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16/12/2017

Taís Araújo coloca os racistas na parede


Os artistas são trabalhadores como quaisquer outros. Os do teatro e da teledramaturgia, claro, também. Mas por conta de levarem na ponta da língua a cultura, interpretando textos que nem sempre acomodam os menos inteligentes nas suas cadeirinhas, são mal vistos por estes. Pagam um preço alto por exercerem a intelectualidade para fora da academia. Junto do passado ligado à boemia, são tomados como gente da “ralé”, “inconstante”, que “não preservam a família” etc. Tudo isso vem à tona quando a raiva de certa patuleia pela Globo – tomada como símbolo de poder – se duplica no ódio ao fato do artista que chega a essa emissora não deixa de aproveitar a visibilidade e, então, se engaja em campanhas humanitárias. Aí os mal-amados do mundo se revoltam. Os mal-amados do mundo odeiam os artistas que querem fazer o bem.

A reação contra Taís Araújo é exatamente isso. Ela é tida como rica, famosa e, então, ao reclamar de racismo, é trucidada pela opinião daqueles que querem ser os donos dos desgraçados. Sim, no Brasil, há pessoas que sentem que as reclamações precisam de aval e organização delas. São os chefetes de alguma coisa na imprensa ou pseudo-donos de pequenos cargos burocráticos de poder, apoiados por aposentados reacionários que conversam alto em fila de banco e em botecos de pinga – doutores em política que, não raro, possuem até “jornalzinho” no Facebook.

Os artistas não são ricos. São operários da cultura. Ganham mal. As pessoas de fora do meio não acreditam que artistas famosos ganham mal, e que precisam aproveitar a onda de visibilidade para  pegar algum dinheiro. Não à toa os vemos servindo de garoto propaganda no mundo dos comerciais. Sim, no geral, os artistas ganham muito mal. E poucos tem carteira assinada. E a cada fim de trabalho correm o risco de não serem chamados para nada. Correm o risco de ficarem só no teatro e, então, depender de incentivos governamentais para levar adiante o ideal da dramaturgia que, como a filosofia, é sim uma tarefa de abnegados. Os artistas famosos que, além da causa do teatro, ainda se dedicam às causas sociais, são heróis.

Os artistas negros da Globo têm estado em campanha contra o racismo. E a presença deles nessa campanha está irritando os conservadores na direita e na esquerda (sim, há conservadores na esquerda!). Por quê? Porque quando um artista bem conhecido, que vive dando autógrafos reclama, ele desmascara a ideia conservadora de que o racismo não existe, ele fustiga   a ideia tola e falsa de que o problema de preconceito é com o pobre e com o anônimo. Esse tipo de conservador é aquele que luta contra as cotas étnicas, e oferece hipocritamente em troca a cota para pobre. Oferece o populismo para, enfim, não enfrentar problema algum (isso uniu PSDB e PT certa vez). Querem de toda maneira jogar o problema do racismo para debaixo do tapete e igualá-lo ao problema do pobre. Querem nos fazer acreditar que se a escola pública for boa, então o negro poderá estudar! Ora bolas, eu estive num Brasil de escola pública boa e o negro não estava lá. O dia que a escola pública voltar a ser boa, o primeiro a ser empurrado para fora dela será o negro. Duvidam?

Há gente de esquerda pensando ainda segundo cânones da velha “luta de classes”. Querem que a pauta da esquerda seja exclusivamente social-democrata e de orientação europeia, sem a incorporação dos problemas levantados pela esquerda liberal americana, que é o problema das minorias. Mas isso não dá mais certo. A esquerda, se quiser levar adiante a bandeira de um liberalismo radical e ampliado, precisa começar a pensar em feministas, gays, trans, negros, mulatos, e todo tipo de minoria como tendo problemas específicos, que já há muito não são os “problemas do operariado”. Mas necessita, mais que nunca, admitir a presença no campo do movimento anti-racista, de gente como Taís Araújo, que muita gente acha que “não deveria reclamar”. Por que não deveria reclamar se ela sabe que seu filho pode sofrer do racismo de nossa sociedade? Se ela, famosa, passa por apuros, porque o filho não passaria? Por que ela deve se calar? O senhorzinho da fazenda mandou? O menino capitão do mato está nervoso?

Tais Araújo e outros atores negros que se destacam estão dizendo: não somos ricos não, somos famosos, e por tempo muito curto talvez, e mesmo nesse estrelato curto, nossos filhos e nós passamos aperto nessa sociedade. Estão dizendo: estamos em desvantagem, sim, por conta do racismo brasileiro. Um racismo que tem graus: aceitamos a mulata e o mulato (no IBGE: os pardos), mas não toleramos de modo algum o negro mais escuro. Todos sabemos disso. E o grau de tolerância para com o mulato e a mulata também é bem relativo. Na hora do casamento, do convívio, não adianta ser Taís Araújo não! Há muita gente no Brasil que odeia os negros que se destacam, chegam a pensar: como que eu, branco, sou pobre e anônimo, e “essa negrinha está aí, aparecendo”. Sim, já vi gente de todo tipo falando isso. Gente que eu não imagina que falaria isso. Juro, não foi o William Waack, foi gente de quem eu realmente não esperava essa mágoa.

Os negros agora precisam de carteirinha de pobreza para serem negros? Só isso não basta, precisam de carteirinha de anônimos? Só negros que apanham no metrô e são confundidos com bandidos podem, talvez, reclamar – é isso que vale agora? Taís Araújo não. É como se na rua, todo mundo gostasse dela. Mas não é bem assim. Na rua ela é negra. No Brasil, isso já basta para passar aperto. Nunca devemos esquecer que Lula quando viu o Obama disse: “Ah, ele é legal, parece um baianão”. Nessa brincadeira não maldosa revela muito. Sacaram?

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. 21//11/2017

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2 Responses “Taís Araújo coloca os racistas na parede”

  1. Guilherme Picolo
    21/11/2017 at 21:38

    A MUCAMA E A COXINHA

    A família real brasileira era notória apreciadora da carne de frango, proteína onipresente desde as refeições mais frugais aos saraus e banquetes da corte.

    Era, todavia, um problema para o menino da princesa Isabel e do conde D’Eu, portador de certos problemas cognitivos que o impediam de degustar a iguaria à moda que imortalizou seu ancestral João VI nas pinturas, sem que se engasgasse com os ossos e trouxesse grande preocupação à família.

    O remédio para o pequeno entrave veio pela mão da mucama de Isabel – nome conferido aos negros que ocupavam-se das tarefas domésticas e criação do rebento dos senhores-, que propôs uma solução engenhosa: desfiar o frango sobre uma massa moldada manualmente para parecer-se com uma coxa de galinha, posteriormente empanada e frita para conservação e realce do sabor.

    A coxinha de galinha logo conquistou a família real e seus convivas de estirpe, que juravam tratar-se do mais novo quitute da pastisserie parisiense. E a receita ganhou o país, como já sabemos e não é novidade.

    Para o observador atento, a história não chama atenção por ser lúdica, ou curiosa, nem pela engenhosidade da cozinheira, mas pelo completo menosprezo e esquecimento a quem, nutrindo com carinho e zelo uma criança deficiente, com a qual nenhum laço de sangue possuía, empreendeu um estrondoso sucesso culinário, sem qualquer participação (ainda que sob a forma de menção honrosa) sobre os dividendos do negócio que viria a originar.

    Foram assim tratados os negros no Brasil; e depois as primeiras levas de italianos imigrantes (escravos brancos); porque a elite brasileira sempre foi tosca intelectualmente, pedante e provinciana.

    Ninguém ousa dizer qual seria o nome daquela mucama que inventou a coxinha de galinha. Mas se você avivar a imaginação, conseguirá vislumbrar uma redonda senhora negra de pano enrolado na cabeça, sorrindo e fritando coxinhas num qualquer fogão de lenha.

    • Orquidéia
      23/11/2017 at 07:46

      °° snif …

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