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20/11/2017

Frota defende a “família” contra Judith Butler


Nas costas de Frota, o ator pornô, estão pessoas que se dizem intelectuais de direita. E Frota está na cruzada de defesa da família brasileira, contra o feminismo e a “ideologia de gênero”. Os gurus da direita fazem a cabeça dele, e apesar de alguns até terem diploma, sabem de feminismo e de questões de gênero nada além do que Frota sabe. Frota é o ponta de lança de uma campanha que visa expulsar do Brasil a filósofa americana Judith Butler. Os idealizadores disso colhem assinaturas na Internet, fazem ameaças ao SESC (que acolhe a filósofa) e, não raro, dão a entender que poderão fazer algo mais grave. Tudo é muito normal, quanto aos gurus que incitam Frota, mas o interessante não são estes, e sim o próprio Frota!

Por que um ator pornô, que nos filmes – e também na vida real – beija travestis na boca, diz que namorou o deputado e pastor Feliciano, tira fotos insinuadoramente homossexuais com Bolsonaro, posa vestido de noiva, faz sexo grupal com homens e travestis etc., repentinamente, sem negar tudo isso, enceta uma campanha moralistóide esdrúxula? Será que ele é tão ignorante assim que não sabe que Judith Butler defende a ideia básica de que “gênero é uma construção social e sexo não”? Afinal, essa ideia está no sentido favorável do que Frota faz! O que há nisso? Apenas estupidez de Frota?

Sim, Frota é o conservadorismo de seus gurus, mas sem qualquer coisa senão a força bruta. É tosco demais até para esses seus gurus, que fingem não ter relação com ele. Mas Frota não age apenas por estupidez, por detrás de sua nuca, um daimon torto lhe diz que ele só pode sobreviver, que sua profissão só pode ir adiante, se o mundo não seguir o rumo da liberdade que ele aparentemente têm em seus filmes pornôs e no seu comportamento desconfigurado. Se o mundo vier a se desenvolver no sentido da liberdade que está embutida nos desejos de Butler, que no limite nada é senão a ideia de que uma figura como Martha, da seleção brasileira, tem o direito de existir (meninas jogam futebol!), o mundo de sustentação de Frota acaba. Assim pensa seu daimon? Pois a figura de Frota só existiria por conta do moralismo barato dos conservadores. Afinal, seriam eles os grandes consumidores de pornografia, e de fato são eles que querem que o travesti exista no sentido atual, ou seja, de vida em gueto, são eles que querem que paire no ar “bons costumes”, para que eles possam ter algum gozo, só possível no que eles mesmos chamam de “depravação”. Eles só têm orgasmo com parceiros que eles, de público, chamam de “aberração”. Uma investigação nos computadores dos conservadores, esses que até aparecem como nossos colegas na Folha de S. Paulo, poderia muito bem mostrar os sites que frequentam. Nesse ponto, são muito parecidos com os deputados que adoram a pornografia mais chula, e que às vezes são pegos pelas câmeras indiscretas da arquitetura do parlamento.

Judith Butler está no linha de algo que já não é coisa do futuro, mas do que vivemos e somos. Ou seja, nossos desejos sexuais não se alinham facilmente com os trilhos rígidos traçados pelo quadro chamado “feminino” e “masculino”, que são gêneros construídos socialmente, e que agora estão diante de outros gêneros, também construídos socialmente. Em suma: posso ser uma pessoa  barbada e que adora fazer sexo só com mulheres e, ao mesmo tempo, posso vestir blusas que destoam da minha barba, talvez casacos vermelhos de generais ou então uma blusinha que parece carregar um sutiã. A minha imagem social, que me dá identidade formada, é claro, diante do Outro, para ser apresentada aos outros, é meu corpo, meus trejeitos, minha roupa, meus cuidados, mas isso não está amarrado, num esteriótipo, aos meus desejos sexuais – estes atuam de maneira independente, quase que obedecendo uma lei de Deus ou da “biologia”. Nunca o conto de Machado de Assis, o espelho, falou de sexo, só de gênero. Em suma, o mundo de Butler, que é o nosso mundo, é o mundo no qual Frota vive, muito mais do que nós. Só que Frota vive nele e dele sobrevive, e sua sobrevivência, ele pensa, é garantida pelo preconceito contra esse mundo, enquanto que eu e Butler vivemos nesse mundo, até menos do que Frota, mas só nos sentimentos bem se os preconceitos caírem.

As novelas da Globo têm ensinado isso para a população. Mas ao fazerem isso, nada tem mostrado senão o mundo que vivemos. Frota foi da Globo, mas não permaneceu, não conseguia decorar os textos e foi posto para fora.

Todavia, há mais a ser dito. Será que o daimon torto que fala na nuca de Frota não está, no fundo, lhe traindo? Será que ele mesmo, Frota, não percebe que, na verdade, seus filmes e seu modo de ser, quanto a aspectos sexuais e de gênero, não contribuem para o conservadorismo? Sim! Não contribuem! Aliás, é um erro das feministas mais moralistas acreditar que quem vê pornô vai ser violento com mulher ou com travesti etc. O mundo dos Conservadores, Homofóbicos & Cia parece depender de uma arte pornográfica, mas isso é uma crença de quem tem pouco entendimento da história. Não é por causa de que os conservadores violentos e preconceituosos adoram ver pornografia que a própria pornografia induz ao comportamento conservador e violento. Esse é um erro das feministas e que, no fundo, é também o que o daimon torto de Frota pensa. Ele tem medo do conservadorismo acabar porque acredita que o mundo pornô acabaria junto. Mas uma coisa não tem a ver com outra.

A civilização grega soube, por exemplo, conviver com homoerotismo educacional de mais alto respeito social, homoerotismo ligado à prostituição (muitas vezes proibido por lei) e homoerotismo tomado como elemento da comédia. Por que nós não poderíamos fazer o mesmo? Temos feito. Se Frota não fosse desescolarizado, talvez entendesse isso.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 29/10/2017.

Paulo Ghiraldelli Jr é Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

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5 Responses “Frota defende a “família” contra Judith Butler”

  1. Eduardo Henrique
    30/10/2017 at 14:07

    Grande texto. Penso que os “bolsonetes” e os fundamentalistas deveriam ler esse artigo, mas aí me lembro que eles – infelizmente – não tem capacidade para compreendê-lo.

    Pessoas conservadoras não tem muita aptidão para o pensamento e o raciocínio. Elas apenas decoram coisas retrógradas e as repetem com pouco ou nenhuma reflexão.

    É como dizia o filósofo liberal John Stuart Mill: “conservadores não são necessariamente estúpidos, mas a maioria das pessoas estúpidas são conservadoras”.

  2. Matheus
    30/10/2017 at 11:43

    Eu nunca entendi o frota desde sua primeira guinada conservadora… Poxa não era ele que se dizia pentassexual?

  3. Wilson Alves
    30/10/2017 at 10:24

    Muito bom! Parabéns Professor

  4. Marcos
    29/10/2017 at 18:02

    Fritei o cérebro agora!

    Seria um espelho, tipo Alice no país das maravilhas?

    Inacreditável!

    Risos…….

  5. Leonardo
    29/10/2017 at 13:32

    Eu gostei do texto. Coloca-se na perspectiva do próprio Frota, para assim tentar entender suas posições e atitudes.

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