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20/07/2018

Oprah versus Deneuve ou o novo contrato sexual


[Artigo indicado para o público em geral]

A disputa Oprah versus Deneuve tinha que ocorrer. É uma acomodação necessária diante de um terremoto que começou nos anos sessenta, e que só agora realmente mostra seus resultados. Começamos lá a rasgar o antigo contrato sexual forjado no pós-Guerra, mas só agora estamos sentindo necessidade de estabelecer na mesa de negociações o que podemos fazer na cama e preâmbulos.Trata-se de construir novos conceitos a respeito do que fazemos uns com os outros no campo das investidas sexuais. Isso porque nossa sensibilidade quanto a tais relações é realmente nova, principalmente no plano urbano ocidental.

À primeira vista Oprah representa a denúncia dos assédios, enquanto que Deneuve assina manifesto sobre o direito dos homens de relativamente importunar as mulheres.

Na verdade, não há quem esteja errado nas manifestações de Oprah e de Deneuve. Ambas estão corretas. No frigir do ovos, ambos os manifestos se indispõe contra os mesmos inimigos. O manifesto assinado por Deneuve e outras acha que são os conservadores, os religiosos, que deveriam ser os alvos das críticas das mulheres. Toda e qualquer restrição de liberdade não é bem vinda. O texto de Oprah, por sua vez, se põe contra o assédio sexual. Ora bolas, sabemos muito bem que os conservadores, e religiosos, são os primeiros da fila entre os que se tornam inconvenientes com mulheres. No fundo, não é só Oprah que se põe contra o machismo, mas também Deneuve. Só em aparência há discordância.

É claro que Oprah faz denúncia conta assédio enquanto que Deneuve teme que denúncia demais no conduza a todos a uma sociedade pré-anos sessenta, e nesse caso, novamente, só a mulher perderia. Em nome de proteger a mulher sobra conservadores querendo enjaulá-las e tratá-las como bibelôs. Afinal, conservadores protetores de mulheres não raro espancam prostitutas ou mulheres de etnias diferentes das etnias hegemônicas, e só espancam suas esposas quando “elas merecem” – é o que dizem a quatro paredes. Às vezes até abertamente.

Nas relações entre homens e mulheres, nunca podemos deixar de lembrar que o lado realmente mais fraco, em qualquer situação, é do a mulher. Não só porque há preconceito contra o que é o feminino em geral, mas também porque a relação com a gestação é sempre um peso maior para a mulher. Isso sem contar que em termos de igualdade no trabalho e nos salários estamos longe de um índice que poderia ser tido como bom.

A mídia pode achar interessante colocar a denúncia do “denuncismo”, do manifesto assinado por Deneuve, como algo interessante para fazer frente ao combate ao assédio vindo de Oprah e colegas. Claro, a mídia faz do noticiário, hoje em dia, algo do show e do entretenimento, e a questão da informação é secundária, a questão da reflexão, então, terciária. Mas a filosofia social e a sociologia não tem de acompanhar a mídia. Para nós, filósofos, o que está se construindo agora é um novo patamar do “politicamente correto” ou da “missão civilizatória do capital” (Marx): estamos acertando os termos de num novo pacto sexual. A regra básica a ser buscada, para todos – e nisso temos consenso -, é a de deixar o melodramático apenas para os filmes de Almodóvar. As pessoas querem viver de maneira mais leve, segundo uma moral do prazer e não de dever. Disney venceu Kant, finalmente. Se isso dará certo ou não, não sei, mas que é o objetivo de nossos tempos, isso fica evidente nos pedidos de Deneuve e Oprah.

Não há nada de repressivo e carola em Oprah, nem há libertinismo babaca em Deneuve. É preciso saber olhar as construções de ambos os manifestos, seus lugares, seus continentes, suas direções. É necessário ver as convergências das mulheres nesse novo pacto sexual que está nascendo. Nele, os perdedores dos dois lados serão os conservadores.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Foto: Catherine Deneuve e Oprah Winfrey

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6 Responses “Oprah versus Deneuve ou o novo contrato sexual”

  1. LMC
    10/01/2018 at 11:15

    Esse negócio de “a mídia é isso,
    a mídia é aquilo” é velha,hein,PG?
    Lula,Jânio e Bolsonaro que o digam.

    No caso dos assédios sexuais
    nos EUA,tem muito puritanismo
    crente no meio dessa história.
    Sou mais o Pepe Le Gambá,
    aquele desenho que você
    postou no teu Facebook.

    • 10/01/2018 at 13:56

      LMC a mídia é “isso e aquilo” se o “isso e o aquilo” forem certos. Há conceituações válidas meu filhão. Sobre “puritanismo crente”, se você fosse uma negra americana você agradeceria o puritanismo crente que pode lhe dar a dignidade diante do assédio.

    • LMC
      10/01/2018 at 14:37

      O puritanismo crente que estou
      falando é daquele tipo que o Olavo
      de Carvalho e seus capangas
      defendem no site porco que ele tem.
      Isso sem falar naquele Facebook
      humorístico,as Feministas
      pró-Bolsonaro.kkkkkkk

    • 10/01/2018 at 15:06

      LMC aquilo não é puritanismo, os “puritanos americanos” nunca foram débeis mentais. A família Bush não pode ser confundida com o Trump.

  2. Augusto P. Bandeira
    10/01/2018 at 11:01

    Curioso que, na última sexta-feira, havia um cartaz com a mais nova capa da revista Veja com o ttítulo “O novo código de conduta entre os sexos”.

    • LMC
      10/01/2018 at 14:43

      A direita americana é muito cara
      de pau,Augusto.Inventou aquele
      caso do Clinton com a Monica
      Lewinsky pra desgastar ele e
      ajudar a eleger aquele tal de W.Bush.
      Sabe aquela coisa de “linchar tarados”?
      É isso.

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