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18/09/2019

Por que o presidente da República é racista?


Quando veio a Abolição da Escravatura, os negros caíram em festas e bebedeiras. Muitos foram levados para o centro do Rio de Janeiro, onde permaneceram completamente nus, bêbados, com as famílias destroçadas, urinando e defecando nas ruas da capital. Era o último ano do Império. Quando veio a República, eles já estavam morando em casebres, em lugares em que todo tipo de doença lhes pegava. Tentaram se empregar. Mas, mal vestidos, exalando cheiro de pinga barata – única forma de suportar a vida, e elemento que os viciou durante a escravidão – e descalços, eles não conseguiam ser ouvidos por nenhuma dona de casa. Ninguém mais os queriam como mão de obra. Os tais “imigrantes” estavam para chegar! Todos diziam.

Os imigrantes chegaram. Eram pobres. Mas estavam de terno e gravata. Não tinham o “cheiro de preto”. Pareciam que poderiam viver fora das senzalas, quase como humanos. Ao negros, nunca foi dada a condição de possíveis humanos. Então, o capitalismo brasileiro se integrou na narrativa do capitalismo internacional: trabalho assalariado para todos. Menos para os negros. Eles foram decretados, então, não os sem-trabalho, mas os vagabundos. Nasceu daí o preconceito. Ser negro passou a ser alguém que só poderia trabalhar a ferros; uma vez livre, entraria para a vida da bebida e da bandidagem. Diziam: “é de índole”. As negras, então, deixariam de lado a função de amas de leite pare enveredar pela prostituição barata, uma vez que a prostituição menos degradante era aquela não da sífilis, mas da simples gonorreia, transmitida pelas polacas.

Minha bisavó, aos 107 anos, gostava de me contar histórias da escravidão. Mas, aquelas que ela contava do negro livre, eram sempre as que mais revoltavam. Pois o negro livre parou de apanhar no pelourinho da praça para ser massacrado nas prisões das delegacias de todo o país. Ela lembra sempre da peregrinação do Negro José, um homem forte que por seis meses andou pela cidade de Nova Europa, no interior de São Paulo, tentando arrumar um terreno para carpir, sem sucesso. Foi então que ele, já à míngua, deitou-se na praça e foi preso por vagabundagem. Espancado na cadeia, José morreu de hemorragia interna. Durante a escravidão, durante mais de trinta anos, José havia sido o carregador de fezes da casa paroquial. Trazia para as fossas o cocô dos padres que, depois da escravidão, passaram a irem eles mesmos às fossas – “que degradante”, diziam, xingando a Imperatriz. Eles mesmos tinham de defecar, sem a ajuda dos pretos. Era horrível, diziam.

Os que negam hoje as cotas, e insistem em não criar uma política de integração étnica, para afastar o preconceito, são o agentes do cinismo. Procuram fingir que não sabem dessa história toda, de como o preconceito foi gerado, e insistem que no Brasil as cotas seriam um privilégio, uma odiosa marca no liberalismo, que garantiria a igualdade perante a lei. Ora bolas, alguém acha que negro é realmente igual perante a lei no Brasil? No Brasil, o próprio presidente da República, o tal de Bolsonaro, premia com honrarias seu guru que é visivelmente racista, que publica texto racistas. Como acreditar em liberais brasileiros?

Os liberais brasileiros deveriam por a mão na consciência e, também, nos melhores livros, ao virem com a conversa fiada da igualdade perante a lei. O preconceito só vai diminuir se o branco puder ver o negro, mais rapidamente do que temos conseguido fazer até agora, em cargos executivos, costumeiramente. As políticas de ações afirmativas são para isso, elas não são prêmios individuais ou políticas para dar diploma ou melhorar a renda do negro. Elas são políticas para baixar a bola do preconceito. Os liberais não querem entender isso por uma razão simples: Locke era um liberal escravocrata. Nosso neoliberalismo atual é escravocrata. Nosso liberalismo desconhece John Rawls ou John Dewey. Ele é o liberalismo de um Paulo Guedes, o liberalismo da escória intelectual do país.

Paulo Ghiraldelli Jr., 62, filósofo.

12 Responses “Por que o presidente da República é racista?”

  1. Carvalho
    04/06/2019 at 09:59

    Professor eu não concordo com o senhor por um motivo simples
    se somos todos iguais por que deseja fazer sentir me inferior com as tais cotas ?
    quando estudavamos nas escolas de primeiro e segundo grau estavamos todos juntos e bebiamos da mesma fonte ,se não tiver sucesso nas competições sociais é por incompetência porém se tiver é por mérito, não preciso de moletas a escravidão acabou a muito tempo.

  2. mARILENE pEIXOTO nOVAES
    22/05/2019 at 17:47

    É brincadeira, Paulo, mas esse Paulo gUEDES PARECE TER UM PÉZINHO LÁ NO DARWINISMO SOCIAL, AQUELA DOUTRINA INSANA E REACIONÁRIAQUE, AO LADO DE SUA CONGÊNERE, A eUGENIA, DESMBOCOU, TRAGICAMENTE, NO HOLOCAUSTO NAZISTA. sIM, ESSAS DUAS FAMIGERADAS, COM SEUS ARCABOUÇOS TEÓRICOS, PARECIAM TER DECLARADO UMA “GUERRA CONTRA OS POBRES”… AQUI NO bARASIL E NO RESTANTE DO MUNDO!

  3. Antonio Carlos dos Santos
    21/05/2019 at 08:19

    Já me envolvi em discussões e debates com amigos sobre cotas. Embora fosse a favor, tinha uma dificuldade em refutar os argumentos dos contrários à política das ações afirmativas. Ao ler o seu texto, ficou tão simples a explicação, com argumentos sólidos e racionalmente factíveis. Agora tenho mais instrumentos para me sair melhor nos debates. Obrigado professor.

  4. Zélce Mousquer
    21/05/2019 at 01:57

    Professor eu o vejo como uma pessoa boa, respeitosa. E um prazer conhecê-lo através de seus textos.

  5. Mathaus
    20/05/2019 at 13:51

    Essa é a primeira parte da história, a segunda parte é sobre o estado brasileiro incentivar a mestiçagem para “embranquece” os negros, fazendo com que o Brasil seja composto por negros de pele clara e brancos de pele escura, que possuem em comum com os negros do início do século xx apenas a pobreza.

    Sempre cabe a aquela pergunta, o Pelé é negro?

  6. Orquídea
    03/05/2019 at 08:44

    Que bonito, o senhor conheceu a “bisa”…?

  7. L'Homme Révolté
    02/05/2019 at 22:56

    Paulo,

    Obrigado.
    Moi, un noir.

  8. 02/05/2019 at 19:21

    Obrigado pelo seu depoimento

  9. Eduardo Henrique
    02/05/2019 at 15:28

    O liberalismo no Brasil é só o econômico. Ele só está interessado no Estado mínimo, nas privatizações de estatais, no livre-mercado, no ajuste fiscal e no corte de “despesas”. Porém sempre quando convêm, os “liberais” brasileiros pedem a ajuda do Estado.

    Tudo aquilo que tem de mais democrático e inclusivo no liberalismo político, aqui é negado por esses pretensos liberais que são na verdade meros conservadores medíocres.

  10. Fabrício Rocha
    02/05/2019 at 14:03

    Em quantas gerações será que mudamos isso? Claro que a partir do momento que a sociedade como um todo ter essa consciência e sentir a necessidade de reparação. Estamos muito longe….é muito bonito de ver a diversidade nos EUA, França, Inglaterra e até mesmo na fatídica Alemanha que permitiu que um jogador negro compusesse seu selecionado….parece que o Brasil é sem solução….
    Parabéns pelo seu trabalho árduo nesse sentido!!!

  11. EDMAR bispo dos santos
    02/05/2019 at 13:36

    Mais uma vez as lágrimas rolam.
    Obrigado professor, por sempre lembrar do meu povo.

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