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17/08/2018

A moda de menina gostar de menina etc.


[ Artigo para o público em geral]

A homossexualidade moderna é um fenômeno recente. Ela não tem a idade da modernidade, se pensarmos esta como uma situação cultural do Ocidente a partir do Renascimento. A homossexualidade que conhecemos hoje é aquela que carrega junto de si um movimento de minoria reconhecido, com a identidade gay afirmada a partir dos desdobramentos do Movimento pelos Direitos Civis e por todo o contexto do Sixties, em especial nos Estados Unidos.

De lá para cá esse minoria sociológica foi do campo de reivindicações de direitos básicos até chegar na invenção de novos direitos, criados especialmente a partir da efervescência da Gay Parade, que hoje é um fenômeno mundial. Há lugares em que a comunidade LGBT é duramente reprimida. Mas não é nesses lugares que a homofobia desencadeia mais mortes. Deixando de lado lugares em que a homossexualidade é crime ou quase isso, não é em Israel ou na Rússia — onde não se tolera a Gay Parade — que os gays  são assassinados. O Brasil tem um histórico mais triste. No entanto, é justamente no Brasil, em sintonia com lugares da Europa central e dos Estados Unidos, que o movimento gay mais trouxe a vida de muitos homossexuais à normalidade ou quase isso. Junto dessa situação, cresce também um novo tipo de erotismo, que tem seu desenvolvimento próprio, mas que certamente se aproveitou em muito da “onda gay”.

Esse movimento tem duplo caminho. Primeiro: é visível que a juventude de classe média hoje tem menos interesse no sexo que as gerações nascidas até os anos oitenta. Segundo: também é visível que os jovens preferem “gostar de pessoas”, sem grandes preocupações sobre a definição de sexo ou gênero dos indivíduos. Em resumo: as pessoas são levemente sexualizadas, e, dentro disso, são pansexuais. Não há preocupação de cada jovem em se definir quanto a isso, e se alguma real definição ocorre, ela agora é bem mais tardia que antes. O que chamamos de meninas e meninos (não há razão para mudar a denominação) se beijam sem grandes preferências sobre se possuem este ou aquele tipo de genitálias. E o coito propriamente dito, se é que ainda posso falar nesses termos, é mais frequente e acontece mais cedo, mas já não se configura mais como um dos “ritos de passagem”. A própria definição de fim da adolescência perdeu o sentido. Aliás, a noção de juventude está na berlinda. Ninguém sabem bem onde colocá-la quando evocamos uma escala cronológica para a classe média.

No meio disso tudo, a sociedade contemporânea se mostra sujeita a um grau altíssimo de cultivo do individualismo – e este termo, aqui, não diz respeito a qualquer conotação pejorativa. Ele quer dizer apenas o seguinte: há muito mais gente morando em apartamentos singles hoje no Ocidente do que em qualquer outra época da modernidade. E isso numa escala impensável há quarenta anos. O mercado imobiliário, com seus preços, mostram isso em Nova Yorque, Paris, São Paulo ou Tóquio. Um apartamento single, novo, com acesso ao metrô, é sempre algo mais procurado e mais caro. Paga-se mais por menos metro quadrado. A vida sem família, sem filhos, mais desonerada, mais leve, acompanha o movimento geral da sociedade contemporânea, e as identidades individuais se preenchem com valores menos ligados a grandes textos, mas a pequenas recomendações vindas das grandes marcas da sociedade de consumo, que, em geral, já não fornecem produtos, mas estilos de vida e perfis apropriados para adesão a causas sociais. Qualquer coisa mais coletiva em termos de benefício para outros, é sempre via grandes campanhas de doação por meio da TV.

Esse individualismo dispensa – ou pensa assim poder fazer – a alteridade, o Outro, o negativo. Portanto, a vida amorosa, seguindo essa trilha, pode também acreditar que deve dispensar o Outro. Abre-se o leque para uma busca um tanto narcísica, onde é preferível encontrar apenas a si mesmo. O sexo masturbatório impera junto com a a atividade sexual com pessoas do mesmo sexo, digamos assim. A busca de um parceiro singular, um efetivamente outro, não mais atrai. Nesse sentido, a homossexualidade tende a ser uma primeira opção. É bem mais fácil para meninas se explicarem para meninas. E, em certo sentido, também isso vem ocorrendo com meninos. “O inferno são os outros” é uma frase fora de moda, porque ninguém mais está ligando muito para o Outro, uma vez que o que se busca para relacionamento é o Mesmo, ou então o Igual.

Assim, posso usar as mesmas marcas, as mesmas roupas e, com isso, encontrar meus iguais, e com eles ter amizade, comer hamburger e fazer amor – ou melhor, “transar”, uma palavra que eu nunca pensei que alguém usaria fora de um texto escrito! A homossexualidade cresceu por uma razão de moda, e não só por uma razão da abertura liberal aos gostos sexuais. Ao contrário, a juventude tem menos gosto pela abertura. Pode-se gostar do diferente, contanto que todos sejam diferentes e, nessa busca do diferente, todo mundo se iguale. Claro, se todo mundo busca o diferente, esta se torna a característica de todos e, portanto, todos ficam iguais. É como ocorreu com a tatuagem. Ela não distingue mais ninguém, uma vez que virou um uniforme.

Os homens mais inteligentes do Marketing já perceberam isso. As últimas campanhas publicitárias da C&A mostram o fim da ideia de feminino e masculino como departamentos estanques. Várias empresas ligadas a presentes para Dia dos Namorados também aboliram divisões. Todo um mercado volta para que você compre um presente para você mesmo, de modo que você use daquilo apenas para estar com aquela marca, vem se ampliando. O amor está nesse diapasão. Ninguém quer mais ter trabalho em amar. Nessa hora, meninas amigas de adolescência podem apostar que é melhor descobrirem o sexo juntas, sem grandes desafios, sem grandes traumas, sem gastar muito na busca de motel etc. Beijos no quarto com a amiga é um programa com menos gasto de dinheiro, energia e mais imune a dissabores. A aventura ocorre, é uma pseudo aventura – mas vale!

Há um bocado de gente da Geração do Lulu Santos que deveria fazer como ele, e aproveitar o embalo dos filhos. Inclusive há alguns que eu não entendo por qual razão está se segurando tanto, ainda com medo. Ora, suas famílias e filhos acabarão aceitando. Os sobrinhos mais ainda. Parem de viver atormentados e tendo de fazer tanta pose. Fiquem com iguais já que com o Outro é tão difícil para vocês! As meninas nascidas neste século XXI, que agora estão alcançando a maioridade, estão ensinando isso.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo.

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3 Responses “A moda de menina gostar de menina etc.”

  1. 30/07/2018 at 15:17

    Texto maravilhoso! Parabéns!
    Adorei o trecho “Claro, se todo mundo busca o diferente, esta se torna a característica de todos e, portanto, todos ficam iguais. É como ocorreu com a tatuagem. Ela não distingue mais ninguém, uma vez que virou um uniforme.”

  2. Eduardo Rocha
    26/07/2018 at 12:11

    Legal esse seu texto Paulo. Creio que no início do século XX começamos a ver o que hoje virou lei com o que você chama de “neoindividualismo” no estilo single-apartamento-marca. A própria figura do youtuber como entretainer, palestrante ou showmaster e ele mesmo passar a conversar consigo mesmo e isso poder ser considerado profissão. Todos agora são comentadores ou “jornalistas” comentando notícias. Todos hoje devem ter um (canal).
    Não é por acaso que a novidade mais característica do inovador mundo da mídia é essa interface que não designa mais o espaço de encontro entre rostos, mas o ponto de contato entre rosto e não rosto ou entre dois não rostos.
    A ideologia nazista engendrou uma identidade corporativa alemã. Hitler, Goebbels & Co o que de certa forma é o indivíduo-empresário na figura de uma só pessoa que vemos hoje o que também não deixa de ser uma “mídia de massa”.
    A se consumou na imagem de sacerdote-maestro de cerimônias de multidões – “massas”. O surgimento do político midiático enquanto showmaster e diretor que normalmente fala em grandes interiores formando um consenso. É certo que na elaboração dessas comemorações se viu uma competência cerimonial ao estilo do absolutismo junto de uma certa magia católica. O renascimento do estádio e da ideia de olimpismo é também bastante importante. Nos estudos sérios da Modernidade, veremos que o totalitarismo moderno não é nada mais que um produto do estádio. A revitalização da ideia olímpica como ideologia moderna com sua força ritual bastante poderosa aliada com a concentração física de massas e o cultivo ao corpo. Esse cenário também se convergiria com a ideia de espírito de competição da sociedade econômica. Um conceito moderno de liberdade diz que tudo que fortalece a competição deve ser permitido. Uma ideia de “renascimento atlético” em tudo. Até mesmo a ideia de saneamento básico-desodorante como se livrar de maus odores (judeus e negros) é uma forma de voltar para si mesmo que passou a ser visto no capitalismo moderno.

  3. Guilherme Hajduk
    26/07/2018 at 11:11

    Eu quero ficar com as Outras!

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