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16/11/2018

Moro só será inteligível para os bons historiadores


[Artigo para o público acadêmico]

MORO nunca foi político. Durante muito tempo, jamais cogitou uma tal profissão.Todavia, como juiz, adquiriu fama e, em um dado momento, passou a considerar essa possibilidade. Não a de se tornar político pela via de um cargo no legislativo, mas por alguma oportunidade no STF ou em algum ministério. Creio que não chegou a fazer planos e levar a sério um tal pensamento. Mas viu que tinha potencial. Deixou a ideia na gaveta. Chegou mesmo a se esquecer dela no dia-a-dia, e não trabalhou por ela tenazmente, como muitos ambiciosos fazem.

Mas nós todos não somos donos das teias em que nos enredamos, mesmo sendo nós as aranhas que as ajudam a se constituir. E então, a trama do destino fez ele, Moro, ser o que o PT queria que ele fosse. Moro nunca conversou com Bolsonaro e, de certo, se é que passou pela sua cabeça que um dia poderia ter portas abertas para algum cargo maior, pensou que isso viria pelas mãos do PSDB. Mas eis que a coisa veio por onde ele não esperava, nem nós: Bolsonaro. O presente saiu melhor que a encomenda, ainda que a encomenda nem tenha sido feita. Vindo por Bolsonaro, um tal presente trouxe para Moro, também, o álibi que não serve para o PT, mas que serve para ele próprio, para a sua consciência. Qual? Este: ele nunca esteve próximo de Bolsonaro.

Moro agora é o ministro da Justiça. Pode ter o desprazer de conviver com muitos que ele julgou e condenou, ou com outros que ele facilmente condenaria. Mas isso tudo é passado, agora Moro perdeu para a historiografia que virá. Não conseguirá contar comigo para ajudá-lo. Não terei forças. Ninguém terá. Nós todos, intelectuais, seremos devorados pela versão petista que já está pronta, a do “golpe”.

Não entender essa história de Moro é não ser apto para as ciências humanas. É não compreender como que algumas pessoas realizam seu destino de uma maneira que nos faz realmente acreditar em destino traçado; é e não perceber que, por conta desse tipo de enredo em certas histórias, é que nasceu a literatura trágica.

O trágico é exatamente isso: o personagem não pega o caminho do destino, mas eis que, em determinado momento, tudo conflui para que os observadores possam dizer que ele não só pegou o caminho do destino mas, também, não tinha como não ser assim. Os observadores dizem: “ora ora, eu já sabia, ele não iria escapar disso, cumpriu seu destino”. Não é propriamente a verdade, talvez, mas a literatura trágica adora fazer isso. Essa é a principal característica do tragicismo.

Alguns entenderão as coisas como as descrevo aqui. Ponho hipóteses e sofistico o texto por meio da ideia de comparar a história de Moro com a história de um esquema da tragédia. Mas uma boa parte irá preferir a narrativa do senso comum, que favorece a versão do PT, e que será a de dizer que Moro não cumpriu seu destino, ele fabricou seu destino; nessa versão, ele mesmo desde o início teria tentado prender Lula para que a eleição fosse feita sem o ex-presidente. Moro não conseguirá fazer valer a minha versão, essa metanarrativa que tracei, usando a ideia do esquema trágico. A versão do PT ganhará a população e irá completar uma outra, talvez até mais tola, mas muito eficaz, a de que a atitude de Moro completou o que já se vinha fazendo pela “trama das elites”, por meio do Impeachment, ou seja, do “golpe”. Moro no governo Bolsonaro seria, então, a apoteose do “golpe”. Caso o PT disputasse com Alckmin ou com Ciro ou com Marina e ocorresse então o mesmo convite para Moro, o PT diria a mesma coisa.

O resultado disso tudo, para as ciências humanas, é que temos mais um episódio daqueles que fazem o historiador ter de saber literatura e filosofia. Ao mesmo tempo, para a própria história dos historiadores profissionais, tudo isso irá provocar uma baixa teórica na produção historiográfica a respeito do ciclo iniciado em 2013 e encerrado agora, em 2018. Muitos endossarão a ideia de um Moro jamais honesto, sempre mancomunado com “forças ocultas”, voltadas contra Lula.

Por sua vez, Lula aposta nisso. Aposta também em tirar Ciro da jogada, mais uma vez, e sair da prisão um dia como um Mandela. Não apostem muito contra essa minha hipótese aí, podem perder. Quem sabe se Lula não tem um pacto com o demônio? Ninguém sabe. Pois a sorte dele sempre retorna!

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.  Escrito às 03 da manhã do dia 01, antes da conversa de Moro com Bolsonaro sobre o ministério, ou cargo no STF.

PS. O GRANDE PROBLEMA DAS histórias em que tudo, ao final, aparece como tendo sido um plano (da “mão invisível”, da “astúcia da razão” ou mesmo de um gabinete de deuses manipuladores), é que elas, se fossem verídicas, logo virariam uma pedagogia para cada um de nós. Então, aprendida uma tal pedagogia, nenhum povo ou indivíduo erraria em sua vida. Os mais velhos planejariam tudo, com tal pedagogia, e cumpriríamos nossa passagem na Terra como comandantes supremos. Explicar isso para um petista ou bolsonarista é impossível. Mas não desisto. Pois há petista ou bolsonarista cuja mãe descuidou, e ele foi criado por uma tia e não ficou tão imbecil.

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74 Responses “Moro só será inteligível para os bons historiadores”

  1. astrólogo de salão
    04/11/2018 at 19:48

    o juiz Sérgio moro é do singno de leão e quem nasce sob este signo, segundo a astrologia, tem como uma de suas principais características a ambição e, mais ainda a ambição pelo poder. leoninos típicos também:napoleão, mussollini e ernesto Geisel.

  2. Maristela de Neves Paula
    04/11/2018 at 10:58

    Dr. Paulo Ghiraldelli, Olá! Meus parabéns pela excelente reflexão! A sociedade brasileira espera de você, aqui e o no Youtube, que possa responder, como Filósofo e Educador: Qual é o tipo de educação necessária para a população não se identificar socialmente com pessoas fascistas (bols…) e conservadoras idiotas (pond…, olav…)? Quais os conteúdos e a metodologia de uma educação assim?

    • 04/11/2018 at 14:24

      Os clássicos! O que é pedido nos vestibulares das faculdades públicas, e que o bolsonarista olavete não consegue aprender

  3. 03/11/2018 at 22:03

    Embora Zaratustra (a história de Zaratustra está wikipedia) pudesse ter usado a ocasião da cura do cavalo de Vishtaspa para arrogar-se poderes sobrenaturais, ele preferiu ser sincero, e foi isso o que de facto mostrou a Vishtaspa a sublime beleza e profundidade da mensagem. Ele curou o cavalo de Vishtaspa e disse o que fez, deu-lhe um antídoto contra um veneno, não fez nenhuma mágica. Da mesma forma o garoto que carregava água na cabeça aos 10 anos, e que sabia o que significava carregar água na cabeça por quilômetros, quando um dia conseguiu pela sua experiência sindical e luta de classes apoiado por uma multidão de petistas e afiliados ao PT, chegar ao poder, ele apenas queria, em sua forma simples de pensar e de fato é uma forma simples de pensar que ele ainda hoje tem, “que toda criança tivesse três refeições por dia” coisa que ele sabia, fazia falta. Ainda existem pessoas como Zaratustra, eles se chamam Paulo Freire (continua existindo, criou uma pedagogia da libertação que dificilmente será morta apesar do rei nú já ter anunciado que varreria toda menção a Paulo Freire, coitado), Lula, libertou da fome 40 milhões de seres humanos lhes garantindo algum prato de comida. Os sacerdotes das falanges modernas, como grotesca maçonaria, da nova ordem mundial, se assustam com com um simples Zaratustra que como Paulo Freire, Lula, ou o menino da história de Malba Tahan que esclama “o rei está nú” – Bolsonaro está nú, como estão nús os que os rodeiam, estão apenas vestidos com solofane em que os envolveu Steve Bannon e que tragicamente nos levaram ao momento atual. Sloterdijk nasceu velho, não conseguiu se desembaraçar das teias com que Heidegger o envolveu em sociedade dos carneiros e pajens. Mas o poder da educação para a libertação é tão intenso que um tipo nú como Bolsonaro com certeza incapaz de ler “pedagogia da libertação” pensa o impensável que é apagar todos os vestígios deste Zaratustra da educação que nos mostrou, assim como mostrou ao mundo inteiro, que existe um outro caminho que nos leva à liberdade quando poderemos deixar de os carneiros, ou ovelhas de Sloterdijk ou Heidegger sem nos tornamos os produtos industriais BaySanto. Estou na resistência, porque na presença dum governo ilegitimado pela propaganda de Steve Bannon que violentou nossas eleições não cabe oposição, o que cabe é resistência.

    • 03/11/2018 at 23:00

      “Nu” e não “nú”. OK? Ah, você não leu nem Heidegger e nem Sloterdijk. Termina o supletivo.

  4. Farol de Alexandria
    03/11/2018 at 20:33

    Queria dar meus parabéns, professor, por seu trabalho no youtbe, muito bom. Por isso seu canal vem crescendo tão rápido.

  5. Leonardo
    03/11/2018 at 19:03

    Existe um esforço do professor de dar ´naturalidade´ e ´espontaneidade´ aos episódios cronológicos e sistemáticos da operação lava-jato contra o Partido dos Trabalhadores em particular (e logo contra outros atores do sistema político da centro-direita para abrir um ´novo´ espaço de poder). Tentar afastar a ideia de ´planejamento estratégico´ por parte da força tarefa e da sua principal estrela o juiz Moro. parece uma tarefa gigante e desnecessária. Já passou o tempo dos espelhos coloridos e a velha frase do pragmático Juan Pe?on levanta o braço da narrativa petista, a saber: ´A unica verdade é a realidade´ …

    • 03/11/2018 at 23:02

      Leonardo você não entende uma palavra sequer do que escrevi. E não vai entender. O texto do filósofo não é o texto do jornal.

  6. Marcelo Santos
    02/11/2018 at 22:07

    Vou guardar este link e esperar o passo da história! Se sua narrativa estiver correta, volto aqui para lhe congratular pela previsão acertiva. Agora, se der errado, volto da mesma forma, mas para falarmos sobre a falha na análise.

    • 02/11/2018 at 22:44

      Não tem como dar errada, não está no campo do falso ou verdadeiro; acho que você não entendeu o texto, leia de novo com calma.

  7. andy
    02/11/2018 at 16:12

    OFF-TOPIC:

    Para futura discussão, se achar que vale a pena.

    É possível existirem totalitarismos “à la XX siécle” em tempos de redes sociais, ou seja, quando qualquer imagem pode dar a volta ao mundo em segundos?

    Em outras palavras: O totalitarismo não estaria condenado a questões “menores” (moral, sexualidade, etc.), ou seja, questões importantes, mas que não tem a dimensão de uma engenharia social em grande escala, limpeza étnica, genocídios, etc. Apenas discurso de ódio, com énfase em “discurso” como oposto a “ação”.

    Focalizo apenas nos países ocidentais industrializados, EUA, Europa. Russia, China, e aberrações como o Estado Islámico, deveriam ser considerados aparte, mas com justificativa.

    • 02/11/2018 at 20:00

      Em teoria, sim, mas o caso a Turquia nos assusta né? E o caso da China?

  8. Rick Mateus
    02/11/2018 at 04:40

    Paulo, vou te fazer umas perguntas. Não sei se vai querer respondê-las, mas farei assim mesmo.
    Por que, apenas quem entende tais acontecimentos da mesma forma que você é que está correto? Quer dizer que qualquer um que levantar questões sobre toda essa idoneidade do Moro é cabeça dura, burro e petista? Quanto a ser burro e cabeça dura eu não posso dizer, talvez você me dirá, mas posso dizer com certeza que não sou petista, embora tenha, sim, apoiado o PT no segundo turno, porque também ninguem merece ser ligado ao Bolsonaro. Mas exatamente por esse motivo eu tenho excelentes razões pra desconfiar que o Moro está fazendo política a muito tempo. Você respondeu em um comentario acima que o fato de a esposa dele ter comemorado a vitória do Bolsonaro não mostra nada. Ora, o Lula foi condenado por um conjunto de excelentes evidências. Atitudes ultimas do moro também são excelentes evidencias de que suas ações sempre foram politicamente enviesadas, muito embora eu tenha que concordar com você no sentido de que, não acredito, sinceramente, que ele tenha planejado se tornar ministro, embora também o Bolsonaro já venha manifestando publicamente o seu desejo de convidá-lo.
    Isso é outro fato interessante. A figura do Bolsonaro é tão desprezível, que eu não conheço um cidadão se quer, que seja minimamente bem informado e que queira ser ligado ao Bolsonaro, a não ser que compactue com ele ou seja privilegiado o bastante pra pensar que sua eleição não fará diferença em sua vida. Pensando assim, não entendo por que o Moro, sendo tão bem intencionado o tempo todo como você diz, não reagiria já as primeiras falas do fascista, podendo dizer: não compactuo com defensores de regimes autoritários. Sou defensor do direito e bla, bla bla.. E nem to levantando questões de vazamentos unilaterais, de encontros com a cúpula do PSDB….. Acho que se procurar tem mais boas evidencias de que este cara não é um bom sujeito. Mas pelo amor de Arceus, não pense que eu acho que ele não fez coisas boas e importantes. Ou que acho injustiça o Lula estar preso. Mas parece muito evidente que tudo isso não foi puramente um combate a um crime, foi o combate a um criminoso que obteve sucesso graças a um momento em que se pode ignorar importantes questões que são próprias do Estado de Direito. Enfim, desculpe falar demais, é que gosto muito de seus vídeos e textos e você me inspira muito a pensar. Muito obrigado!

    • 02/11/2018 at 08:11

      Suas perguntas não fazem sentido, eu não estou interessado no realismo político, eu comentei apenas as narrativas que poderão ficar e as que não poderão ficar, e mostrei que uma delas tem estilo trágico. Eu não faço ciência política ou análise de conjuntura. Eu faço filosofia. Leia meu texto novamente com essa dica.

  9. Maria Clara Corrêa Tenório
    02/11/2018 at 03:20

    Caro Professor, seguindo a linha trágica do nosso personagem, enredado nas teias que está construindo e das quais não tem controle absoluto, elevado à condição de Superministro, dotado de plenos poderes, em um governo amador e chantageado, que não tem ideia de como governar esse país, seu destino poderia transformá-lo no verdadeiro “Príncipe Maquiavélico” – o ditador “fascista”, que se antevê no atual contexto histórico brasileiro?

    • 02/11/2018 at 08:12

      Pode ocorrer sim, mas pode ocorrer uma derrocada, veja meu vídeo falando sobre “Bolsonaro prepara sua cova com Moro”

  10. Milena
    02/11/2018 at 01:02

    “… É não compreender como que algumas pessoas realizam seu destino de uma maneira que nos faz realmente acreditar em destino traçado; é não perceber que, por conta desse tipo de enredo em certas histórias, é que nasceu a literatura trágica.” Bravo! Baita texto, Paulo! Discordo de muita coisa sobre a pessoa do Moro. Ele legitimou a narrativa petista quando demonstrou não possuir a imparcialidade mínima necessária para julgar o caso, porém entendo que o seu texto não é sobre ele.

    • 02/11/2018 at 08:13

      Milena, eu não trato nada de modo realista, eu trato tudo assim: faço uma narrativa que analisa quais as narrativas fortes, fracas, as que poderão ter sorte, etc. É algo que aprendi com Rorty, um modo pragmatista de fazer filosofia.

  11. Nilo Garcia Silveira
    01/11/2018 at 23:47

    Prof. Paulo Ghiraldelli, lendo uma segunda vez o texto consegui entender que o Sr. usou de um contexto atual para filosofar sobre a tragédia. Eu imagino que a minha confusão, como a de outros tantos, se deva ao momento conturbado que vivemos e que deixam os sentimentos a flor da pele turbarem nossa capacidade de compreensão. Por outro lado, eu ainda não consigo identificar quando o Prof. está filosofando ou factuando. Agora, uma pergunta filosófica: caso usássemos do mesmo artifício, um texto narrando a carreira de um promotor público, só que esse seria baseado no promotor italiano Antonio Di Pietro, que coordenou a operação Mãos-Limpas, a qual o juíz Sérgio Moro diz se inspirar no seu trabalho. Sabendo que depois da magistratura, ele foi demitido do Ministério de Obras Públicas por conta de uma investigação e se tornou um político de pouca expressão, estaríamos tratando nesse texto sobre qual tema? tragédia, hipocrisia ou ironia?

    • 02/11/2018 at 00:25

      A tragédia se caracteriza por conta do personagem pegar caminhos diferentes dos que o levariam para um destino determinado, espera-se entao que ele, pela sua decisão, tenha conseguido criar seu próprio destino, mas ao final, ele acaba realizando o mesmo destino já traçado pelos deuses.

  12. Renato Gimenes
    01/11/2018 at 22:32

    Ótimo texto. Afasta a maldita “teoria da conspiração” – embora infelizmente ela domine a narrativa de esquerda há anos.

    Você opta pela narrativa em que Moro é um personagem trágico. Pode ser, é eficaz, e nos faz imaginar que desfecho pode ocorrer com Moro, enquanto alguém que é enredado pelo seu destino.

    Penso muito em como ele vai conviver com o Centrão, com o Baixo Clero – que é o que domina, na verdade é esse governo, agora que o Centrão se independeu do PT, do MDB, do PSDB.

    • 02/11/2018 at 00:26

      ´É difícil ensinar as pessoas a pensarem filosoficamente, ou seja, a partir de tipos de narrativas. Mas vejo que meus leitores estão melhorando.

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