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20/11/2018

Adultos querendo brincar de Rambo. Isso é a liberdade do porte de armas.


[Artigo destinado ao público em geral]

Meu avô era um rábula. Foi tão brilhante na profissão que, no final dos anos cinquenta, recebeu um convite para ser advogado no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Às vezes ele andava armado. Gostava de atirar. Foi ele quem me ensinou a atirar. Tenho a espingarda dele até hoje. Não funciona mais, é apenas relíquia. Por muitas vezes estive com ele, em fazendas, atirando. Da espingarda passamos para o revólver, e as competições fluíram. Virei um exímio acertador de latinhas. Eu nem doze anos tinha!

Um dia eu peguei uma segunda arma do meu avô e fui atirar no quintal de casa (ninguém se preocupava com criança armada ou com pedofilia – éramos livres!).  O quintal ficava em pleno centro da cidade. Botei o alvo abaixo do muro, uma latinha que iria ser pipocada. Relei a mão no gatilho e a arma disparou o pente todo, de uma vez, pregando-me um susto danado. Quando me acalmei, olhei a lata. Não havia um furo sequer nela. Mas o muro tinha virado queijo suíço gigante. Aos doze anos percebi, então, que não existe bom atirador para uma arma que tem vida própria. Daí para diante, inclusive, toda arma do mundo todo passou a ter vida própria. Eu me desinteressei delas. Gosto de ter a minha vida própria.

Após os doze anos, ainda se interessar por armas não é uma boa coisa. Um adulto que se interessa em aparecer para outros e para si mesmo com armas na cintura não saiu dos 12 anos. Imagina-se um Rambo. E pior: politicamente começa a achar que existe um Rambo mesmo, e que este Rambão, maior, chefe dele (que está na classe dos Rambinhos), deve comandar a nação. O Estado desaparece em função da tribo. O chefe de Estado precisa ser um fortão que ganha no braço, na arma. Muitos adultos nunca saem dessa idade, dessa infantilidade, desse primitivismo. Não percebem que Trump é um fanfarrão. Não querem aceitar que foi Obama, com calma e inteligência, que realmente pegou Bin Laden, e não Bush.

Essa mentalidade infantil, do indivíduo que acredita que defende a si mesmo e a sua família, contra bandidos que vão entrar na sua casa, age acreditando que é um Rambinho. Esse tipo tem a mesma mentalidade do cidadão que quer combater a violência urbana, como a que se pronuncia no Rio, só com armas. Bala contra bala. Ele não entende que os países onde a violência diminuiu fizeram um sufocamento econômico no banditismo – pegaram os fora-da-lei nos momentos em que quiseram entrar para vida dentro da lei, ou seja, pegaram pelas investigações dos mecanismos de lavagem de dinheiro, do fisco, do rastreamento bancário, das instituições que recebem “investimentos” estranhos, da ligação do crime organizado com políticos, etc.

A bala contra a bala era algo da minha infância, brincando de mocinho e bandido. Tive infância. Gente como o cantor atirador de parque não teve infância. Nem escola. Candidatos políticos militarizados se aproveitam dessas crianças grandes para se colocarem como chefes de tribo. Querem ser presidentes. É gente que já mostrou, na rua, que mesmo armado foi assaltado e humilhado. E por sorte, como manda a polícia, não reagiu. Nem poderia.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

PS1: há grupos de brasileiros que são animais estranhos. Eles se formam advogados, médicos etc., são “profissionais liberais”. Logo prestam exames para delegados e médicos de posto de saúde. Querem um emprego público. Mas continuam por aí defendendo o estado mínimo, o fim do serviço público. Falam em ampliar a polícia, mas querem eles mesmos usar armas, tirando a “monopólio da violência” da mão do estado e, então, inaugurando o estado pré-moderno. O QI baixo leva a esses pensamentos.

PS2: na maior parte dos casos, quando alguém reage em casa contra bandidos, perde a arma e a vida. As estatísticas da própria polícia mostram isso, e por isso mesmo a polícia aconselha a “não reagir”. Mesmo quando tem mais sorte, o Rambinho acaba perdendo: ganha processo, perde dinheiro e, ainda por cima, se torna vítima de vingança. Sua vida e de seus familiares vira um inferno. O Rambinho não entende isso, sua cabecinha é pequena. Não raro, quer ter arma por conta de ter também a segunda cabecinha pequena.

Foto: Silvester Stalone e rival em cena … de machos!

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5 Responses “Adultos querendo brincar de Rambo. Isso é a liberdade do porte de armas.”

  1. Guilherme Picolo
    28/02/2018 at 11:13

    E o Trump pretende distribuir armas aos professores, já pensou? Professor já não atina muito bem da cabeça… ia ser um tal da professora de química duelando no pátio com o professor de história; a coordenadora pedagógica atirando pra cima na sala dos professores, para não ser interrompida; o professor de educação física fazendo roleta russa para moleque gordo que não consegue fazer três flexões de braços… KKKK

  2. LMC
    27/02/2018 at 12:48

    Uma frase preferida dos Rambos:
    Brizola entregou o RJ aos bandidos.

    #Boçalnaro2018.kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    • 27/02/2018 at 12:52

      LMC seu brizolismo não o salva, essa verdade você vai ter de engolir. De fato, Brizola fez um acordo para governar. O tiro saiu pela culatra, pois ao final de seu governo o PDT tinha mais bandido que no morro.

  3. Fabiano
    27/02/2018 at 12:26

    Armas para o senhor esquerdista armas só em posse de criminosos ou agentes da lei, um homem de bem não tem o direito de possuir em sua casa uma arma para sua defesa e de sua família, vcs ditos progressistas estão com dias contados no domínio da esfera cultural haha.

    • 27/02/2018 at 12:53

      Fabiano essa ladainha sua é do Rambinho. Cuidado, você ainda pode terminar com hemorroidas por conta do cano da arma. Bandido é um bicho muito mau com Rambinhos.

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