Go to ...

on YouTubeRSS Feed

20/11/2017

O que diz e o que não diz Judith Butler


Texto indicado preferencialmente para o público acadêmico

Judith Butler é da minha geração. Ela é de 1956 e eu sou de 1957. Nossas leituras em filosofia não diferem muito. Hegel está na base. Ela encontrou a postura light em Derrida, e eu em Rorty. Ela está nos quadros de uma filosofia da não-violência, eu ainda continuo um acadêmico, publiquei recentemente livro sobre Sloterdijk. Sua filosofia é fundamentalmente não dogmática, sem cultivo da Verdade. É uma filosofia da pergunta. Por tudo isso, não posso deixar de ter afinidades com a americana. Dentro das leituras ditas “feministas”, sem dúvida ela é a que pode realmente oxigenar tudo. Se as coisas nessa área não estão melhores, não é por culpa dela.

Judith Butler enfrentou o que me contraria no feminismo, que é o espírito de censura, a capacidade de ditar regras autoritárias e a luta exageradamente apaixonada sem perguntas, sempre na imitação do que já fez o velho movimento operário. Três pontos que gosto no seu trabalho: na sua entrada em cena, com a problematização da categoria “mulheres”, ao rediscutir gênero. Depois, sua não concordância com as feministas anti-pornografia. Finalmente, com sua capacidade eclética de trazer para a conversa Foucault e Freud, Althusser e Derrida e assim por diante. Butler é um respiradouro que contrasta em muito com os grupos de esquerda que a defendem, principalmente no Brasil. Estou para dizer que seus defensores públicos, aqui, pela esquerda, não a leram, e que a direita não a leu por outras razões, isto é, por não ser composta de muita gente que sabe ler.

Até entre os de esquerda, e inclusive alguns que vivem pela França dando palestras, vi gente que a faz aliada de operações de troca de sexo. Mas Butler nunca se colocou decisivamente ou taxativamente nesse diapasão – seus livros fazem uma crítica ao “construcionismo” como alguma coisa que substituiria o biologismo, na manutenção de dizer certezas por conta de saber já de antemão o destino de cada um. Vi também pessoas acharem que ela fala de desejo como quem fala de desejo sexual em sentido estrito. Ora, Butler continua hegeliana, e o modo como fala de desejo é o de “desejo de reconhecimento”, como este se manifesta nas páginas que antecedem a “dialética do senhor e do escravo” na Fenomenologia do Espírito.

É mais fácil ver Butler, em termos de sexo, acompanhando o didático Caligaris: desejo sexual tem a ver com imaginação, não com determinismos culturais e biológicos. Não sei se Butler leu Sloterdijk. Mas deveria. A noção de Sloterdijk de “antropotécnicas” combina muito com o que ela pensa sobre “gênero”. Ela vê gênero como o que é da ordem da performatividade corporal e linguística, e isso é em grande parte o que Sloterdijk fala sobre como encontrar o humano: onde se quer achar o homem, encontram-se acrobatas. Sim, o processo ascético, de fazer amanhã, pelo treino, algo que é o mesmo e no entanto mais aperfeiçoado do que o que se fez hoje, é exatamente a base das antropotécnicas, e a base da maneira como ocorre o humano que se “generiza”. No passado, diria que Butler se adaptaria bem à sugestão de Rorty, de ver as coisas pelo pragmatismo linguístico. Hoje, depois de conhecer Sloterdijk, e de notar melhor os livros de Butler, penso que são as antropotécnicas e as práticas corporais que se afinam para a sua teorização de algo da sua contribuição à “Queer Theory”. Butler está tão desinteressada em saber se seu lesbianismo pessoal é cultural ou biológico quanto Sloterdijk está desinteressado em saber se algo ainda cabe nessas caixinhas. Antropotécnica é exatamente uma formulação para pensarmos o humano como não podendo mais ser visto a partir desses prismas, nem mesmo gênero ou sexo e, enfim, menos ainda, claro, desejo sexual.

Essa liberdade de destino assusta a direita e a esquerda. Talvez por isso mesmo Sloterdijk sofra resistência nos departamentos de filosofia, sempre muito teológicos (como aconteceu com Rorty). Talvez por isso Butler seja só atacada e defendida na direita e na esquerda, mas não lida, pois também esses movimentos políticos são religiosos, no sentido ruim dessa expressão.

No momento atual, Butler está falando a partir da “vida precária”, onde discute termos de imperativos éticos a partir de Levinas, principalmente segundo a noção deste de “rosto” (veja o texto dela aqui em adendo abaixo). Ela está diretamente tentando formular perguntas dentro do tema que está construindo, uma  “ética judaica de não violência”. A maneira como Butler se apropria da teorização sobre o rosto, na obra de Levinas, é também não doutrinária, não dogmática. Seu texto faz um enfileiramento de perguntas. Ela lembra que o “rosto”, em Levinas, não capta o humano. Isto é, capta, mas também deixa de fora várias captações. Com isso, Butler quer discutir os limites da representação. O quanto se pode, com imagens, trazer ou não o “rosto” como alguma coisa que nos mostra o humano ou o esconde. Um exemplo didático, aqui, se faz necessário, por conta das funções deste texto.

O que Butler lembra sobre os rostos, é que se pode mostrar mulheres afegãs sem o véu no rosto, parecendo ter prazer, por conta de fotos de vitórias e libertações americanas no Afeganistão. Mas estariam aqueles rostos mostrando rostos? Não estariam, daquela forma, sendo os rostos que escondem o sofrimento daqueles e outros rostos antes pela guerra que pelo véu? Essa inapreensibilidade da representação é a problemática atual de Butler, na busca de uma ética de consideração do Outro. Mas, quem foi na palestra de Butler, para louvar o gritar contra, estava mesmo interessado nisso? Ou foi um evento de convescote, para deliciar grupos políticos que festejam labirintites internas de um Brasil inculto?

Essa pergunta não deve ser excluída, mas ela precisa ser pensada, para honrar Butler, exatamente a partir do texto “vida precária” de Butler. Pois a pergunta é se nossas imagens de rostos a favor dela ou contra ela dizem mesmo alguma coisa que valha a pena considerarmos, ou se só estamos nos deixando tomar rostos que não dizem nada do rosto humano? Estamos, talvez, nos deixando enredar pela profusão de imagens, e acreditando que o rosto pode mostrar o humano no que ele é. Se pensarmos isso, assim, estamos fora da sugestão de Butler.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. São Paulo, 11/11/2017

Texto “Vida precária”, de 2011 (traduzido), de Judith Butler

Foto acima: protesto contra Butler no Brasil, 2017

Tags: , , ,

3 Responses “O que diz e o que não diz Judith Butler”

  1. Francis Lousda
    17/11/2017 at 11:12

    Interessante posição, nem biologismo, nem determinismo cultura! Sinta, imagine…

  2. Jéssyca
    11/11/2017 at 21:24

    Excelente texto! Que tal realizar um curso online sobre ela?

  3. Márcio
    11/11/2017 at 20:21

    “Mas, quem foi na palestra de Butler, para louvar “OU” gritar contra, estava mesmo”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *