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17/08/2018

Cidades: a domesticidade que nos constitui


Texto criado a partir da leitura de EDIFICAR FORMAS DE VIDA, da professora Carla Carmona

Por que as mulheres pobres, mesmo vendo sua mães, avós e amigas com dificuldades, ainda assim continuam a ter filhos e mais filhos? Por que moradores de rua, mesmo em situações extremas de fragilização, resistem quando são conduzidos para abrigos, e voltam para as ruas? Por que há pessoas lá no Largo do Paissandu, acampadas após o incêndio do edifício que moravam, mesmo tendo a oportunidade de receber um auxílio para aluguel?

É fácil inventar “comodidades” para tais pessoas, de modo a ver que ficam onde estão mesmo se ajudadas a sair. O difícil é notar e entender que as tais “comodidades” não são regras exteriores à vida, mas, não raro, regras que constituem a própria vida.

Wittgenstein fala em “modos de vida” para a linguagem. E Agamben, ao explicar regras como Wittgenstein explica, é feliz em lembrar a narrativa sobre o peão do jogo de Xadrez. Não existe o peão e uma regra para move-lo. Existe a regra para mover peão, e isso define o que é um peão. O uso define o jogo e o jogo é o constituidor de suas peças. Há aí uma ontologia gerada pelo uso. Também Sloterdijk invoca uma tal situação ao dizer que somos feitos pela prática, pelo exercício que repetimos e aperfeiçoamos: “onde procuramos o homem encontramos acrobatas”, diz ele. Em todas essas situações postas por esses filósofos o que é desenhado é o retrato da constituição da “coisa” pelo uso, atividades, prática, práxis ou, em suma, o ‘façamos assim’ – no sentido que Agamben bem destaca. As Investigações lógicas de Wittgenstein, o Para mudar a vida de Sloterdijk, e o Usos do Corpo de Agamben se unem nessa desiderato explicativo.

Ter filhos mesmo em condições adversas é um modo de ser, uma prática. O mesmo vale para o estar na praça e não em abrigos etc. São formas de vida. São antes de tudo o modo do homem se fazer homem, se constituir como humano. Uma vez fora desse traço constituidor, há a perda do elo comunicacional que faz o humano se fazer humano. Não fugir das regras constituidoras é o que move as pessoas a continuarem a prática. Todas as vezes que o estado, o serviço social, a filantropia, a política surgem para quebrar regras que são, antes de tudo, constituidoras de modos de vida, as coisas não terminam bem. Ao final, surgem acusações de que os “pobres coitados” são “irracionais”. Fim de papo.

Em um lugar pobre, uma moça ganha laços comunicacionais ao se constituir mãe. Numa praça pública ou na rua, um ser humano mantem os laços comunicacionais que  o fazem humano. A prática não é uma contingência. O bispo do Xadrez não é um bispo que, enfim, ganha uma regra – a de andar em diagonal. Não, quando se diz “bispo” para uma criança que aprende o jogo de Xadrez, o que se explica é que ele é o que anda em diagonal. A prática da regra o constitui. Fora disso, ele não é bispo, apenas um pedaço de madeira. Fora da condição de mãe a moça pobre não é moça e nem gente. Fora da rua o morador de rua não é morador de rua e, portanto, não é gente. Os laços comunicacionais que se estabelecem no modo de vida que constituem cada um não são algo exterior possível de ser anulado sem anular a pessoa que se faz pela prática. E todos nós nos fazemos pela prática – ontogeneticamente e filogeneticamente. As cidades são os lugares dessa nossa domesticidade.

Em geral, a compreensão disso é, não raro, pseudocompreensão. Trata-se da pseudocompreensão que os conservadores, que se autodenominam “realistas” (como são sabichões!), possuem. Eles chegam próximo dessa minha narrativa e se aproveitam dela para dizer que as “coisas são assim mesmo”, e não se pode mudar. A mãe pobre é mãe pobre com muitos filhos e o morador de rua é o morador de rua. Eles se utilizam – às vezes por má fé – da ideia da prática como constituidora para culpar as pessoas pelas condições pouco favoráveis em que vivem. Mas o que eu digo aqui é bem diferente disso. O que eu digo é que a cada prática constituidora é necessário saber quais são os elementos dessa prática que são constituidores. O bispo do Xadrez anda na diagonal, e isso o faz bispo. Ele se comunica com o jogo e com as outras peças pela sua ação prática de andar em diagonal. Não posso tirar dele isso, pois se assim faço, ele deixa de ser bispo e, no limite, deixa até mesmo de ser peça genérica de jogo de Xadrez. Não posso tirar do homem os laços comunicacionais, pois isso é constituinte do homem, mas isso não significa que tenha de forçar o homem a ter laços comunicacionais exclusivamente em situações precárias e de dificuldade. Essa última parte é que o conservador não aprende.

Uma cidade que favorece a interculturalidade – como Charles Taylor a define, diferenciando da multiculturalidade – é aquela em que o espaço é rico quanto à alimentação da comunicabilidade de grupos, minorias, gente, faces distintas, sem que isso elimine as práticas da própria comunicabilidade que nos dá a condição de sermos animais do tipo que somos, e não outros. Uma coisa é fazer um passarinho voar de costas, ampliando sua capacidade de voar, outra coisa é cortar-lhe as asas e achar que ele ainda continua passarinho. As cidades são para fazer passarinho voar até de costas, não para torná-los pedestres exclusivamente.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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9 Responses “Cidades: a domesticidade que nos constitui”

  1. Marcelo
    07/08/2018 at 11:20

    Paulo, na Obra citada de Wittgenstein, não seria “Investigações Filosóficas”, e não “Investigações Lógicas”??

    • 08/08/2018 at 10:43

      Sim, investigações filosóficas Eu coloquei lógicas? Hummm, isso revela um preconceito escondido, meu.

  2. Mario
    01/08/2018 at 02:37

    Na rua em que moro, na periferia de Brasília, todos os bancos, sem exceção foram arrancados. Em muitos deles constitui amizades que permanecem até hoje. A praça segue viva, crianças ainda brincam por ela, mas a parte impagável de a qualquer momento bater um papo, sentindo a segurança da proximidade com outros prédios, casas, gente passando, foi extinta.

  3. LMC
    30/07/2018 at 11:29

    Hoje,no Estadão tem um
    leitor reaça reclamando
    dos moradores que estão
    morando no Largo do
    Paissandu depois que
    aquele prédio caiu.(páginas
    2 e 3,Fórum dos Leitores).
    Deve ser parente do Pondé,certamente.

  4. José Ildon
    29/07/2018 at 06:05

    As políticas públicas deveriam constituir possibilidades aos quem vivem nas ruas terem laços comunicacionais em condições de leveza. O ambiente rua (precário e difícil) deveria ser alterado em um ambiente hospitaleiro (recursos de todas as ordens). E, isto é simples. Envolve questões políticas.

  5. Paulo
    28/07/2018 at 20:12

    Oi Paulo. Há algum sentido em relacionar esse problema com aquilo que você tem falado sobre o “fim do outro”?

    • 28/07/2018 at 21:03

      Bem, eu estou sempre tentando montar perspectivas de vários ângulos para o entendimento da modernidade.

  6. João
    28/07/2018 at 13:54

    Nossa, Paulo. Parabéns pelo texto, interessantímo e não só.
    Obrigado por se manter escrevendo.
    Beba água.
    João Batista

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