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20/07/2018

Um novo útero para o macho


[Artigo indicado para o público em geral]

A novidade do debate entre “o discurso de denúncia de assédio”, capitaneado pela fala de Oprah, e o manifesto assinado por Catherine Deneuve e mulheres intelectuais, que acusa o “denuncismo” de afrontar liberdade sexual, não diz respeito a um tema menor ou a uma disputa tola. Trata-se de um marco. Pela primeira vez na história do Ocidente a figura do homem, do macho, está sendo parametrizada pelas mulheres – e só por elas.

O novo contrato sexual que está sendo traçado agora, nesse debate, vai muito além do que é importante para “a vida da mulher”. O que está na minuta desse contrato, e os homens ainda não perceberam, é que o movimento feminista de um modo amplo venceu. Pois, no limite, o que está se delineando é a definição, feita pelas mulheres, do que deve ser o macho do futuro. É o “segundo sexo”, para usar uma expressão de Beauvoir, realmente dizendo o que o “primeiro sexo” deve ser e será. É o particular gerando o universal. Nenhum homem está sendo chamado para opinar. Todo a conversa está sendo feita por mulheres a partir de posições de mulheres, e tudo que é conversado é sobre homens, mas não mais nos termos do “qual homem vai nos realizar” e, sim, qual macho queremos ainda que fique no planeta, com cidadão. As mulheres estão com uma carteira de cidadania na mão, e vão conferi-la só aos que estiverem sob o novo perfil correto.

É claro que uma vez que o debate é franco-americano, a questão central não poderia ser outra senão a liberdade. Mas a liberdade que se discute não é a liberdade do homem versus a liberdade da mulher, e sim as variações da liberdade da mulher. Do lado de Deneuve a posição é esta: as mulheres podem já ter alcançado uma capacidade de cuidar de si mesmas com as leis que já temos. Do lado das artistas americanas e das feministas francesas a posição é esta: os indicadores sociais mostram que os predadores sexuais não diminuíram, e a vida da mulher em geral não pode dispensar novas leis de proteção, e mais rígidas, inclusive a garantia de denúncia. Dizer que ambas as posições não são verdadeiras é tolice. Elas são. Além do mais, sabemos que nesse tipo de debate a conversa no plano universal é bem difícil. É uma tarefa hercúlea não levar para a conversa as experiências pessoais.

Todavia, em torno do debate da liberdade e, especificamente, da liberdade sexual, o resultado, no amadurecimento dessa conversação, será bastante significativo e diferente do esperado. Esse debate é o forno do qual sairá o macho com permissão de dizer “sou cidadão da Terra”, ou ao menos “sou cidadão do Ocidente”. As mulheres estão falando de direitos delas, mas o resultado será o novo molde pelo qual escolas, partidos, famílias, governos, babás e principalmente mães irão usar para forjar o macho do final dos anos vinte deste século. Não sabemos como ele será. Mas uma coisa é certa, pela primeira vez, após períodos de redefinição do humano, ele não será um produto feito sob a hegemonia cultural completa do homem.

Há um novo tipo de útero na jogada. E ele já está sob comando de ressonâncias não convencionais.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Foto: Catherine Deneuve jovem

 

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13 Responses “Um novo útero para o macho”

  1. Guilherme Pícolo
    16/01/2018 at 18:05

    O denuncismo inconsequente e forjado é algo que transcende essa temática de reformulação do macho padrão, me parece algo mais genérico e pode abranger diversas formas, inclusive aquela dos novos “camisas negras” que patrulham as redes sociais à caça de “pedófilos”, “comunistas”, “antipatriotas” etc.

    Tem um livrinho chamado “O Caso dos Denunciantes Invejosos”, de Dimitri Dimoulis, muito utilizado recentemente em turmas de Direito (introdução às relações de direito, moral e justiça), que aborda de uma forma introdutória, porém interessante, esse tema.

    • 16/01/2018 at 18:47

      Não há denuncismo inconsequente no caso citado.

    • LMC
      17/01/2018 at 11:43

      Pior,Ghilherme,é que nos EUA usam
      estas denúncias de assédio como
      sensacionalismo barato.Acham
      isso mais escandaloso do que
      jogar bombas no Vietnã ou invadir
      o Iraque em nome do petróleo.
      Sexo,pra muitos americanos é
      “só depois do casamento”.

    • 17/01/2018 at 12:18

      LMC sua teoria é errada. Os Estados Unidos não se destacam por isso. E outra coisa: é meio tosco comparar Vietnâ e escândalo sexual. As duas coisas contam, cada uma na sua caixa. Sobre o Iraque, a guerra não foi sobre petróleo, este era secundário. Havia um plano de re-urbanização e reconstrução do Iraque, que não deu certo.

    • Guilherme Pícolo
      18/01/2018 at 10:58

      LMC, coloquei a questão do denuncismo malicioso por ser parte da carta aberta da Deneuve e das francesas. Entendo que essa onda de denuncismo forjado e de má fé para destruir personalidades de desafetos (não confundir com a denúncia sincera da vítima de um crime ou abuso real) é algo de nossa época que está além da discussão da reformatação do modelo aceitável de homem.
      Na sociedade da informação, basta plantar uma informação falsa a um desafeto, por exemplo, de um suposto abuso / assédio cometido 30 ou 40 anos atrás, para destruir a vida social e profissional da pessoa. Esse tipo de conduta, independente de qualquer discussão sobre sexo e gênero, deveria ser tratada com maior severidade.

    • 18/01/2018 at 15:56

      Eu fui vítima de mentira na Internet, não morrei. Sloterdijk foi vítima de carta maldosa de Habermas, não morreu.

    • Guilherme Pícolo
      19/01/2018 at 10:12

      Admiro tanto o Habermas, que nunca imaginaria um negócio desses!

    • 19/01/2018 at 10:24

      Habermas, hoje todo mundo sabe, fez veicular uma carta a colegas, condenando Sloterdijk e, sem lê-lo direito, acusando-o de posturas comparáveis ao nazismo, por conta de defesa de eugenia. A melhor resposta a Habermas veio da viúva de Rorty, e foi publicada em português na revista Redescrições, do GT-Pragmatismo da ANPOF.

  2. Eduardo Rocha
    11/01/2018 at 22:17

    Isso não teria relação também com o Pragmatismo? Catherine Deneuve (contra o “denuncismo” de assédio) e a fala de Oprah Winfrey (contra o assédio), mulheres diferentes, é claro, e ambas com sua “experience”. O pragmatismo americano poderia criar ou redescrever vocabulários capazes de dizer aos outros o quanto a perspectiva não opressiva das mulheres é boa para todos, mas que deixassem querer descrever “como de fato é a mulher”, ou seja, criar um molde engessado. Isso seria apenas mais uma forma de falar ou um vocabulário a mais.

  3. Ivan Lázaro
    11/01/2018 at 17:45

    Pois é, um fato curioso isso: é assunto de mulher, homens estão de fora! Estamos (nós, homens) sendo redefinidos por elas! É realmente uma novidade e tanto!

    • 11/01/2018 at 18:24

      Ivan, e perceba que não estamos percebendo isso. Veja como as análises não captam essa evidência.

  4. Matheus
    11/01/2018 at 13:36

    Vou digitar com os pés pq com as mãos estou aplaudindo.

    (Quero ver daqui alguns anos que resultado isso terá no BR, pois aqui metade do povo é criado apenas por mulheres [mães/professoras] só a outra metade tem interação com o pai, e esse pai tbm muito provavelmente estará licenciado segundo os novos moldes)

    • 11/01/2018 at 13:38

      A coisa chega na classe média, mesmo com o Brasil desescolarizado.

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