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16/11/2018

“Brasil: Ame-o ou deixe-o”. Sílvio Santos, de novo, vem aí.


[Artigo para o público em geral]

Já faz um bom tempo que nós, no Ocidente, tentamos explicar se somos seres naturais ou culturais. As fórmulas simplórias pululam: “o homem é fruto do meio cultural e também de suas base biológica” – eis aí uma bobagem que não explica nada, e que caberia muito bem como mote de um ministério de governo, criado pela Janaína Paschoal. É claro que os filósofos tentaram resolver esse problema com alguma maior sofisticação que uma tal sabedoria de curso de Educação Física dos anos 40. Mas, enfim, nenhuma das soluções dadas para o “fenômeno humano” me parece tão boa quanto a de Peter Sloterdijk.

Esse filósofo alemão da atualidade criou a noção de “antropotécnicas”, ou seja, narrativas de práticas executadas pelos proto-humanos e humanos que são produtoras de humanos. Uma delas é a de preservar na memória, com graus de verdade muito flexíveis, uma situação boa passada pelo povo no qual se vive, e então evocar uma tal situação quando os tempos estiverem corriqueiros na atualidade, ou seja, quando a época for a de sofrimento. Esse tipo de narrativa é uma das antropotécnicas, e nós a conhecemos pelo nome de religião. Não há religião sem nostalgia de uma época de ouro que, enfim, garanta a fé presente e a chamada “esperança”, a última coisinha do fundo da Caixa de Pandora.

Em épocas de dificuldade, quando as coisas, pessoas e situações não fazem mais sentido, tiramos força de nossa fé, que nada é senão a confiança na esperança de que, se vivemos um dia maravilhosamente bem, então, esses tempos voltarão. Isso é religião, e também sentimento religioso que se espraia para comportamentos corporais e para a política, mesmo quando estas práticas não tenham nada a ver, diretamente, com religião.

Sílvio Santos sempre se atrelou a governos. Ele é um empresário genial e ao mesmo tempo desorganizado. Vive de sobressaltos, com seus negócios indo bem e, logo em seguida, indo mal. Silvio precisa dos governos. De todos os governos. E nunca foi oposição a nenhum. Mas não é por isso que adotou, agora, o “Brasil: ame-o ou deixe-o”, que é uma lema de Médici, herói-ditador do Bolsonaro. Essa adoção é a capa da revista Sílvio Santos chamada SBT, mas não o conteúdo total. Com ela, Sílvio mostra, também, ao menos para mim (que sei ler sua revista), que pode precisar de favores governamentais e está se adiantando ao problema, mas que não é só isso que está fazendo. Mas com ela, Sílvio mostra que ele sabe, mais uma vez, sobre o que está se passando no Brasil. Há um ar religioso se espraiando. O Brasil procura um sentido, uma vez que Lula  e o PT fizeram a coisa ir de mal a pior. Que tal, então, acreditar que houve uma época de ebulição, de luta armada romântica, de canções de vanguarda, de militares galantes e maldosos, de praias com topless, de compra de eletrodomésticos e, enfim, de respeito e ordem dentro de casa apesar da mini saia e apesar dos pais currarem suas empregadas domésticas negras (não raro, junto com os filhos). Nesse tempo, tudo era bom. Tão bom que até o MDB não era corrupto, apesar do Quércia. Tão bom que havia Ustra para amedrontar a Dilma enquanto Zé Dirceu comia todas, tantos as meninas da USP quanto as do Mackenzie, já que a direita não comia ninguém. Um Brasil com uma escola pública boa, vinda dos anos 50. Um Brasil onde a droga vinha nas festas, não do tráfico. Um Brasil que tinha saudades da legalidade dos cassinos e onde os chefes do Jogo de Bicho ainda não haviam se aliado ao tráfico. Um Brasil com o outro Neimar, o de Barros, que nos dava Jesus. Um Brasil em que Jotalhão nos ajudava a comer a macarronada de domingo.  Um Brasil em que ninguém disputava horário com Sílvio Santos na TV,  o tal horário que ele comprava da Globo. Entender isso é entender a razão pela qual Emerson Fitipaldi, que está vivo, votou no Bolsonaro.

Essa época que os jovens atuais não viveram funciona, agora, no imaginário, como um mundo com sentido, um paraíso perdido. Se o lema principal dessa época áurea que nos faz ter fé era o “ame-o ou deixe-o”, então, que ele reapareça agora. Pois agora, temos um presidente que é o restolho desse período. Bolsonaro lembra os algozes contra os quais a juventude lutou, os que vieram a ser conhecidos como bandidos nos anos 80. Mas bandido é coisa também da época de ouro. Ulstra pode parecer um bandido necessário, tanto quanto O “Bandido da Luz Vermelha”. Afinal, uma religião não vem só com deuses bons, precisa vir com deuses maus. O mau tem seu charme. Sem o mau não se faz novela. A novela chamada Brasil precisa de sua Carminha.

Se os bons intelectuais, os que vão na contramão dos conservadores, souberem explorar o slogan “Ame-o ou deixe-o” como uma lição sobre a história do Brasil, agora que isso é adotado como peça religiosa, então veremos que Sílvio Santos estará nos ajudando a dar um trança-pés no Presidente do Brasil que é a piada pronta brasileira.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

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15 Responses ““Brasil: Ame-o ou deixe-o”. Sílvio Santos, de novo, vem aí.”

  1. Fábio Muniz
    09/11/2018 at 03:01

    Professor, agradeço pela resposta. Eu quis dizer no sentido, que mais acima o senhor respondeu, em que podemos encontrar religião em tudo. Nas eleições, por exemplo, existia um candidato ( que no caso era o Haddad), que tinha o slogan: vamos fazer o Brasil de Lula. Como se buscasse em um passado, não tão distante, uma época de ouro do país.

  2. Teres
    09/11/2018 at 00:34

    Sensacional! Não tinha pensado do ponto de vista cultural. Acho que me fechei muito na narrativa política.
    Por outro lado, tristemente, tem uma nova variável: evangélicos conservadores. são bem recentes, e crescem aos montes.
    Não vivi durante a ditadura, então gostaria de saber: o Brasil tem se tornado culturalmente mais conservador ao longo dos anos?
    Os últimos governos não providenciaram base educacional/conscientização de classe/política. Pobreza/desemprego geraram recentimento e radicalização (Bolsonaro é apenas a superfície).
    A população brasileira me parece tosca demais para aproveitar o lado “bom” do slogan…

  3. 08/11/2018 at 15:11

    Professor, a busca por esse passado de ouro estaria presente em outras sociedades também? No caso dos Estados Unidos aquela sociedade ainda estaria pensando nos anos 20?

    • 08/11/2018 at 20:24

      Existe religião em todo lugar. Acho que você não viu que o texto fala do sentimento religioso.

  4. Bolsonaro 2100
    08/11/2018 at 12:26

    Comunista vai pra cuba seus esquerdista enrustido

  5. LMC
    08/11/2018 at 11:25

    Pro Santa Madre,não é Onyx Lorenzetti,é Lorenzoni.

  6. Fábio Muniz
    08/11/2018 at 01:47

    Professor, minha pergunta é simples. Podemos pensar que, seguindo a solução do filósofo Peter Sloterdijk, a busca por esse passado de ouro (irreal), a meu sentir, pode ser cíclico?, ou seja, estamos a cada momento buscando um período ou era de Ouro?…falo,ate mesmo no campo progressista.

    • 08/11/2018 at 01:50

      A busca por esse passado é uma das antropotécnicas que conhecemos pelo nome de religião.

  7. LMC
    07/11/2018 at 17:08

    E João Doria diz que vai implantar a
    Escola Sem Partido em SP.O Pondé
    Bicha Velha e o Olavo Repetente devem
    estar se masturbando de alegria.kkkkkk

  8. 07/11/2018 at 15:09

    https://www.youtube.com/watch?v=IGtmz1gIcLo&feature=youtu.be “2 dias depois um 17 no twitter cobrando que Magno Malta vá embora e dizendo que eleitor do bolso é consciente e tbm cobra, será que cobra? o Onyx Lorenzetti corrupto assumido em video e tudo ou o Fraga em outro video anunciado como futuro ministro”

  9. Luciano
    07/11/2018 at 13:39

    Paulo, o Narloch publicou em sua coluna na Folha uma crítica que o Enem faz ‘proselitismo ao politicamente correto’. Vc bem disse num vídeo que a ascensão do Bolsonaro se deve tbm à difusão das “ideias” desses “liberais” de atacar o politicamente correto naquilo que ele acerta. Vc poderia fazer uma crítica mais aprofundada aos ditos “liberais” nesse sentido num vídeo? Se possível, claro.

  10. Felipe Antônio
    07/11/2018 at 13:36

    Boa tarde professor. Farei uma pergunta não relacionada com o texto. Estou querendo cursar o bacharelado em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília via EAD(única forma viável pra mim) Essa instituição tem credibilidade? A graduação oferecida é boa? Sua opinião será importante pra mim professor. Agradeço desde já.

    • 07/11/2018 at 14:02

      Felipe EAD não. FAz devagar o presencial, mas faz presencial. Filosofia é convívio.

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