Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

30/05/2017

Sobre o que os homens falam


O feminismo mais inteligente ainda é aquele produzido pelos homens. Cesc Gay (não estranhem o nome!) é o diretor espanhol que produziu o que melhor vi do feminismo no cinema.  Falo da película Uma pistola en cada mano (Espanha, 2012) ou Do que os homens falam, no título brasileiro.

Gay coloca várias histórias de homens entre os 35 e 50 anos, mais ou menos, em situações comuns de adultério, depressão e crise financeira. O marido broxa, o corno e o pulador de cerca babaca também estão presentes. As histórias não são inéditas, mas o ineditismo está presente. É que em todas as historietas os espanhóis (e um argentino), gente famosa por serem histriônicos, emocionais e briguentos, se comportam como lordes ingleses. Tratam tudo segundo uma civilidade inaudita, sempre em voz baixa e suave, e com extrema racionalidade, de modo que lá pelas tantas começamos a ter pena deles todos – e admiração. Nos seus defeitos todos, são espetaculares, anjos mesmo!

 O filme lembra as produções de Almodóvar, um pouco pela história. Todavia, espelha o exato contraponto ao que faz Almodóvar. Não surge o personagem gay ou toda a parafernália do submundo e, exatamente ao contrário dos personagens de Almodóvar, é a serenidade que permanece a marca de todos, homens e mulheres. Nisso, a cada cena, os homens se comportam como quem ou se coloca no lugar da mulher ou é obrigado a se colocar, mudando de opinião sobre o que até então fez. É o mar de compreensão no território que, nós todos sabemos, é o mais explosivo do mundo.

Nisso, o feminismo cede para um verdadeiro tratado de antropologia urbana da vida

Candela Pena Goya

Candela Pena Goya

espanhola moderna. Pois a suavidade é tanta que não há como compreender o filme senão como uma esplêndida tomada de consciência do espanhol a respeito de si mesmo. Em todo o filme, diante de todas as contrariedades, só em um momento um homem faz um gesto grosseiro, bem significativo: o corno não dá um cigarro ao amante de sua mulher.

O ato de não dar um cigarro é simbólico. Quando pessoas estão em dificuldade e são inimigas, ou em situações dramáticas, tudo é amenizado quando do oferecimento de um cigarro. Não dar o cigarro é o único revide no filme todo, e isso mostra que não se está ali com homens bananas, incapazes de negar um cigarro. Não, todos os personagens masculinos não deixam de ser masculinos no sentido de serem capazes de negar um cigarro. Que ninguém tenha dúvida disso. Assim, que não se pense que estão agindo como estão agindo por conta de algum doping ou de uma maluquice do autor, que os fez um bando de trouxas. Todos estão suaves porque são suaves nesse mundo espanhol em que a violência espanhola é posta a nu pelo seu exato inverso, completo contraponto.

Paulo Ghiraldelli, filósofo.

Tags: ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo