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19/08/2017

Scorsese à beira do último homem – o filme “Silêncio”


Na filosofia da história de Nietzsche o fio condutor é o niilismo. Se somos modernos, estamos imersos nele. Trata-se da condição humana na qual os valores absolutos estão desvalorizados e as hierarquias destruídas. No mundo da igualação moderna o homem é um a mais. Quem é um a mais é sempre um fraco. Doente, escravo, fraco, mulher, vaca, cristão … tipos do niilismo. Tipos com os quais Nietzsche se diverte desenhando os “últimos homens”. Caso queiramos “politizar” esse imagem, podemos acrescentar: o homem da democracia, o real último homem.

Não é preciso muita imaginação para, de vez em quando, acreditarmos em Nietzsche como Heidegger acreditou, e ver na rua, ou em nós mesmos, a figura do último homem. Essa situação se põe completamente nua no filme de Scorsese, Silêncio (Estados Unidos, Itália, Japão e México, 2016). A história é a de dois jesuítas que partem para o Japão para verificar se o professor deles realmente abandonou o cristianismo e aderiu ao budismo. Entre várias partes impressionantes, há a de um pecador reincidente que insiste em confessar mais de uma vez, em busca da Salvação. Cansado de tanta busca pela confissão, este homem pergunta ao jesuíta: “como um fraco como eu pode viver num mundo como este?”

Esta é a pergunta do início dos tempos modernos. A sina de se ter todos os dias de voltar com a cara deslavada diante do altar para confessar o que, no dia anterior, a nossa condição de fraqueza fez valer, ou seja, a derrocada de firmes propósitos ético-morais então firmados. Na modernidade tardia que vivemos, até mesmo esta pergunta já pertence ao passado. Não perguntamos mais sobre nossas fraquezas. Acostumamo-nos a ela, abraçamos a democracia, a situação de classe média como padrão e, enfim, a condição de igualitarismo e de usufruidores da eletricidade, da internet, do liquidificador, do anticoncepcional e do Viagra além, claro, da penicilina, do Volkswagen e do cílios postiço que não prejudica os cílios naturais. Melhor ainda: um mundo sem pecado. Nesse mundo atual somos tão fracos, e educados para isso, que às vezes temos saudades de um mundo onde jesuítas eram os sujeitos par excellence. Desgostamos desse mundo sem peso, onde somos apenas o restolho deles, os jesuítas, os primeiros empreendedores (1).

Vamos nos salvar do quê? Vamos confessar? Mas confessaríamos algo que vale a pena ser dito? Nossos pecados se tornaram tão fracos e banais como tudo. Não somos pecadores, somos, no máximo, estressados. Não há dramas de fé, mas dramas por conta de não haver dramas. Nossa pergunta é a inversa da do japonês para o jesuíta. Dizemos: como viver num mundo como este, sendo fracos a ponto de não suportar mais a produção da fraqueza? Fugimos do tédio? Nem força para isso temos. Arrastamo-nos para o nosso personal trainer ou consultor ou psicólogo ou shopping sem qualquer drama. Entramos pelo déficit de atenção associado à hiperatividade como uma reação patológica à patologia gerada pelo tédio da fraqueza. Perdemos a fé e a iniciativa.

Durante o tempo todo do filme, os japoneses lutam para destruir a fé cristã, de modo a preservar no Japão o budismo – uma religião que alguns incautos associam só à paz, deixando o cultivo das guerras somente aos três monoteísmos transcendentes. Mas nós, fora da tela, sabemos que a luta dos japoneses é desnecessária. Segurar à força o cristianismo, fazer os homens perderem a fé, é uma luta desnecessária. Hoje sabemos disso. Foi tudo desnecessário, de um lado ou de outro. Um dia, todos nós chegaríamos a essa situação da modernidade tardia. Tudo é muito suave. Até a vida do terrorista é pouco adrenalinada. Por isso os filmes que retratam nossa vida atual são, no máximo, cenários que os reality shows já mostraram. Vivemos hoje a vitória do intimismo sem intimidade.

Talvez Scorsese tenha retratado com o seu filme o último momento dramático de nossa era. Mas talvez, sorrateiramente, pela figura do japonês que incessantemente pede para confessar, que no filme é a voz do silêncio ou o modo como Deus fala, Scorsese esteja nos dando um recado: agora, como Deus está morto, mais ainda sua voz seria a do silêncio que poucos sabem escutar.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 27/03/2017

(1) A tese dos jesuítas como os primeiros modernos é de Sloterdijk, eu a exponho e explico no livro Para ler Sloterdijk (Via Vérita, 2017). [Pegue aqui]

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