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21/10/2017

A revolução e a Pílula Rosa


O Viagra foi eleito por bobos da corte como o causador de revoluções mais fecundas que as da teoria de Marx. Será que a Pílula Rosa, a que desperta o desejo feminino, agora liberada nos Estados Unidos, será mais importante que toda a revolução feminista do século XX? Qual será o bobo da corte a dizer isso?

O Viagra permitiu aos velhos poderem ter relacionamentos com jovens. Isso era pedido desde que o mundo é mundo. Homens mais velhos com garotas foi uma característica da união entre bípedes-sem-penas que passou por diferenças históricas e geográficas de todo tipo, e pouco se alterou. Um dia, com o Viagra, ela ganhou uma melhor performance e legitimidade. Mas Pílula Rosa nem de longe é o Viagra, e apesar de se esperar dela o mesmo resultado do Viagra, ela pode levar a outros caminhos.

O Viagra é um subproduto (inesperado) de pesquisas nas áreas da circulação sanguínea. Ele trabalha de modo simples: mantém o pênis com ereção e, então, estimula o desejo. A informação vai do corpo para a mente e esta, pode se engajar ou não. De qualquer forma, se não se engajar, ou seja, se não provocar nem tesão nem amor, ainda assim a performance estará garantida. Mas a Pílula Rosa não tem, obviamente, pênis a atingir.

A Pílula Rosa não vai ao Ponto G. Não o desconsidera, mas segue por um princípio mais, pernasdigamos, feminino: a psicologia. Os problemas do desejo feminino, do senso comum a uma boa parte dos sexólogos, médicos e psicanalistas, tomados como algo do campo mental. O que se pode fazer nesse campo, hoje, com o seu atrelamento cada vez maior ao cérebro, é invadi-lo pelo lado químico. Mudar comportamentos é alguma coisa que hoje se liga às alterações de performances de neurotransmissores. Todos os que têm algum tipo de síndrome de pânico ou depressão crônica já aprenderam isso com qualquer médico clínico geral descente. Os inventores da Pílula Rosa acreditam que acertaram no caminho e no modo de agarrar os neurotransmissores corretos, fazendo-os se ajustarem ao que devem ser ajustados para levar sinais que se transformem em desejos de ordem sexual (sem causar ansiedade?) e, então, de melhoria também da enervação nas regiões necessárias ao sexo. Isso vai possibilitar o gozo? Não sabemos. O Viagra também não garante o gozo, garante apenas o endurecimento do pênis.

O Viagra não elimina a parte que ainda sobra ao que chamamos de “eu”, uma parcela da subjetividade. A Pílula Rosa deverá ir pela mesma linha. Ou seja, no limite o gozo ainda dependerá de cada um e, portanto, ainda estará sujeito às técnicas que dependem da linguagem, ou seja, o campo de atuação da psicologia e psicanálise. Assim, continuaremos com uma verdade ainda válida: remédio não necessariamente elimina terapia e vice-versa. Vão se complementar.

Produto farmacológico não elimina as requisições históricas por revolução. A revolução por uma melhor vida para todos, homens e mulheres, passa por perspectivas ensinadas por Marx do mesmo modo que revolução por uma melhor vida para as mulheres passa por uma revolução feminista. Não estou dizendo que tipo de coisa Marx pode ensinar ou quais os dizeres feministas são os mais importantes. Não estou falando em apologia a Marx ou ao feminismo, mas lembrando de uma coisa óbvia: não somos o que somos por conta de sermos aparentemente divisíveis em partes que podem ganhar soluções parciais por ciências que nos olham de modo parcial. O que estou dizendo é que o desempenho sexual causado pelo Viagra e o causado pela Pílula Rosa, não têm de ser colocados como o alcance da felicidade pela tecnologia.

Ninguém vai gozar melhor em um mundo opressivo, talvez só os bobos da corte possam afirmar isso, uma vez que não sabem o que é o gozo. Bobo da corte pensa que gemido é gozo.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

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9 Responses “A revolução e a Pílula Rosa”

  1. claudio dionisi
    03/09/2015 at 15:18

    Entendi da seguinte forma: Para o homem o sexo não depende só do desejo. O que falta, pode ser complementado com viagra.

    Mas para a mulher basta o desejo. Se não há desejo, o problema é mais embaixo…. Tanto para o homem, como a mulher.

    • 06/09/2015 at 00:09

      Claudio é claro que não falei NADA disso.

    • Claudio
      14/09/2015 at 18:33

      Meu comentário era pra ser a respeito do último comentário da Leni Sena. Não falava do seu texto, rsrsrs. Sei que vc não disse NADA daquilo.
      Estranho… Achei que tinha respondido no post dela…. Em todo caso, desculpe a confusão e obrigado pelo artigo.

  2. 23/08/2015 at 13:24

    Leni não entendi tanta preocupação assim.

    • Leni Sena
      23/08/2015 at 20:56

      Ah, Paulo! sou muito impressionada (pra não dizer frouxa) quando leio as reações adversas das medicações. Enfim, é isso…Ah é soube que é seu aniversário hoje, parabéns professor e obrigada pela paciência e atenção dados a minha pessoa.

  3. Leni Sena
    20/08/2015 at 16:36

    Ou seja, o número de pré-adolescentes empolgados irá aumentar consideravelmente.

    • 20/08/2015 at 16:55

      Não entendi! Pré-adolescentes? No caso da pílula rosa? A pílula é um medicamento, não uma “bolinha”, um LSD.

    • Leni Sena
      20/08/2015 at 21:54

      Nada contra pílula rosa, pelo contrário acho super válido assim como o azulzinho é para os homens. ´Só acho um pouco mais complicado tirar um bom proveito, uma vez que, dificilmente a mulherada tem um preparo psicológico que venha a somar com a pílula. Para o homem já é um prazer ter o pau duro como quando era um garotão, mas e pra mulher? Se ela for fazer uso disso achando que irá ficar molhadinha, que irá voltar a ter interesse por sexo vai cair dura no chão. Quando fui ao ginecologista com minha mãe, o médico sugeriu a ela hormônios pra levantar a moral dela. No início ela relutou alegando que o papai já não garantia com ela com pouco fogo, imagine com mais lenha pra queimar? Resumindo: o véio teve que recorrer ao viagra, pois quando a mulher tem interesse em sentir e dar prazer a medicação só vem a calhar. Acho que o interesse pelo sexo tem que vir antes e não depois da medicação, ou se tem ou não se tem.

    • 20/08/2015 at 23:38

      Leni falta de apetite ou apetite não tem nada a ver com pau duro, ficar molhada ou coisas assim. Anorgasmia é caso sério. Leia sobre a pílula. Acho que você não sacou do que se trata.

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