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16/12/2017

Os “Oito odiados” não é um “Django livre”, infelizmente


Django livre é mais culto que Os oito odiados. E também mais sofisticado psicologicamente. No primeiro a trama tem como referência o que está na biblioteca da grande fazenda Candyland , o livro do escritor negro Alexandre Dumas (veja artigo), e também a complexa psicologia do vingativo negro capataz (Samuel Jackson), completamente diferente da vingança que move Django. No filme mais recente, nenhum dos personagens possui psicologia complexa, são todos rasos, mesmo o personagem de Jackson que, enfim, desvenda quase toda a trama, não complexifica o filme. A linha de ação está mais para a catarse de trechos de Bastardos inglórios. Afinal, neste, o pessoal mata Hitler.

Todavia, há três destaques que tornam a trama algo mais que uma boa história de Tarantino: 1) a carta de Lincoln e sua função no final do filme; 2) a surpresa reservada quanto ao caráter e bravura do general confederado; 3) e a ironia do castigo perpetrado ao personagem de Samuel Jackson – talvez um momento de revide a Spike Lee, que levou adiante uma polêmica com Tarantino por causa de Django livre.

1. A carta de Lincoln é um embuste e, no entanto, mesmo assim, mesmo já revelada como embuste, tem uma força fantástica. Mas a ironia é profunda. Todos que viveram uma guerra, mesmo que tenha sido em favor de libertação, talvez tenham vivido um embuste. Nada melhor então que terminarem a vida com um único consolo: poderem ler como oração fúnebre de si mesmos um embuste do embuste que foi a libertação dos negros após a Guerra Civil. Afinal, todos sabemos, só com Kennedy os negros puderam frequentar os mesmos lugares do brancos nos Estados Unidos.

2. O general confederado é apresentado como um “durão sulista” até quase o final do filme. Todavia, a partir de um determinado capítulo, sua personalidade de covardão realmente aparece. Ele não era nada além de um bundão e o tratamento que Tarantino dá ao sulista não deixa dúvida quanto ao que ele pensa. Ele já havia humilhado os imitadores da KKK, em Django livre: Um racista é isso: se ele não é o ridículo, ele é o covarde. Aliás, os dois tipos aparecem no filme, ficando para o candidato a Xerife o primeiro título.

3. Por fim, sobre a ironia: o personagem de Samuel Jackson, o auge de sua autoridade na película, quando está para descobrir toda a trama e fazer justiça, toma um tiro. Mas não num lugar qualquer: no saco. Perde as bolas. Um negro ousado deve, mesmo num filme anti-racista, perder as bolas. Só o negro sem bolas pode continuar herói de um filme. Tarantino precisa colocar esse detalhe exatamente para fustigar Spike Lee que, enfim, não conseguiria dar esse desfecho. Tarantino parece dizer: “por mais que eu possa fazer um filme militante, meu filme é filme, é arte, e o seu, Spike, é militância e só militância.”

O filme também tem lances que adiantam algo interessante como, por exemplo, o fato de um mexicano ser considerado como não podendo vir a um bar, embora cachorros possam. Aliás, os diálogos do filme são sempre contemporâneos, às vezes forçosamente contemporâneos, e isso é um mérito. Tarantino sabe fazer isso sem deixar a coisa escorregar para o pastiche.  Todavia, contém uma falha ao final. Uma falha de estilo, notada pela Francielle Chies: o filme teria de acabar com a leitura da carta, sem qualquer, outro movimento, um fim seco. Isso seria Tarantino.

Paulo Ghiraldelli 58, filósofo.

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8 Responses “Os “Oito odiados” não é um “Django livre”, infelizmente”

  1. anderson
    24/01/2017 at 20:20

    o personagem do samuel l jackson pode ser o mesmo do django, entao oito odiados ocorreu antes do filme do django, no final ele leva um tiro na “perna” e no do django ele usa uma bengala e é manco?

  2. Bruno
    17/01/2016 at 05:52

    Paulo, você acha que o cafezinho envenenado quebrou uma tensão que estava sendo desenvolvida, em relação ao tratamento dado aos negros após a Guerra Civil norte-americana? E que, com isso, a arapuca montada pelos criminosos acabou sendo o fio condutor de praticamente toda a história, transformando essa tensão, que vinha desde o início do filme, em mera verborragia? Pode-se afirmar, a partir disso, que Tarantino perdeu uma ótima oportunidade de fazer um bom contraponto ao que mostrou em Django, já que, com a carta falsa de Lincoln e com alguns diálogos, estava mostrando que os negros foram libertos, mas a discriminação contra eles continuava a mesma?

    • 17/01/2016 at 09:54

      Bruno, os negros NÃO são heróis do filme. O personagem de Samuel Jackson é um bandido falsário. Os oitos ali não valem um tostão furado. O café é a pausa para o sangue, até então não aparecido no filme e que traz a marca Tarantino. Aparece abruptamente, como na Guerra Civil. A carta de Lincoln é uma balela, um “papo de negro”. Uma malandragem não aceita por ninguém nos Estados Unidos. O negro odeia isso. Papo de racismo não é algo que negro goste quando a solução é desonesta. O filme não é 7 odiados, mas oito.

  3. Fernando
    16/01/2016 at 18:40

    Não acho “justa” a comparação. Em Django Livre, o Tarantino quis jogar os holofotes no racismo. Ele criou um herói negro que expurgava a escravidão. O filme é uma catarse anti-racismo. É um filme para grandes audiências com várias cenas de ação e uma grande “moral”

    Nos oito, ele fez algo bem diferente. Racismo não é tema central, embora faça parte do ambiente. E isso não é ruim, dado que o propósito desse filme é outro. É um fime sutil, que numa camada é um inteligente filme de suspense/mistério e noutra tenta dizer coisas complexas sobre a sociedade americana (vide a separação da cabana em duas, a carta do lincoln, o monólogo sexual e seu protagonista negro emasculado ao final).

    • 16/01/2016 at 18:49

      Fernando você ficou aquém de ambos os filmes. Existe um link sobre Django Livre aí no meu texto. Com cultura cinematográfica somente, não dá. Vai por mim. Sou macaco velho. Agora, sobre o filme ser ruim, o segundo, é você que diz que não. Eu não disse que sim. Tem que prestar atenção. Mas, de qualquer maneira, pegue lá os textos que fiz do Django livre e siga o percurso e a bibliografia. Prá facilitar: http://ghiraldelli.pro.br/django-so-e-possivel-a-luz-de-sloterdijk/
      Caso queira saber mais, venha para o CEFA cefa.pro.br

  4. Alexandre
    15/01/2016 at 01:33

    Depois de ler alguns textos seus passei a ver Django livre com outros olhos, mas ainda é um filme que considero mediano em vários aspectos; a melhor cena, em minha opinião, é a cena em que o personagem do Samuel conta ao personagem do DiCaprio que ele está sendo enganado. Outra cena bem interessante é a cena em que o personagem do DiCaprio faz uma análise do crânio do escravo que o criou, o que acaba me remetendo ao bobo da corte Yorick, que provavelmente foi a inspiração do Tarantino para esta cena. Apesar de ser um filme que considero irregular é interessante assisti-lo tendo como base a sua análise.
    De qualquer forma ainda prefiro Kill Bill, que gera catarse de modo cru e menos sofisticado, no estilo Titus Andronicus (uma excelente peça), mas que ainda assim é mais interessante como filme.
    Recomendo um filme do Tarantino chamado Jackie Brown, acho que você iria gostar.

    • 15/01/2016 at 10:03

      Alexandre você não entendeu o filme Django livre. Falta um certo conhecimento de literatura e de história utilizada por Tarantino, cada personagem e cada parte faz alusão a um tema da literatura alemã e americana que se tornaram universais. Fora o trabalho com o personagem de Jackson, que é um tratado a respeito do ressentimento, em termos psicopolíticos que só com Sloterdijk pegamos o correto. O filme vai se tornar um clássico por conta disso. Fiz vários artigos explicando. Sobre Jackie Brown, eu vi na época que saiu. Kill Bill não é um filme como você está vendo. Ali também há uma simbologia e mais, um tratado sobre o próprio cinema americano, por meio da figura do Bill (que, aliás, se matou ou morreu sem querer).

    • Matheus Kortz
      18/02/2016 at 11:42

      Paulo, desculpe me o nao uso do gúgou no momento. Mas vc já escreveu sobre kill bill?

      Se sim vou procurar melhor hehe

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