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25/04/2018

Padilha diante da semi-distopia do “mecanismo”


[Artigo indicado para o público em geral]

O gênero literário usado por Padilha é, claro, o ficcional. Entre dezenas de opções, a sua escolha pelo gênero-ficcional-com-informações-históricas me pareceu realmente uma boa opção. Mas Padilha fez mais. Ele aperfeiçoou a técnica envolvida nesse gênero literário por meio do respeito máximo ao título da série, que é o âmago do trabalho e seu espírito verdadeiro.

Padilha tinha um perigoso caminho a seguir: tratar o mecanismo em O mecanismo como não sendo um mecanismo. Esse erro poderia ter ocorrido.

O mecanismo é uma imagem moderna. A metáfora criada com ela, que passou ao mundo social e humano, veio primeiramente da observação do relógio. A ideia tem a ver com o fato de que algo pode, uma vez desencadeado, funcionar sozinho, sem intervenção, e que tudo que está no contexto da caixa mecânica está ali com alguma tarefa. Mas tudo que está ali, está com peça com “dentes” de engrenagem. Nada é inútil no relógio. Nenhuma peça pode não estar “engrenada”. Isso encantou os primeiros modernos. Padilha foi respeitoso com essa ideia.

Mas ocorre que o mecanismo competiu com outra ideia, a do organismo. Este, por seu turno, veio depois. Mas criou também boa metáfora. O organismo é também um sistema autônomo de funcionamento. Todavia, diferencia do mecanismo em um ponto essencial: suas peças possuem uma especificidade. Não se trata das engrenagens do relógio, iguais ou ao menos semelhantes umas com as outras. Trata-se do fígado que ajuda o rim e que é bem diferente dele. Quando falamos hoje em mecanismo, falamos só em parte em organismo, em imagem de relógio. Essas ideias, a do mecanismo e do organismo, se confundem. As metáforas se trocam. Padilha também obedeceu essa visão do senso comum e da modificação metafórica. O que descreveu como mecanismo tem algo de organismo.

O respeito dele, Padilha, a tal situação foi utilizada de modo perfeito a poder embaralhar as falas tiradas da experiência que tivemos, todos, em nosso país, na sua vida política recente. Aliás, a Internet até chegou a brincar com isso. Muita gente na Internet coloca pessoas falando o que outras já haviam falado, e mostrando como que as falas de políticos, no “pega para capar”, podem ser trocadas. A mentira e o interesse mesquinho se torna de tal modo disseminado pelos políticos que nos divertimos em mostrar, em nosso cotidiano, um político falando em seu favor aquilo que o outro já havia falado em seu favor, contra o primeiro. Uma dessas situações: “o governo está falido, não há dinheiro para o salário dos professores”. Não há governo de esquerda que não repita isso, imitando o governo da direita, que o líder esquerdista atacou quando estava no sindicato. O único homem honesto, nesse sentido, foi FHC, dizendo “esqueçam o que escrevi”. Cínico, mas foi honesto.

Se Padilha não tivesse sido religiosamente fiel à ideia de criar uma história em que o mecanismo-organismo se mostrasse como tal, o que implica que cada político pode ser substituído pelo seu aparente opositor por conta do “sistema” (ele poderia ter usado essa palavra, caso ela não tivesse virado piada, como ele bem demonstrou na frase “o sistema é foda”, na boca do Capitão Nascimento), ele teria falhado nuclearmente. Mas não falhou. Não vou entrar aqui no mérito da estética e outras questões de cinema. Mas, quanto ao gênero que escolheu e quanto ao respeito ao que o gênero implica no uso da narrativa que construiu, nisso Padilha foi mestre. Mas nem sempre o trabalho de um mestre é entendido por quem é da política. Pois a política, como O mecanismo mostra, é a arte de estar podendo falar qualquer coisa que interesse ao que há de mais mesquinho entre nós, humanos.

A política é nuclear para a democracia. Ela é perversa. Mas, dizem os opositores de Lênin, que o mundo que ele queria, sem política, é pior. A democracia, mesmo ruim, é algo bom – muitos acham isso. A série de Padilha denuncia a democracia, mas segundo um gosto bem definido de Padilha. No fundo, ele a ama. No fundo, Padilha imagina que ao denuncio “o mecanismo” ele esteja podendo ficar de fora. E nós também. Nós que não somos políticos temos o direito de achar que nosso voto não é estar dentro do “mecanismo”. Isso pode ser uma ilusão, uma ingenuidade. Mas é isso que nos faz viver. Achamos mesmo que o “mecanismo” só atinge a “sociedade política”, não a “sociedade civil”. Há distopias que mostram o oposto. Elas também estão na Netflix, na série Black Mirror.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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One Response “Padilha diante da semi-distopia do “mecanismo””

  1. vera bosco
    02/04/2018 at 11:46

    As excentricidades de Daisy Buchanan foram inspiradas por Zelda Fitzgerald no Great Gatsby.
    Dissociar a ficção da vida é tarefa ainda não realizada na narrativa.

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