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17/12/2018

“FREIXO é frouxo” ou “Antônia não sabe amar”? Qual o nome da música?


[Artigo indicado para o público em geral]

Sou conhecido no meu bairro como “pai do Pitoko”. Fico orgulhoso quando sou reconhecido como “marido da Fran”. Se alguém fala que sou “pai do Paulo Francisco ou da Paula”, isso enche meu peito. A Fran adora falar de mim. Ela não fica diminuída por ser reconhecida como minha esposa. Essa reciprocidade entre todos nós, na família, nos coloca em situação bastante confortável. Inclusive por razões óbvias: funcionamos de fato como uma máquina colaborativa. Quando estou empregado, a Fran está desempregada, quando ela se emprega, não raro fico sem emprego. Assim tocamos a vida. Somos um casal que joga frescobol, não tênis.

Acho que foi por conta disso que fiquei espantado ao notar que a moça Antônia Pellegrino escreveu magoada que um jornal a havia “reduzido” a namorada do Freixo (ela fez uma crítica meio sem noção do filme do Padilha). Sim, ela disse “reduzida”. Ora, era caso do Freixo chegar para ela e dizer: “pô, querida, ‘reduzida’ é foda né?”. Ela se sente reduzida por ser tratada como namorada do Freixo? Então, por que namora o Freixo? É incrível essa capacidade de querer se sobressair ofendendo o namorado. Triste isso.

Mas o Freixo tomou a questão como sendo algo do âmbito do feminismo, e fez o que não deveria fazer. Foi para a rede social e se colocou como “namorado da Antônia”. E pior: falou que ela era dona de um currículo invejável. Putz! Errado. Elogio errado, afinal, deu razão para o jornal: ele precisou realmente falar do currículo dela, pois era desconhecido. Ele deferia ter ficado quieto. Ele deveria ter conversado com ela, em particular, e dito o seguinte: “não faça feminismo em cima do nosso amor, da nossa relação”. Pois ela tinha que entender a coisa do amor e não cair numa armadilha linguística. Mas ela não entendeu. Ela realmente é magoada na condição de mulher, e assim reagiu. Coisa chata. No limite, até anti-feminista. Não vi a moça que namora a Marielle ficar magoada por ser tratada como “companheira de Marielle” pela imprensa. Ou seja, é uma pessoa segura, orgulhosa da parceria amorosa, orgulhosa por estar de casamento marcado. Reação correta.

Defender minorias e posturas que exigem reconhecimento de identidade é algo de nossos tempos. Nossos tempos, nesse sentido, são antes hegelianos que marxistas. Mas quando a inserção de pessoas nas caixas minoritárias as tornam mais magoadas do que poderiam ser, tudo se estraga. Duvido que esse namoro do Freixo com Antônia vá durar depois disso. Mostrou-se um enlace antes político que amoroso. Talvez a esquerda, que tanto quis ensinar a fazer amor nos anos 60, tenha perdido a mão. Talvez a esquerda saiba só amar a humanidade, mas não a xoxota e o pênis, não o homem e a mulher com quem se vai para a cama. Talvez a direita seja mesmo um poço de estupidez que serve de espelho para a esquerda.

Que os casais aprendam essa lição: se você se irrita em ser chamado pela relação com o seu parceiro, mude de parceiro, você não o ama. Não insista, siga meu conselho. Não adote o modelo Freixo-Pellegrino, não é modelo de amor, é só a desgraça interna da política de minorias que, nesse aspecto, não serve para minoria nenhuma.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

PS: esse texto é profundamente feminista. O leitor inteligente saberá disso.

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3 Responses ““FREIXO é frouxo” ou “Antônia não sabe amar”? Qual o nome da música?”

  1. Augusto P. Bandeira
    02/04/2018 at 18:00

    Impressionante professor!

    Nunca havia pensado nisso a fundo. Por exemplo, meus pais não se incomodam em ser conhecidos como “marido da fulana” ou “esposa do beltrano”.

    Mas isso me lembrou, quase que imediatamente, da entrevista que a viúva de Saramago concedeu a Pedro Bial em seu programa. Nessa entrevista, o Bial ficou cheio de dedos com a senhora, tentando evitar chamá-la de “viúva”!
    Agora, em rápida pesquisa, vi que ela adotou postura semelhante em entrevista à Marie Claire:

    https://revistamarieclaire.globo.com/Cultura/noticia/2017/09/pilar-del-rio-nunca-fui-esposa-de-jose-saramago-muito-menos-seria-viuva-de-e-uma-palavra-horripilante.html

  2. João Bosco Renna
    02/04/2018 at 15:30

    Essa expressão minha namorada não expressa por exemplo uma relação de Posse porque a mulher também diz meu namorado você não pode ser ao mesmo tempo Senhor e servo é um recurso linguístico que mostra nexo entre você e a pessoa mostra vínculo

    • 02/04/2018 at 15:35

      Isso é um dado, mas o problema dela foi outro: ela desfiou o currículo dela!

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