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27/05/2017

As regras do “meu corpo minhas regras”


“Meu corpo minhas regras” é uma expressão  das ativistas do feminismo atual. “Minhas regras” pode significar normas de conduta que desejo ver seguidas por quem me aborda corporalmente. “Minhas regras” pode significar simplesmente minhas menstruações. O termo é propositalmente ambíguo.

Sua ambiguidade tem a ver com os objetivos do feminismo atual: por um lato, há a luta de mulher contra a manipulação física de outros, a violência de todo tipo, por outro lado, há o desejo dela própria de comandar suas menstruações, o que inclui ser completamente senhora de sua concepções e contracepções. Dizendo de outra maneira: do combate ao assédio sexual e estupro até o direito de aborto estão no interior de “meu corpo minhas regras”.

Assim, “meu corpo minhas regras” é mais aceito por todos quando visa dar um basta à violência mulher, e assim o assédio sexual é posto na berlinda. Mas quando se trata da legalização do aborto, aí muitos podem achar – como acham mesmo – que se está pedindo para liberar a violência contra outro que não é a mulher, que é mais fraco que ela. Nessa hora, é mais difícil para a mulher feminista convencer outros que o feto é um tipo de pedaço do estômago, que tiramos nas cirurgias contra obesidade, ou um rim que tiramos para doar. Em nossa sociedade, não posso arrancar meus órgãos a meu bel prazer. Então, “meu corpo minhas regras” se depara com uma negativa que mostra a quem usa esse slogan que da tatuagem até o uso do salto alto, o corpo da mulher é tão regrado socialmente quanto o do homem que usa gravata e que, enfim, não pode ir trabalhar de camiseta em um escritório em dias de calor (ao contrário da mulher que não só pode como é incentivada a fazê-lo).

As mulheres feministas possuem mais dificuldade que outros para entender a não-legitimidade em geral do “meu corpo minhas regras”. Isso porque a mulher é tardiamente recebida na sociedade enquanto um lugar de regras preestabelecidas. Uma vez restrita ao lar, ela obedece a regras que imagina serem as dela, e que de certo modo são mesmo. Uma dona de casa impõe regras. Há regras para o marido, para os filhos e para o cachorro. Todas postas pela mulher, ainda que, é certo, sejam regras aprendidas por ela, desde pequena, por conta de como a sua sociedade funciona. Mas que a mulher é a rainha do lar, isso é inegável. Até mesmo quando é ofendida, ainda assim, as coisas se fazem dentro de regras que são as dela (não estou querendo dizer que a culpa da agressão é da vítima). Ora, quando a mulher rompe com essa reclusão e saí de seus domínios para dirigir seu carro, frequentar banheiros públicos, trabalhar, divertir-se e, enfim, se comportar como o homem sempre se comportou, é claro que ela tudo estranha. Se saímos do plano individual de cada mulher e tomamos uma visão mais ampla, histórica, é fácil ver que esse movimento da mulher para fora da caverna não tem sido fácil. Não tem sido simples para a mulher se socializar. Ela chegou tarde no espaço público, que é tipicamente masculino, e vem demorando para entender que nesse espaço, o da “sociedade”, há regras que não são as do lar, há regras que estão acima da sua individualidade, querer e concordância. A adaptação tem sido mais rápida nos últimos anos, mas ainda não acabou, é claro.

Banheiros públicos frequentados por mulheres requerem limpeza mais intensiva que homens. Ela o deixa mais sujo que os homem. E dirigir automóvel, embora a mulher tenha se tornado mais prudente que os homens, ainda é um problema. Ela é a que mais buzina e ousa tratar o trânsito como se ele tivesse de obedece-la. Esses dados mostram a não imediata adaptação da mulher à sociedade. “Meu corpo minhas regras” é um slogan que faz parte dessa mentalidade ainda não adaptada de todo ao convívio social. Para a mulher o convívio social pode ser vencido ou por obediência cega ou por gritos um tanto infantis, como os gritos de uma dona de casa contra filhos e gatos. Não se pode esperar mais da mulher, se levarmos em conta que é muito recente sua possibilidade de adentrar a sociedade como indivíduo humano quase em condições masculinas, quase em condição de ser gente e cidadã.

Pode-se dizer que homem sabe seguir regras porque elas lhe são favoráveis. São regras gerais para todos, mas feitas pelo elemento masculino. “Meu corpo minhas regras” falado pelo homem não difere de “todos os corpos sob a regra”. É necessário então redefinir regras de modo a mudar a noção de “toda a gente”. Mas essa constatação nada altera no diagnóstico de que “meu corpo minhas regras”, dito pela mulher, ainda faz parte de uma não-percepção a respeito da vida social. Trata-se, na verdade, ainda de um gemido de não-entendimento a respeito de como ninguém em sociedade pode dizer “meu corpo minhas regras”, e isso simplesmente porque cada corpo está em sociedade tanto quanto nossas expressões linguísticas, ainda que, para alguns, exista a linguagem como que ligadas a fantasmas, pessoas sem corpos.

Uma sociedade regra corpos, claro. Põe neles espartilhos e cintos de segurança, inventa sutiãs, tinta de cabelo, batom e chega mesmo a ordenar transfusão de sangue e parto por cesária se necessário. Um sociedade põe cadeira em salas, e estas nem sempre são confortáveis para todos. Japoneses fazem reunião sem se sentar, para forçar a objetividade. Há praias de nudismo e há praias de semi-nudismo. Há possibilidade de doação de órgãos após a morte, mas, em nossa sociedade, só com o consentimento da família etc. Recuso-me a usar de categorias como “narcisismo” para falar do uso de “meu corpo minhas regras” pelas feministas.  Não creio muito na utilidade dessa expressão. Penso que basta lembrar, para entendermos o uso dessa frase, que a saída da mulher da caverna é um percurso longo. O uso dessa frase, que é um erro, faz parte desse percurso. Logo as mulheres entenderão que a frase foi péssima e que, mesmo péssima, mexeu com alguma coisa, talvez para melhor.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 11/03/2017

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11 Responses “As regras do “meu corpo minhas regras””

  1. 01/04/2017 at 04:24

    “Meu corpo, minhas regras”. Creio eu, não há frase mais egoísta do que esta. Interessante você analisar do vies à adaptação da mulher a vida pública e da confusão desta de se comportar publicamente da mesma forma que no âmbito particular. Pergunto: sobre este ponto, nas atuais gerações, onde a mulher já nasce vendo suas mães atuantes no público, podemos considerar este problema já resolvido? Normalmente entendo eu, a frase deveria dar base como forma de justificar o aborto, mas não justifica. Minha solução é bem mais simples, não engravide.

  2. luciano lima
    22/03/2017 at 14:53

    Quando escuto a frase título desse artigo como lema para legitimar o aborto, minha mente se volta para o Jihadista… Se, para os defensores do aborto, o lema vale para justificar o assassinato de um inocente em favor de uma causa, porque não teria a mesma conotação para o outro grupo, que acredita defender uma causa muito mais nobre, e dão SUA própria vida por ela?! Ambos defendem o direito sobre seus corpos, ambos retiram a vida de inocentes no exercício de suas regras! Ambos clamam: “Meu corpo minhas regras”, mas e sobre o corpo do inocente? Já ouviu o relato de um sobrevivente do aborto: https://www.youtube.com/watch?v=Uku6G1TaosI

    • 22/03/2017 at 16:36

      Luciano é preciso cuidado. Muitas mulheres morrem abortando. Não é só com educação que se resolve isso, é também com leis. Mas, no momento, também temos outras saídas, como a adoção. É preciso abrir portas na conversação, e tratar o assunto com menos paixão irracional.

    • luciano lima
      23/03/2017 at 15:09

      Aprecio a iniciativa da entrega para adoção… Um debate honesto e preocupado com a saúde e bem estar da mulher e da criança, sem interesses financeiros por ONG’s sanguesugas, seria relevante e necessário.

  3. B.F.S
    11/03/2017 at 16:07

    Favor disponibilizar dados estatísticos que comprovem as alegações de que banheiros femininos são mais sujos, mulheres buzinam mais e desrespeitam mais o trânsito. Para mim, o que você escreve acima não passa “de senso comum” enviesado pelo machismo.
    Faz parecer que as mulheres não estavam sujeitas às regras sociais antes do movimento feminista.
    Regras de comportamento feminino e masculino em sociedade sempre existiram ou você acha que as regras de que as mulheres na época vitoriana não podiam mostrar os tornozelos em público foram inventadas por elas enquanto organizavam as roupas do marido?
    Sim, “meu corpo minhas regras” é amplo, pois precisa abarcar meu direito de não ser apalpada por homens no meio da rua até questões mais controversas.
    Diversas “regras sobre corpos” que você cita não são regras. Posso optar passar batom ou não, ir à praia de nudismo ou não, doar órgãos ou não.
    A frase que você tanto critica tem o objetivo de aumentar o poder das mulheres sobre seus corpos ou será que só os homens têm esse direito?

    • 11/03/2017 at 18:08

      Beatriz eu escrevo para homens e mulheres inteligentes. Leia o texto mais vezes. Acho que pode ser que, com mais vezes, consiga entender. Tente.

  4. Daniela
    11/03/2017 at 15:43

    Uma paráfrase do texto?

    O homem é um animal político
    A mulher não é homem
    Logo, a mulher não é um animal político

  5. Gay Enrustido
    11/03/2017 at 13:40

    Olha, quando vc dizia que Karnal era apenas um midiático, não acreditava em voce

    Agora Karnal mostrou pra que veio: quer grana

    A foto com Moro prova qual o próximo filão que ele irá explorar

    Surigo vc fazer uns textos sobre a foto com Moro que causou rebuliço na esquerda e sobre oq vc falava de filósofos pitaqueiros

    • 11/03/2017 at 14:32

      Moro é bom juiz. O outro, o palestrante, é fraco, faz auto-ajuda. Não há o que escrever sobre. Quando escrevo, tomo os personagens como exemplo. No caso, não há nada o que dizer.

    • LMC
      13/03/2017 at 11:48

      Então tem gente que ficou nervosinha
      porque Karnal se encontrou com o
      Moro?Todos reconhecem o Moro,
      menos o Lulla,claro.

  6. Ferdnand
    11/03/2017 at 11:32

    Belo texto, professor.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo