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16/12/2018

O #elenão é um movimento radical


[Artigo para o público em geral]

Pode parecer estranho que um movimento que pede amor e respeito às mulheres, e que denuncie o fascismo de Jair Bolsonaro (estampado em tantas entrevistas e vídeos dele), possa ser considerado por mim, filósofo, um movimento radical. Mas é. O radical vai às raízes dos problemas, e o movimento #elenão aponta, dentro dos limites de um “movimento de rua” presencial e virtual, para uma das mais importantes questões dos nossos tempos: ou as mulheres podem ser protagonistas da nossa história ou não há mais como falar em civilização.

O conceito de civilização, tomado como uma noção que se opõe ao que é o bárbaro e, nesse sentido, não civilizado, não pode mais conviver com a ideia de que metade do planeta seja de segunda categoria. Concordamos que os pobres não possam ser de segunda categoria em 1789 na Revolução Francesa e em 1776 na Revolução Americana. Concordamos, aqui no Brasil, em 1889, que não podíamos ter civilização na convivência com a escravidão negra. Temos dito aos quatro cantos que civilização e trabalho infantil não combinam. Mas, na prática, apesar de todo o feminismo e seu bom e necessário trabalho, temos de notar que o fascismo de um Bolsonaro pode chamar as mulheres para ficarem como um gênero desqualificado. Há mulheres que o apoiam, faz-se necessário despertar nelas a centelha da revolta.

Bolsonaro pode empurrar e xingar mulheres. Bolsonaro pode ridicularizar mulheres. Bolsonaro e seus filhos são conhecidos por tomarem a mulher como um ser  inferior. A fala dele de que sua filha é resultado de fraquejada é, sem dúvida, simplória, mas diz tudo a respeito do que ele realmente pensa. A posição dele dizendo que, se for presidente, não pode fazer nada em relação ao salário das mulheres serem mais baixos que dos homens nas mesmas funções, é algo que tem apoio na mentalidade popular, mas exatamente por isso o o #elenão é radical. Pois a mentalidade popular deve mudar para que possamos entrar em uma era de civilização.

Os pobres estão aí. As crianças trabalhando estão aí. Os indígenas e negros sofrendo preconceito estão aí. A população LGBT está aí sob o ataque da homofobia. E as lideranças que lutam por essas pessoas, como o caso de Marielle, continuam sendo assassinadas. Diante de tudo isso, poderíamos perguntar, ceticamente: estamos em uma civilização? É preciso notar, sim, que todos nossos feitos formais estão mudando as poucos a realidade das minorias e dos pobres – já estivemos pior. O problema é que a mulher transpassa todas essas categorias que estão sob fogo. Nela, as desgraças no mínimo se triplicam: mulher negra, mulher pobre, mulher homossexual, mulher subalterna em salário ou simplesmente mulher. Mesmo quando se é simplesmente mulher, ainda assim, o fardo é insuportável em uma sociedade em que há alguém com apoio popular, inclusive de muitas mulheres, e que acredita piamente na inferioridade da mulher: resultado de uma fraquejada.

Algumas mulheres se enganam a respeito do seu poder de sedução e de fazer com  que os homens se dobrem. Eles “caem na real” quando recebem as primeiras agressões, as primeiras desconsiderações exatamente por serem bonitas e sedutoras. Algumas, então, percebem, finalmente, que são mulheres no sentido radical da palavra. Quantas mulheres ricas, belas e sedutoras, que diziam poder dispensar o feminismo, não tomaram seus tapas na cara e, então, perceberam que estavam erradas ao não dar valor para uma Lei Maria da Penha?

Quantas mulheres ainda perceberam que mulheres e homens que não querem a descriminalização do aborto não estão lutando “pela vida”, mas sim apenas para que o fardo da mulher não diminua, e que ela não possa adquirir sobre seu corpo os direitos que o homem tem sobre o seu corpo?

Não são poucas as mulheres que não tem poder algum e que ainda não perceberam que o fascismo adora mantê-las sem poder algum, e que isso pode se tornar mais terrível do que já é. Nesse sentido, o #elenão tem uma função radical política e pedagógica. Faz mulheres apolíticas, conservadoras, prestarem atenção nas coisas: ao verem as passeatas elas se perguntam “o que essas mulheres aí, iguais a mim, estão fazendo protestando?”. Nessa hora, uma centelha salta ao ar. As portas da civilização se abrem para o convite: entrem!

O #elenão me enche de esperanças. Agarro-me a essa tábua.

Madonna disse que iria às ruas contra Bolsonaro no âmbito do “#elenão”. Um bolsonarista postou no twitter: “ela quer quinze minutos de fama”. Sim, bolsonarista, Madona realmente deve estar precisando, né? Sim, após dizer que o nazismo é de esquerda e ser ensinado pela embaixada alemã que não é assim, o bolsonarista quer passar mais vergonha. Ele não cansa. O #elenão também é uma forma de lembrar ao bolsonarista que ele nem homem é, que está abaixo da condição humana, dado que não pensa.

Vou ser eternamente grato às mulheres por esse dia do “elenão”.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

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17 Responses “O #elenão é um movimento radical”

  1. Rodolfo Piskorski
    03/10/2018 at 19:34

    A revolução francesa foi em 1789 não em 1879.

  2. Vieira
    03/10/2018 at 10:37

    Bom dia professor, está desesperado com acensão do homem após o ele não, vcs comunistas irão amargar e pagar caro pelo que fizeram ao país!

    • 03/10/2018 at 16:34

      Nós, comunistas? ha ha ha! Vieira, seu mundinho é tão pequeno que dá dó.

  3. Fabiano
    03/10/2018 at 10:32

    Bom dia professor, está desesperado com a ascensão do homem após o ele não, vcs comunas irão amargar e pagar caro pelo que fizeram ao país!

    • 03/10/2018 at 16:34

      Fabiano, fico triste de ver que você não consegue entender o que lê. Faz o supletivo. Todo bolsonarista deve fazer.

  4. LMC
    01/10/2018 at 11:39

    Thiago,o eleitor de SP é de maioria
    conservadora.É igual aquele ex-vizinho
    malufista que o PG teve.

  5. CELIO
    30/09/2018 at 19:34

    Se é #ElaNão, será quem, professor? Esse movimento é pró-PT, já que certamente eles estarão no segundo turno. Qualquer outro conjunto é mera abstração. Eu me pergunto se o mal que o PT pode trazer – e não digo só pelo oceano de corrupção, mas pelas décadas sob um único governo – não seria pior do que qualquer atrocidade que “hipoteticamente” pode acontecer caso o Bolsonaro seja presidente. Quem vota no Bolsonaro sabe das peripécias dele, mas não há outra opção frente às pesquisas IBOPE. Uma coisa é certa, alguém será presidente…

    • 30/09/2018 at 20:20

      Célio, o fato de você se importar menos com as mulheres e mais com o PT me deixa de fora de seu time.

  6. THIAGO
    30/09/2018 at 11:07

    Momento infeliz que o país passa, em que a opção mais cotada em alternativa ao sujeito que só fala merda é um ex-ministro da educação que nada fez pela educação e um ex-prefeito de SP que foi tão “competente” que perdeu as eleições para um desqualificado igual ao Dória.

  7. Victor Lima e Silva
    29/09/2018 at 22:17

    Professor, eu sei que não é adequado fazer um pedido como esse mas, o senhor poderia fazer mais vídeos analisando as bobagens que o “filósofo” Olavo faz? Esse sujeito não mora no nosso país e está criando uma legião de mentecaptos que acreditam em contos de fadas e na Terra plana. Alguém tem que começar a desmentir todas as falácias que esse senhor propaga pelas redes sociais. Assim como o Bolsonaro, os incautos brasileiros resolveram criar um novo Mito.

    • 29/09/2018 at 23:38

      Vitor a gente de vez em quando dá um toque, mas em todo país há um tonto nazistóide assim.

  8. danilo
    29/09/2018 at 22:14

    li que alguns gays assumidos irão votar convictamente em bolssonaro, o ignaro. representam uma minoria significativa da comunidade lgbt. foi até matéria da revista época no ano passado. o que o professor pensa a respeito? seria simplista afirmar que são os chamados “idiotas úteis” da extrema-direita? li, também que, na Itália de Mussolini, alguns judeus eram fascistas… alguns da esquerda questionam como absurdo um pobre pode ser de direita. qual a opinião do senhor a respeito disso´, também?

    • 29/09/2018 at 23:39

      Não se esqueça que muitos nazistas do alto escalão de Hitler eram homossexuais.

  9. Everaldo Barboza
    29/09/2018 at 21:22

    Excelente texto Professor Paulo.
    Se me permitisse, humildemente, eu só pediria ao revisor
    substituir a expressão “discriminação do aborto” por
    “descriminalização do aborto”.

  10. LMC
    29/09/2018 at 17:52

    Madonna,Hillary,Obama…ainda
    existe esperança no mundo,PG.

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