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16/08/2017

A Pastoral Americana – um modo inteligente de explicar ideologia


Caso procure a sinopse de A Pastoral Americana, pode encontrar algo mais ou menos assim: “Nos tempos do colégio, Seymour Levov (Ewan McGregor) era um grande atleta. Depois dos estudos, ele se casa com uma antiga rainha de beleza da cidade, e herda os negócios rentáveis de seu pai. A vida parece perfeita, até a filha do casal começar a manifestar atitudes políticas extremistas, participando de atos terroristas mortais durante a Guerra do Vietnã.” Você apostaria num filme político. Mas não é, não do modo tradicional.

O filme foi dirigido por Ewan McGregor, que também atua, e traz para a tela o livro de 1997 de Philip Roth, que foi premiado com o Pulitzer, American Pastoral (publicado no Brasil pela Cia. das Letras) Ao contrário de algumas críticas desfavoráveis, fiquei estarrecido com a produção, com a possibilidade de trazer para o mundo da sétima arte um livro denso. Mas, é claro, nunca faço crítica de cinema, apenas vejo os filmes com o olhar do filósofo, nesse trabalho do meu blog de “filosofia como crítica cultural”. É o que segue.

A Pastoral Americana (2016) é sobre o desconhecido a respeito do mais conhecido, do mais previsível, do mais banal. A cada passo do filme, tudo ocorre como de fato deve ocorrer, ou seja, como o que parece estar previsto por conta de uma análise inicial de um dos personagens a respeito da heroína.

Uma menina gaga (Dakota Fanning) não consegue ser a perfeição que sua mãe (Jenifer Connely) é em termos de beleza, e adquirindo certa sensibilidade na infância, uma vez na adolescência se dirige para o campo do extremismo político, quase uma negação da “família americana perfeita”, mesmo sendo uma família nada reacionária. A certa altura do filme, tudo está dado por um dos personagens, a psicanalista que diz essas verdades para o casal, quando este a procura por conta da gagueira da garota. Essa personagem praticamente dá o desenvolvimento do filme, e ao final, ficamos com a sensação de que ela contou o enredo antecipadamente.

Todavia, só então, ao final, percebemos que tudo no filme ocorre como deveria ocorrer, como ela disse no início, mas que ela mesma é que provocou muito do ocorrido, pois participou do destino da menina gaga. Ela própria acreditava no seu diagnóstico que, enfim, era antes fruto de ideologia que de uma doutrina crítica. Todos os clichés de esquerda usados pela garota e amigas extremistas haviam sido proferidos pela psicanalítica, mas numa forma acadêmica. Durante o desenrolar do enredo, foi fácil para o pai da garota chutar fora os clichés (família burguesa perfeitinha que não liga para o Vietnã etc. etc.). Nós também conseguimos fazer isso, acompanhando o filme. Mas não fazemos o mesmo com o discurso da psicanalista. Ao fim do filme, por vários minutos, ficamos com a sensação de que a psicanalista havia diagnosticado certo e que o enredo se desenvolveu a contento, como um desdobramento possível em acordo com o diagnóstico que deu. Mas, passado esses minutos, então notamos – eu notei – que o filme nos pega pelas costas, pois a grande verdade da psicanalista é que essa verdade poderia ser mostrada como uma mentira visível, se traduzida nos clichés de esquerda da garota.

Uma coisa é a revolta contra a família perfeita dos anos cinquenta nos Estados Unidos (aquela família que hoje chamamos de “família comercial de margarina”), o que se explicitou nos anos 60 em protesto político e social, e que se fez na base de jargões políticos banais. Outra coisa são as narrativas presentes nessa história: um psicanalista pode produzir uma narrativa que nos agarra, dizendo a mesma coisa que uma narrativa que nos afasta, uma vez que esta, por conta dos clichés, é facilmente detectada como ideologia. Toda conversa feita por clichés de esquerda, na boca da garota gaga, é rebatida por seu pai inteligentemente, e nós junto com ele, na poltrona. Mas não conseguimos fazer o mesmo com a narrativa da psicanalista, mesmo após termos descoberto que ela é uma da responsáveis pelo destino da garota e que também ela estava envolvida até o pescoço no campo cultural da esquerda extremista.

Talvez esse filme seja uma das peças mais sofisticadas a respeito das possibilidades de diferenciações narrativas, que fez Richard Rorty escrever boa parte de sua obra, falando do perspectivismo. Mas, de certo modo, por meio de uma análise um pouco diferente da de Rorty, que reinvoque a noção de ideologia, ou seja, a mentira que se apresenta como verdade porque de fato tem lá sua verdade, podemos perceber o núcleo forte do filme. Trata-se de um filme sobre ideologia, um filme sobre como a ideologia funciona não só quanto aos personagens, mas como que nós mesmos, na poltrona, vamos nos enredando no que é a função da ideologia. A ideologia nos engana não por ser uma deslavada mentira, mas por poder mostrar a mentira e, então, ao dizer a mesma coisa que a mentira, se mostrar verdadeira – aparentemente verdadeira.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 07/06/2017

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2 Responses “A Pastoral Americana – um modo inteligente de explicar ideologia”

  1. Daniel
    11/06/2017 at 02:12

    No momento que o pai dela vai visitá-la pela primeira vez no cortiço, ela chega a falar que nega o próprio corpo e não sente nem vontade de tomar banho. A vida dela se empobrece de um jeito que ela se acostuma com aquilo por um “ideal maior”. O que me causou estranheza foi que ela não quis mais o contato social com ninguém, muito menos afetivo, ao mesmo tempo que reivindica uma melhor sociabilidade das pessoas, uma melhor convivência. O “conhece-te a ti mesmo” por ela se mostra vazio, desprendido de sentido, até mesmo o moderno.

    • 11/06/2017 at 09:12

      Não foram poucos os que adotaram alguma mortificação oriental, após terem sido da extrema esquerda dos anos 60/70.

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