . e eu fico associando… eu passo a associar essas coisas negativas do governo com o fato deu escrever pro senhor…. ÔÔÔ Professor…. a minha conclusão é a seguinte…. se for para obter o resultado esperado…. o resultado da reforma da previdência ir pro espaço… aí vai valer a pena …. é que nem aquele ditado…””quem não tem cão…caça com gato””””…. e o zoêro…. tá respondendo igual ao governo …. “”””” eu tô respondendo bizarrice com bizarrice também…!!!!”””” kkkkkkk reforma da previdência é o caralho…!!!!

  5. Gustavo Augusto
    22/03/2019 at 11:45

    Ainda vai demorar um bom tempo para os Tribunais Nacionais aderirem a esta linha de pensamento.
    Mostre um dedo para um magistrado diante de um abuso notório e objetivo de autoridade, apenas pelo cargo, que certamente você será condenado a pagar milhares de reais a título de danos morais.
    A subjetividade, neste caso caseiro, depende do titular do ato e do destinatário do dedo. Assim funciona nossa subjetividade jurídica.
    Abraços Paulo, belo texto.

  6. LMC
    21/03/2019 at 14:38

    Quando leio a coluna do Pondé Seu Peru na
    Folha e a merda do Blog do Prévidi dá vontade
    de fazer o mesmo que está na foto.

  7. VANDERLEI LAZARO CREPALDI
    20/03/2019 at 15:20

    Me lembra o conto, de Guimarães Rosa, O Famigerado

  8. 20/03/2019 at 15:05

    Baita texto, Professor.. Como sempre uma perspectiva e visão alem dos olhos!! Merece aplausos

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