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17/12/2018

Há um ramo da Eugenia que vai vencer


[Artigo para o público em geral]

Começo com um trecho de jornal:

“O Conselho Nuffield de Bioética, uma importante organização independente do Reino Unido, chegou à conclusão que editar o genoma de embriões e de células germinativas (óvulos e espermatozoides) pode ser eticamente aceitável em algumas circunstâncias. Uma das condições que justificariam a prática seria a busca pelo bem-estar daquele que ainda vai nascer. Outra é que, com a aplicação das técnicas de edição, não haja ampliação de discriminação, injustiça ou divisões na sociedade.” (Folha de S. Paulo, 19/07/2018).

Quando Peter Sloterdijk fez a exposição que resultou no opúsculo Regras para o parque humano (Estação Liberdade, 2000), a Alemanha entrou em estado de choque. Graças a uma manobra pouco louvável de Habermas, que falou do texto sem ler direito,  e meio às escondidas, Sloterdijk foi acusado de nazismo. Ele acordou um dia com a imprensa toda na porta da sua casa, não para elogiá-lo! O episódio está superado, mas o filósofo sofreu bem com essa trapaça. Até hoje há desinformados que o tomam como “de direita”.

O que Sloterdijk disse é que desde Platão os intelectuais organizam o que imaginam que possa ser o melhor parque para os humanos. Não há novidade nenhuma nisso. E assim continuaremos a fazer.  E já fazemos isso, no cotidiano, com ajuda médica. Afinal de contas, qualquer um de nós sabe, ao contrário dos reis de antigamente, que não é bom termos filhos com parentes. Biologia e história não se separam quando é o caso de gerar humanos. Aliás, para quebrar essa divisão entre o que é da biologia e o que é da cultura, Sloterdijk criou o conceito de antropotécnicas (veja o meu Para ler Sloterdijk, Via Vérita, 2017).

Sloterdijk foi informado por mim, em uma conversa nossa aqui no Brasil, de que quem havia traduzido seu opúsculo para o inglês, nos Estados Unidos, era Mary Rorty, a viúva de Richard Rorty. Ele achou estranho. Ele não esperava que a família Rorty gostasse dele. Mas o fato é que Mary soube muito bem, no estilo do marido, em perceber que “em casa de enforcado corda causa náuseas”. Na Alemanha o discurso da eugenia tem um passado terrível. No Estados Unidos, diferentemente, qualquer um pode escolher várias características de seus filhos em qualquer clínica particular. Ela, Mary, entendeu o opúsculo que Habermas não conseguiu ou não quis entender. A notícia da Folha, que se refere à Europa, mostra que também lá a eugenia regrada por princípios humanísticos vai derrotar Habermas. E isso estará bem longe de ser a vitória de qualquer tipo de nazismo.

Muitos dirão que não há como controlar os procedimentos de interferência no genoma humano, e que portanto a ideia de que fazer clínicas que lidem com tais coisas sem que haja “ampliação de discriminação, injustiça ou divisões na sociedade” é algo impossível. Mas nós sabemos que Guatacca é uma ficção que até já ficou velha – e que o mundo totalitário (mesmo com Putin e Trump) não vinga tão fácil assim quanto pensamos em nossas histórias para o cinema. Há mais erros nos nossos projetos de criar monstros do que os escritores gostam de admitir. Nenhuma Bomba Atômica criou formigas gigantes e muito menos experimentos de guerra geraram de fato um Volverine ou um Capitão América. Raios Gama não fabricam Hulks. A Ilha do Dr. Moureau não  tem possibilidades. E Hitler esteve errado não só pela ideia de raça pura, mas pela ideia de fazer de minorias as cobaias para experimentos perversos. Nesse último caso, não é a engenharia genética que deve pagar o pato, mas é mais útil olharmos para quais populações estão a descoberto, em termos de legislação, dos grandes laboratórios que testam no Terceiro Mundo o que não podem testar em seus países de origem. Ou então olharmos também para o quanto os governos do Terceiro Mundo deixam de lidar com o saneamento básico, única e exclusivamente por questões de corrupção de grupos que estão no poder exatamente na base dessa mesma corrupção.

O mundo vem se preparando para rechaçar a crueldade. Protetores de animais aumentam em número e qualidade. Gente combatendo os que propiciam desastres ecológicos também. A questão de produção de Frankensteins não é importante. Pois não é fácil fazê-los. Mas a questão de criar países inteiros que sofrem com remédios que já não podem ser vendidos no Primeiro Mundo, isso sim nos causa horror. E isso nada tem a ver com eugenia, tem a ver com ganância e com o nosso descuido em relação ao modo como o capitalismo se associa à ciência e à técnica. Tem a ver com o fato de que Nietzsche estava certo ao dizer que a ciência não pode ser deixada por conta própria. A ciência conhece, mas não pensa. E Kant nos ensinou essa diferença. Hannah Arendt se preocupou bem com isso: a ausência de pensamento, ou seja, a falta de consciência ética ou simples falta de consciência.

Todavia, há situações que a ciência pode até não pensar, e assim mesmo ela não irá gerar catástrofes a mais do que já gera. Em suma: Stan Lee sabe que seus X-men tem mais a ver com a representação dos problemas de minorias do que a representação do horror do pós-guerra com acidentes de radioatividade. Os javalis estão proliferando adoidado no enorme local fechado após o desastre de Chernobyl, mas nenhum dos javalis cresceu demais e nenhum deles está construindo naves espaciais por conta de ter desenvolvido uma mutação cerebral. A questão de como lidar com a ciência não é a maneira de Habermas, que acha que eugenia é um pecado por conta de não entender a ciência. Ele faz isso como quem toma aquelas experiências de médicos nazistas como o cotidiano. Não é assim. A ciência não tem esse poder. O que a ciência tem de poder é o de colocar sob crueldade os animais engaiolados na indústria, e os países engaiolados no marketing desse mesma indústria.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo, São Paulo, 19/07/2018

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6 Responses “Há um ramo da Eugenia que vai vencer”

  1. letícia mársico
    03/09/2018 at 11:22

    ahh! não vai ler o meu artigo no jusnavigandi, não?j´sei! o mestre só está com uma ligeira pregiça…

    • 03/09/2018 at 13:34

      Letícia por que está tão se sentindo prá baixo assim? Eu li, mas eu só polemizo se há o que polemizar.

  2. letícia mársico
    31/08/2018 at 15:38

    tubembem, caro professor. apenas faço estas ressalvas. por favor, leio o meu artigo na página do jusnavigandi, “da neoeugenia”, ok?

  3. letícia mársico
    30/08/2018 at 22:22

    impressionante, Paulo, que ninguém, até agora, não tenha vindo aqui comentar o seu artigo! nem concordar, nem para discordar… entendi e gostei muito do seu artigo. mas, gostaria de lhe indagar: e a “neoeugenia”, mais viva do que nunca hoje? sim, porque, assim como o racismo, que ainda existe, porém, não é mais o mesmo de um século atrás, idem para a velha eugenia, que não é mais a mesma pensada por francis galton, o seu criador, em 1883, na inglaerra e, posteriormente levada para os eua, a neoeugenia aí está, firme e vigorosa., sob a mascára da engenharia genética.sou mais cautelosa, professor.

    • 31/08/2018 at 11:28

      Letícia, é que a prática da neoeugenia é contínua entre nós desde que o mundo é mundo. Criar uma civilização é selecionar, é participar de antropotécnicas que são seletivas. O nazismo fez outra coisa: ele criou a experiência humana, a crueldade, e em favor de uma mentira, a de que existe raça pura e que está é mais forte. Ora, sabemos muito bem que quanto mais um grupo se reproduz entre si mais fraco ele fica.

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