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22/09/2017

Black Mirror: já fomos mais niilistas em séries para a TV


A série Britânica Black Mirror se auto-qualifica de “perturbadora”. De fato é. Mas está longe de ser “desesperadora”, ou seja, de cultivar a não esperança ou a de assumir de vez o vazio de rompante niilista. Ela difere radicalmente do que se fez no passado, especialmente nos anos setenta (como em Além da Imaginação, de 1959, mas que se repetiu nos anos setenta e teve uma temporada nova feita no final de 1979), e que foi muito bem posto em HQ por uma equipe que, ao menos na minha memória forjada na época, parecia estar associada à equipe de Stan Lee ou vir em revistas que, no Brasil, tinham a ver com os seus super-heróis (algo assim se produziu em histórias de Samurais, por autores nipo-brasileiros, aqui mesmo). Eram os episódios em que o final não se resumia a não deixar saída para os personagens, mas também para os leitores ou telespectadores.

Dou um exemplo. No episódio de Black Mirror sobre as abelhas-drones, o Hated in the Nation, se o final fosse no estilo dos citados trabalhos, o que ocorreria não seria a captura do causador dos estragos todos, mas sim a descoberta de que não havia nenhum causador humano, que a maquinaria teria adquirido a capacidade de manter o jogo do ódio indefinidamente. Não haveria mais mão humana para ser segurada ou cérebro conspirador a ser interceptado. O mundo e, então, também o leitor ou espectador por espécie de identidade no vazio, cairia em uma situação em que todos os valores não teriam mais valor. As abelhas viriam, de tempos em tempos, para satisfazer a perversidade de nós conosco mesmo, no mecanismo de colocar na Internet nossos ódios. Não haveria uma agente policial loirinha, sabidinha, heroína, como ocorre no episódio citado. Ela mesma se veria como uma jogadora e, portanto, eterna provocadora do espalhamento do ódio sazonal.

Black Mirror não tem essa coragem do niilismo, ou talvez covardia. Afinal, se dizer corajoso por jogar esperanças fora, como se fosse possível ultrapassar o fundo da Caixa de Pandora, não é propriamente um ato a ser louvado, muitas vezes apenas um ato também de niilismo, de cansaço com a vida, de gente bunda mole que acha que é bonitinho ter ar blasé. Mas, esses trabalhos antigos não nos colocava nessa situação, mas de fato em um névoas sorumbática. Era como se escritores de HQs e roteiristas de séries do tipo Black Mirror estivessem querendo se vingar de si  mesmos e de todos, escancarando na face de todos o mundo surgido do resultado da grande frustração do pós-Maio de 68, ou mesmo de antes até, do resultado da Guerra Fria que se seguiu à Guerra da Coreia.

Aquele gostinho de estar desamparado, que era o que tais séries passavam para todos, realmente acabou. Na prática, hoje, não se trata mais de ter gostinho, mas de realmente estar desamparado. Nada que é sólido desmancha no ar, tudo tem que ser desmanchado na base do esforço do ataque terrorista, agora sem qualquer ideologia ocidental filtrada. Então, em uma época assim, não faz sentido séries que queiram nos colocar, em ficção, na situação que já vivemos na realidade. Estamos num período onde todo final com alguma esperança, com algum sentido, será de fato um final desencantado, sem religião ou mística, mas ainda assim com alguma volta do heroísmo humano isolado. Black Mirror é, na verdade, até nos episódios mais amargos, uma série de bálsamo.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 20/12/2016

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2 Responses “Black Mirror: já fomos mais niilistas em séries para a TV”

  1. Alan
    21/12/2016 at 14:34

    Embora nunca tenha assitido o seriado, confesso que estava esperando ler aqui alguma coisa bem no teor do último parágrafo acima, especialmente depois do um post anterior:

    http://ghiraldelli.pro.br/cinema/o-eterno-retorno-em-black-mirror.html

    Uma coisa que me chamou a atenção no post do link acima é que nesse parque de diversão hipotético, para que a situação representada seja “real” deve estar, paradoxalmente, envolta por elementos de artificialidade. Ou seja, a protagonista sempre deve ser a mesma e a situação igual. Para tanto, e aqui entra o elemento de ficção, a memória deve ser apagada antes de recomeçar.

    Em um primeiro momento pensei que o tal parque ofereceria o espetáculo como um “produto” e dai o requerimento da artificialidade como parte de um processo de padronização em um processo de produção, como uma mercadoria qualquer.

    Mas isso seria superficial (se já não for marxismo vulgar). Depois me lembrei de uma outra matéria:

    http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/o-palco-e-a-perdicao-ou-platao-contra-o-teatro.html

    Pens que a questão do elemento de artificalidade do parque pode ser relacionada, não com Platão, mas o pensamento de Sloterdijk, especificamente com as questões relativas ao trecho:

    “Uma vez repetidas e, de certo modo, democratizadas, não seriam essas tragédias causa de corrupções do espírito?”

    Ou seja, para ser encenadas e assitidas (“democratizadas”) embora as atrações do parque representem uma situação “real” devem estar contidas em um ambiente “artificial” (condena da justiça, memória apagada, etc.)

    Mas, em uma sorte de meta-interpretação, o mesmo poderia ser dito do próprio seriado. Ou seja, para poder veicular episódios “perturbadores” sem provocar “corrupções do espirito” é preciso também um elemento de artificialidade, no caso o elemento ficçional da narrativa. Uma maneira de dizer “isso poderia ser assim, mas não é de fato pois não agimos dessa maneira”.

    Penso que esto último também seria parte do “bálsamo”.

    • 21/12/2016 at 15:05

      Alan!O parque é a prisão, a prisão real, só que ela é “aberta ao público”, e o entretenimento do público é poder participar da pena do condenado. Fazemos isso em parte, pedimos isso em parte. Esse é o drama de realidade: se houver o parque, pagaremos por ele. Mas a série mantém certa distância uma vez que ela não universaliza a situação e, então, nos deixa de fora, como ainda vendo um filme.

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