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24/03/2019

Os chinelos do presidente chamam por um Impeachment


Somos animais simbólicos. Afinal, somos animais de linguagem. Na política exacerbamos o simbolismo. O fascismo tem sido o exemplo mais claro de exacerbação do simbolismo no campo da política. Bandeiras, uniformes, grandes paradas e tochas de fogo. Em tudo que pode parecer viril e mostrar poder por meio da exacerbação de objetos fálicos, ali está no fascismo.

Também o corpo dos políticos fascistas é algo utilizado ao máximo para o simbolismo. A direita adora a parafernália dos objetos. É como se a coisificação se apoderasse dela segundo a ordem da reificação universal: o que se deve ter como regra para o mundo e que tudo se torne objeto. Os corpos fascistas, os corpos da direita, eles querem se confundir com o mundo dos objetos. É como se cada pessoa de direita mostrasse seu não secreto desejo de ver a inversão entre sujeito e objeto como a regra do mundo. Tudo que é vigente e mantém o status quo é, para a direita, natural. O capitalismo é natural. Se o mercado é onde se dá essa inversão entre sujeito e objeto, e isso é o natural, então que tudo se inverta segundo tal norma. Que bom, então, que meu corpo possa se colocar como mais um elemento desse mundo de coisas – assim quer o homem de direita. Sinto-me vivo como sendo um zumbi. No mundo dos objetos, um objeto que aparentemente ainda se move por uma pseudo vontade própria, tem seu destaque, seu merecimento, seu prêmio. Que ótimo ser zumbi num mundo de coisas exclusivamente mortas.

No Brasil, nunca vamos nos esquecer de Collor, levantando cada dia com uma camiseta nova, com dizeres no peito. A ideia de poder dar recados para a população, sem a mediação da imprensa ou dos partidos. O corpo do presidente deveria dizer tudo. O presidente havia morrido, claro, pois a campanha tinha terminado. Então, permanecia vivo o capitalismo, o mundo dos objetos tornado sujeitos, e o corpo do presidente mantinha-se um eco de sua existência.

Agora, essa característica do corpo posto como um objeto a mais, e capaz de dar recados, voltou à moda. O corpo é um outdoor ambulante. É o corpo de Bolsonaro. Todavia, Bolsonaro é o fascista trapalhão. Desse modo, há momentos em que seu corpo se mostra segundo uma simbologia consciente, e há momentos que temos que ler no seu corpo os recados um tanto inconscientes para o próprio Bolsonaro. Afinal, zumbi tem consciência? A arma na cintura era símbolo e recado. Consciente. Ato intencional. Bolsonaro queria mostrar-se o jagunço da nação. O policial em serviço. O homem do membro viril. Daria tiros em comunistas, travestis, negros desobedientes e coisas do tipo. Todavia, diante da cadeira da presidência, veio a incompetência e o medo. O uso dos chinelos é bem isso. Trata-se do apego a um objeto que lhe garanta a condição se semi doente. Está presidente, mas, nas horas difíceis, pode não estar. Só pessoas a meio caminho usam chinelos e calças e tiram fotos assim fora da praia. Ele não pode vestir de modo completo o uniforme de presidente, então, fica sempre pela metade. É um aviso, uma desculpa, um subterfúgio que o corpo mostra – inclusive para ele mesmo!

O recado do corpo do homem de direita continua sendo a sua bandeira, seu dístico. Mas agora, trata-se de ato falho. Ou quase isso. É sim um recado, mas um recado também para ele mesmo. É a mostra de um desejo de poder fugir, de dizer-se febril, como eterno esfaqueado, como eterna vítima, voltandopara a cama do hospital. Bolsonaro quis dar sinais de força. Agora, quer dar sinais de fraqueza intermitente. Seu corpo mostra a “saída honrosa”. O chinelo é a sua passagem para o quarto, para a fuga, para a desculpa. O presidente está recolhido. Mourão não assume, pois o é, afinal de contas, não a denotação de doença, mas a chance de falar que ela, a dor ou a febre, podem voltar. Pode-se faltar a compromissos, dado que o chinelo indica convalescença eterna. Bolsonaro sente que a cadeira de presidente exige trabalho. Ele nunca trabalhou, em trinta anos!

Os sinais de despreparo, medo infantil e fuga, típicos de uma criança que não quer sair da cama, fingindo-se doente em dia de prova na escola, estão todos no corpo de Bolsonaro. O olhar dele mostra isso. Mas quem não puder olhar de perto, que veja ao menos os chinelos.

Bolsonaro precisa de um Impeachment. Precisamos fazer com que assuma os chinelos. Ao menos os chinelos! Que volte para casa, para “as origens”, como ele gosta de dizer. Ele mesmo espera isso.

Paulo Ghiraldelli Jr., 62, filósofo.

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17 Responses “Os chinelos do presidente chamam por um Impeachment”

  1. lucas
    24/02/2019 at 11:18

    Não cabe aqui expor a instituição e tão pouco a pessoa, mas isto aconteceu e provavelmente se repetirá em outras instituições regulamentadas pelo estado, dado o quadro político atual.

  2. lucas
    24/02/2019 at 08:11

    Belo texto Paulo!

    O Sr. que no Brasil começou com a discussão filosófico através das mídias sociais! O que acha da proibição de recursos didáticos e pedagógicos como o notebook e aparelhos celulares estarem sendo proibidos por professores nas salas de aula?
    Ainda mais em cursos de ciências humanas onde esta ferramenta pode auxiliar tanto o aluno quanto o professor. Esta proibição se dá em razão do medo pelo patrulhamento das ideias do escola sem partido.
    Tem algum sentido esta proibição pelos professores de universidades públicas que justificam a liberdade de cátedra para tomarem tal posição?

  3. LMC
    20/02/2019 at 12:54

    Trump,que Bozonazi adora macaquear
    não chegou nesse ponto.Mas,pro Bozo,
    ditador(?)é o Maduro.

  4. Quem se importa
    19/02/2019 at 15:26

    Tem gente aqui que eu acho que não entendeu nada do texto e o que realmente isso quer dizer.

    Mas não foi por falta de clareza nas palavras. Se não entendeu, foi por excesso de sombras na mente.

    Por mais iluminado que esteja o dia, o cego infelizmente não conseguirá ver uma árvore a meio metro de distância em sua frente.

  5. Tony Bocão
    19/02/2019 at 09:04

    Ótima análise, dá para falar muito dessa imagem, a postura de bloqueio de todo mundo de braço cruzado, os ternos de seus compinchas de número a mais ou a menos, o Lorenzeti sem o blazer e mais a frente dando uma de o qualificado que trabalha, ele inclusive acredita nisso, mas que verdade é péssimo articulador, entre outros… Sempre vejo que desde a campanha o bozo tinha uma imagem meio que precária, ele se esforçava para ter uma precariedade. Aquelas coisas de sapato preto de borracha vulcanizada comprado em agropecuária com meia branca, os chinelos, o desleixo da camisa fora da calça, achava que era um lance de campanha, afinal, uma vez o vi no aeroporto e me lembro que ele não se parecia com vendedor de bíblia. Mas não, é precário de verdade mesmo, Wilhelm Reich se deliciaria com o Bozo.

  6. 18/02/2019 at 19:36

    Meu querido professor filósofo (ou seria o contrário? ), folgo em ler a magistral interpretação á luz da psicanálise, do significado do chinelo do impostor. Para mim foi um prazer ler seu texto. Que venham novas eleições!?

  7. Hilquias Honório
    18/02/2019 at 19:07

    Que grandes segredos um par de chinelos pode esconder! A filosofia desbanalizando o banal! Se fosse outra pessoa, com outros filhos, eu poderia sentir pena. Mas, para mim, está cada vez mais claro: não podemos mais ficar a mercê dessa gente no poder! Nessa crise toda e nessa onda de Bolsonaros, eu aprendi muito sobre o valor de se respeitar os ritos, o cerimonial republicano. A falta de compostura dessa gente é inacreditável.

  8. Edmea palermo
    18/02/2019 at 18:49

    Professor , meu nome é Edmea , moro em Florianópolis, conheci seus vídeos recentemente por intermédio de uma amiga. Estou apaixonada pelas aulas, parabéns e obrigada por me tornar um pouquinho melhor . Tornei- me e ja ganho mais pessoas para o canal

  9. Rejane Costa Moreira
    18/02/2019 at 17:52

    Um impeachment agora colocaria no poder um homem extremamente perigoso, ardiloso e de extrema direita! Isso vai destruir de vez a democracia e o que ainda resta dos nossos direitos!

  10. Bruno Zoca Barbosa
    18/02/2019 at 17:42

    Olá, querido professor. Parece que o governo pé de laranja conseguiu uma imagem bem ilustrada: governo pé de chinelo…

    Abraços

  11. Roberti
    18/02/2019 at 17:17

    O bolsonaro está presidente. Como a rainha da Inglaterra ele é a ” figure head”! Nada mais. O homem é um vexame ambulante. Um bordogui sem as orelhas aparadas e de rabo comprido. Enfim, uma pálida ideia de masculinização. Um atrofio.

  12. CAIO FEGOURI
    18/02/2019 at 16:24

    Kkkk, então Paulo uma pessoa do Governo tem que por obrigação tem que tá composto por roupas, acessórios e coisas Mega, super chiques absurdamente caros, somente porque é no caso do Bolsonaro, ele o presidente? A população (a maioria) quiz ele porque poderia e por conter os gastos desnecessário, fazer a mudança real, coisa nunca feita nos governos FASCISTA/COMUNISTA/SOCIALISTA do PT. Sua palavras são autoritária, arrogantes e cheias de ódio simplesmente porque não aceita a derrota do(s) seu(s) candidato(s) de mesma linha ideológica.
    Aliás você viveria muito bem na Venezuela, Cuba… Se muda para lá!!!

    • 19/02/2019 at 01:12

      Caio você não percebeu que esse se discurso é burro? Você não percebeu que mandar gente para Venezuela é coisa de tonto?

  13. 18/02/2019 at 15:25

    Brilhante.

  14. Andrea Brandão Prattes
    18/02/2019 at 13:29

    Excelente professor! esses chinelos podem ser o grito inconsciente desse homem, um pedido de socorro para tirá-lo “dessa”. Ele não quer governar pois sabe que não pode. O Impeachment será uma espécie de extrema-unção para quem no fundo se sabe morto. Professor, poderia falar sobre Bio politica e por que parte da esquerda tradicional é tão avessa a Foucault?

  15. Roberto
    18/02/2019 at 13:27

    Diferente de Bolsonaro, Mourão é um general com longa carreira, trabalhou muito para chegar na “cadeira” da experiência. Tanto que ele elabora muito bem o papel de um general “comandado” por um capitão reformado.

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