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16/12/2017

O eterno retorno em Black Mirror


A maior parte dos episódios de Black Mirror (TV Britânica, 2011-2014), que está agora na Netflix, diz respeito à interação homem-máquina. Mas não se trata de uma interação com qualquer máquina, e sim com as máquinas que funcionam no interior do cérebro humano, no casamento da inteligência artificial com a  inteligência natural. Associado a isso, uma outra parte dos episódios – e às vezes em cruzamento com esse primeiro tema – está a vida sob pressão do mundo virtual e as mil e umas possibilidades da Internet. O título da série fica bem posto: olhamos para um espelho, sim, mas é o espelho da escuridão.

O rastro comum da série, ao menos para a minha geração, é que ela é completamente desencantada, no sentido do desencantamento de Max Weber. Toda a ficção envolvida e toda a futurologia exposta não contém nenhum filamento do poder dos deuses. Não há religião na série. Não há “forças do Além” ou fenômenos paranormais ou mesmo dogmas da fé. Tudo que se coloca no prato servido a cada episódio é fruto humano, possível sem que se quebre leis naturais. A série Enigma ou Muito Além da Imaginação, que é o que há de similar no passado, continha muito encantamento. Mas o sobrenatural, hoje, não impressionaria ninguém com a cultura que se exige para ver Netflix. É a futurologia com dramas que são unicamente frutos, bem plausíveis e até já a meio caminho da existência, da nossa tecnologia mais recente, e com gostos do mundo atual. É um futuro a partir de Bill Gates, Daniel Dennett e, talvez, Salvador Dali, não de Flash Gordon ou Julio Verne ou Hegel.

É certo que em alguns episódios as coisas são banais, previsíveis e já exploradas. Mas há peças primorosas, inclusive com a participação de motes de Nietzsche. Uma delas diz respeito ao eterno retorno. Sabemos que o eterno retorno não é só uma tese cosmológica, mas sim um imperativo ético. “Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes’”  (A Gaia Ciência,  §341). Em Nietzsche, é um demônio que decreta uma tal coisa. Quem poderia seguir a vida em um tal cosmos? Quem é capaz de uma vida reta, a boa vida, de modo a poder cumprir tal ética, a de viver cada momento de modo tão bom que, sendo ele repetível, o inferno não venha à tona?

Um dos episódios transforma uma tal situação em forma de punição. Uma moça que vê o parceiro matar uma criança, e não faz nada, é presa e tem a condenação de ter a lembrança apagada e sucessivamente acordar em um lugar em que ela, logo de início, sente algumas lembranças de uma criança, e ela mesma se vê como se tivesse tentando se matar, por pílulas ou corte nos pulsos. Sente como se tivesse presenciado o sacrifício de uma criança que, então, lhe vem à cabeça como uma filha. Ela então se levanta e percebe uma solidão na vizinhança. Logo vê que os vizinhos só a observam e tiram fotos com seus celulares. Repentinamente começa a ser perseguida por pretensos assassinos. Foge e passa pela vizinhança toda gritando por ajuda, e esta apenas tira fotos, segue-a tirando fotos e não a ajuda. A ajuda vem por parte de uma moça que tem a missão de conduzi-la pelos infortúnios todos, que dão a sequência e trama ao episódio, até ela chegar no ponto culminante, o fim do teatrinho, em que então terá a lembrança finalmente restaurada ao participar da cena final. E só aí que quem está vendo a série percebe que é um teatro e que ela, a moça em desespero, é uma prisioneira. É justamente nessa hora que ela, a moça, também fica sabendo que aquilo é um teatro. Então, ela saberá o que fez realmente e a razão pela qual está naquela situação, na prisão-teatro. A prisão especial: nesta, a pena é colocar o culpado no interior do teatro realista. No caso, ela própria, a condenada, deve sentir o que a criança assassinada sentiu, mas não como algo fictício, e sim como real. A cada final da caçada, ela recobra a memória do que fez, é o final do teatro, e logo vem o desespero, de saber que sua mente será apagada dessa lembrança e acordará, em seguida, na mesma situação, para repetir o episódio e saber que ela foi a partícipe do assassinato. Todo o teatro é feito por quem visita aquela prisão que, para estes, funciona como um parque de diversões. É, afinal, um parque da diversão, e o entretenimento é participar daquele teatro, fazê-lo acontecer.

Mas o episódio vai além dos efeitos do eterno retorno e retoma a sua origem, ou seja, o fato dele ser decretado por um demônio. Quem faz toda a encenação da perseguição da moça, das fotos etc., são pessoas que estão em um parque de entretenimento. Elas gastam tempo naquele tipo de lazer. Trata-se de uma prisão que oferece esse entretenimento para o público em geral. A diversão então é fazer a moça ali, a condenada, sofrer mil vezes o ato de estar sendo perseguida e prestes a ser torturada e ver outros não a ajudarem – justamente o que ela fez, e pelo qual foi condenada. Nessa hora, o episódio de Black Mirror nos pega, pois ficamos em dúvida se não seríamos cada um ali a pagar para estar no parque-prisão, fazendo parte da peça que é, enfim, a punição da moça criminosa. E estando no parque-prisão, todos nós agiríamos como ela, a condenada, criando a cena toda de tortura psicológica (uns na perseguição delas, outros nas fotos, outros acusando-a quando ela finalmente, ao fim de cada processo, percebe o que fez etc.). Estar no parque é pagar para se divertir fazendo com o criminoso aquilo que ele fez para se tornar um criminoso – mil vezes, mil e uma veze etc. Ser o criador e mantenedor do eterno retorno é divertido! Mais ainda quando se tem a garantia moral – dada pela legalidade – de que se está fazendo aquilo para castigar alguém, o criminoso, mil vezes.

A série dá o turn não dado por Nietzsche. Este, faz cada um de nós nos vermos como hipócritas ridículos quando dizemos que nunca nos arrependemos, que “faríamos tudo de novo” etc. A série nos põe não na condição do falador dessas bravatas, como Nietzsche faz, mas na condição do demônio, daquele que decreta o eterno retorno e o faz funcionar. Após quantas vezes participando desse parque, do teatro, chegaríamos a perceber estarmos na sina do diabo, de ter ele também que ficar ali, na manutenção do entretenimento que é torturar psicologicamente o prisioneiro. Quando isso, para o demônio que há em cada um de nós, não seria também uma tortura? Ou, pior, apenas o tédio junto da degradação moral completa. E se damos um salto podemos perceber o quanto somos o demônio maldito e amaldiçoado de produzir o eterno retorno para várias pessoas ao nosso lado, e estamos tão presas quanto elas à sucessão de viver a desgraça psicológica mais uma vez e mais uma vez etc.

Veja os outros episódios, em cada um deles, prepare-se para ter a coragem de se colocar no lugar dos personagens. Será um tipo de exercício do “conhece-te a ti mesmo” em diversas perspectivas. Duvido que possa fazer isso.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 19/12/2016

PS: quando tiver um episódio perturbador na cabeça e quiser que eu escreva sobre tal, é só pedir.

 

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24 Responses “O eterno retorno em Black Mirror”

  1. Ryan Roots
    24/03/2017 at 16:29

    Paulo, gostaria de um texto sobre o episódio ”Toda a sua história”. abraço.

  2. Diego
    20/12/2016 at 19:22

    Ei Paulo gostaria de ver um texto sobre o especial de Natal, o que acha?

  3. LMC
    20/12/2016 at 12:17

    Faz pouco tempo,a Janaína Paschoal
    disse pra Mariana Godoy na Rede TV
    que fez o impeachment de Dilma porque
    o Brasil estava virando uma Venezuela.
    Isso daria um episódio de Black Mirror.
    Chamaria Clueless(sem-noção)com
    direção de Donald Trump.

    • 20/12/2016 at 12:22

      Tenho um pouco de dó de você LMC. O único sem noção aqui é você. Mas como sou bonzinho, vou lhe explicar algo que você não sabe e não consegue aprender: Dilma não tinha mais dinheiro para pagar o funcionalismo federal. Iríamos terminar o ano na situação geral do país como está o Rio de Janeiro. Para as ruas ganharem um tom venezuelesco seria um passo. Você deve ser bem jovem, não é possível que não se lembre do Brasil em situações de descontrole urbano. Por hoje chega heim, não se manifeste mais. Deixa passar essa onda de estupidez e só volte quando não tiver mais recaída.

    • LMC
      21/12/2016 at 10:42

      Pros bocós de hoje,o Brasil
      ia virar uma Venezuela igual
      nos anos 60,quando o
      Brasil viraria uma Cuba.
      Claro,chamem os militares
      e eles vão botar ordem
      na nação,rapidinho.kkkkkkk

    • 21/12/2016 at 11:24

      LMC há os bocós, que acham que a Venezuela é socialista. Mas não tente se esconder. Há os que, como Janaina, acertaram no que poderia virar o Brasil, ou seja, sim, na Venezuela do desgoverno completo. Não pense que ter o ministro da FAzenda com um plano é pouco, e não pense que somos a tal democracia sólida.

    • LMC
      21/12/2016 at 13:22

      Pior é ler na net coisas do tipo que
      Figueiredo não deveria ter feito a
      anistia quando foi Presidente
      porque entregou o país aos
      terroristas que depois assumiram
      o poder.PQP!!!!!!!!!!!!!!!

    • 21/12/2016 at 13:25

      LMC você só pensa a partir da política?

  4. Alan
    20/12/2016 at 09:44

    Esse “demônio maldito e amaldiçoado de produzir o eterno retorno para várias pessoas ao nosso lado” (e também para nós mesmos) é o que se chama “neurose”, no sentido técnico, psicológico, do termo.

    A única diferença é que as lembranças não são apagadas. Mas mesmo assim, o neurótico sempre retorna, ou seja, repete um certo padrão de comportamento.

    Por exemplo, o sujeito que fica checando dezenas de vezes se fechou a porta seria um caso inofensivo. O professor que foi vítima de abusos durante a sua formação e depois fica maltratando os próprios alunos, seria um exemplo menos inócuo.Existem muitos mais.

    Não entendo muito do pensamento de Nietzsche, mas penso não estar enganado se dizer, em sentido figurado ou até fora do contexto filosófico, que a neurose trata-se, de fato, de um “eterno retorno” para à ferida narcisística primordial.

    Penso que também fica mais ou menos óbvio que esse tipo de “parque de diversão” funciona como os “reality shows” atuais. Os segundos constituindo versões soft do primeiro. Inclusive existem teses sobre este tema.

    • 20/12/2016 at 10:10

      Alan! Não tenho mais a aptidão de “freudizar” as coisas, acho que já deu! Marxismo e Freudismo para mim são narrativas limitadas, belas no passado, mas hoje, limitadas.

  5. Jordan Bruno
    20/12/2016 at 07:51

    Eu indiquei este white bear… Um episódio espetacular…

  6. Eduardo Rocha
    20/12/2016 at 01:06

    Não conhecia. Vou até procurar. Paulo, você já assistiu algum Anime? Três marcaram minha infância: Ghost in the shell, Neon genesis evangelion e Serial experiments lain.

  7. Roberto W.
    19/12/2016 at 19:32

    O primeiro episódio da série foi um pouco perturbador, pois o primeiro-ministro foi pressionado a fazer sexo com uma porca, sob pena de ser considerado culpado pela morte da princesa, quando, na verdade, os culpados pela morte seriam unica e exclusivamente os sequestradores terroristas. O que acha desse episódio? É polêmico ou pseudo-polêmico como a enquete da Fátima Bernardes?

    • 19/12/2016 at 20:03

      Roberto, esse faz parte de algo que vou comentar a partir de Agamben.

  8. Bruno Zoca
    19/12/2016 at 19:07

    Estou gostando do Black Mirror. Agora de férias dá para acompanhar algumas séries.

    Falando nisso, o Prime Vídeo, da Amazon, concorrente da Netflix, chegou ao Brasil nesta semana e trouxe uma série um tanto interessante. Aconselho a dar uma olhada.
    The Man in the High Castle: http://www.adorocinema.com/series/serie-9359/

  9. Afonso
    19/12/2016 at 17:35

    Que tal Junípero, Professor?

    • 19/12/2016 at 17:53

      Vi vários iguais, mas não com a temática gay. Estou pensando nele.

    • Afonso
      20/12/2016 at 16:31

      Professor, parece que “Junípero” também traz algo do “eterno retorno” (mas posso estar enganado), além de possibilitar a liberdade de escolha (que a personagem não teve ou não foi capaz de realizar…) – mas um aspecto que me chamou a atenção foi que Junípero dispensa qualquer noção de religião ou Deus (seria isso?). abraços.

    • 20/12/2016 at 16:47

      Afonso mas há a opção de estar no paraíso, o que é contra a noção de eterno retorno

  10. Tony Bocão
    19/12/2016 at 16:32

    “PS: quando tiver um episódio perturbador na cabeça e quiser que eu escreva sobre tal, é só pedir.” SIM
    Na verdade é sobre um aspecto, do episódio chamado “Quinze Mil Méritos”, segundo episódio do primeiro ano. É uma história muito rica, foi mencionada no seu texto passado. mas há uma coisa que me intriga muito:
    No final, o sujeito fica famoso por sua frustrada tentativa de suicídio diante das câmeras, após um discurso contra o status quo, e é contratado para fazer o mesmo todas as semanas, com o apoio dos patrocinadores, apesar de não ser inovador a ideia de alguém tornar-se um grande sucesso em um programa de TV que critica francamente a própria TV e o estilo de vida que a publicidade televisiva tenta nos vender, é eficiente, há uma penca de humoristas globais fazendo piadas sobre a própria condição da tv globo, surgindo um pressuposto de que a emissora prejudicaria a si mesma deliberadamente, Mas na verdade a Globo consegue milhares de compartilhamento em redes sociais, de público que a odeia. Seria isto apenas truque de captura de audiência, pelo sentimento de mostrar uma maneira de sentir-se superior aos outros, rindo de piadas mais sofisticadas, sentindo-se intelectualmente/moralmente privilegiado? tendencia de adaptação da emissora? intrigante

    • 19/12/2016 at 16:37

      E fácil perceber isso no cotidiano, mas as referências que dei mostram que essa capacidade de incorporar a dissidência vai além dessa brincadeira de metalinguagem, e aí a coisa fica interessante, pois o processo se torna infinito. A crítica da ideologia sempre virando ideologia etc. A metalinguagem infinita é o denunciado na frase de Nietzsche, “não há texto, só interpretação”, e a resposta de Nietzsche quando indagado sobre isso, é terrível. Aforismo 22 de “Para além de Bem e Mal” ou “Marx, Nietzsche e Freud”, de Foucault. Em termos sociológicos, o trabalho de Ranciére sobre a crítica.

  11. Thyago Araujo
    19/12/2016 at 14:15

    Excelente ponto de vista! É sempre bom ouvir da filosofia a respeito de tão primorosa obra de arte que é Black Mirror.
    De fato, o White Bear é o episódio mais perturbador da série!
    O que tu achas da relação entre o episódio Waldo Moment e a eleição do Trump? Profético? Assim que ele ganhou, me veio à cabeça o episódio.
    Gostaria de ouvir comentários a respeito dele. Na verdade, queria poder ler comentários a respeito de todos eles, individualmente. Podia ser até num daqueles livros “Black Mirror e a Filosofia”, como fizeram como vários outros filmes e séries.

    • 19/12/2016 at 16:41

      O “momento Waldo” é pouco original, é o que mais já se fez no cinema e na TV. Tá na moda de novo, mas faz tempo que ocorre esse episódio. Na minha infância eu vi essa realidade ocorrer em várias eleições nossas e dos Estados Unidos. É um fenômeno moderno, não propriamente só contemporâneo. Em 1963 o Brasil votou no Cacareco, um rinoceronte, e muita gente atuou na campanha dele.

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