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23/10/2017

O que é “Bicho”, de Lygia Clark?


Existe o “dentro” e o “fora”?

Sabemos que no mundo ocidental essa pergunta não era importante com os gregos, mas que recebeu atenção quando Santo Agostinho inventou a interioridade. Com o filósofo-bispo Deus passou para dentro do homem, por meio de leis incrustadas no coração humano. Séculos depois, Rousseau deu ainda mais importância – como ponto de apoio da verdade – a interioridade do “coração sincero”. Hoje em dia, estamos acostumadíssimos a falar em “dentro” e “fora”, e para nós existe até mesmo algo chamado “subjetividade”, herança do que os gregos viam como substrato, hypokeimenon, mas que agora, como sujeito que apresenta sua subjetividade, traz o “interior”, o âmbito praticamente psicológico, a alma humana.

Mas se estamos acostumados a um tal vocabulário, isso não significa que a filosofia o tenha aceito. Pascal, Hume, Machado de Assis e Nietzsche, só para falar de alguns grandes autores, criaram grandes dúvidas sobre o “império” do interior, e com isso deram margem, inclusive, para se pensar o quanto uma tal divisão interior-exterior não estaria nos dando mais ideologia que filosofia. Com olhares de filósofo e não como crítico de arte, atribuo ao trabalho de Lygia Clark nos anos sessenta um pertencimento a essa “crítica do interior” e uma rebeldia contra essa divisão que, enfim, sustentou toda a metafísica medieval e moderna. A obra de Lygia que mais impacta nesse sentido é Bicho (veja o vídeo aqui). Trata-se de uma peça que não é para ser observada somente, mas manipulada por quem a encontra numa exposição de arte. Ela não pode ser posta de inúmeras maneiras se desdobrando sem que aquele a manipula diga, indignado: “onde está a dobra, cadê a dobra para abrir o interior e o exterior”. É o bicho!

A pergunta que o artista Wagner Schwartz incitou no MAM, com a sua arte performática, foi genuinamente filosófica. Cada pessoa ali presente o manipulou, como manipularia “o bicho”, aliás, também ali presente. Assim, ocorreu a releitura da obra de Clark. Mas o paradoxo aí contido foi a novidade da releitura: por mais que o artista esteja ali, passando ele a ser a peça de arte, Wagner continua exibindo um corpo humano, plenamente nu (vestido, ele reintroduziria o dentro e fora de pronto, e anularia a obra e sua intenção), caracteristicamente como aquilo que, desde Agostinho, tem “dentro” e “fora” mais que físico, mas metafísico. O esforço dos que o manipularam poderiam fazê-lo negar essa metafísica? Não estaria o homem, com o seu corpo, incapaz de ser negado como o que tem dentro e fora? Não seria o homem já sempre predisposto, pela sua aparência, a alimentar a dualidade interior-exterior do campo metafísico? A cada apresentação dessa performance fica essa aporia: a metafísica da interioridade pode ser negada pelo homem? A arte estaria falhando onde a própria filosofia não se entende?

Nesse sentido, a obra de Clark e a releitura feita no MAM nada tem de erótica. Nadinha! Ela não visa erotizar, de modo algum. O artista sabe disso, por isso é um artista profissional. O público sabe disso. Por isso mesmo a performance é destinada a todas as idades. O corpo que está ali é para ser lido como peça de negação da metafísica moderna. E assim é lida. É claro que algum deseducado poderia aparecer ali no MAM e ver apenas um homem nu e, então, do mesmo modo que faz no ônibus, vir a ejacular por ali. Há garotos metidos em protestos políticos que fazem isso, são desequilibrados. Mas por isso mesmo o MAM não fez uma performance aberta, e sim uma só para convidados. Homens, mulheres e pais que quiseram levar seus filhos para ver uma “autêntica Lygia Clark”, e que sabidamente, pelo Museu, tiveram escolarização suficiente para a apreciação artística, foram os convidados. E deu certo. Os que não eram para ir reclamaram de fora. Não poderiam mesmo entrar, não tinham educação para tal. Protestaram de fora!

O mundo da arte pertence a uma elite. O mundo da arte raramente é erótico. A arte erótica é outra coisa, e às vezes nem consegue se colocar como arte. Mas, insisto, só escolarizados, bem escolarizados, podem adentrar nesse mundo da arte. O resto vai, no máximo, ficar com Romero Brito na sala.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 01/10/2017

A erotização de O Bicho e os xingamentos que vieram a pousar por aqui serão vistas como normais, pois a desescolarização campeia no Brasil atual.

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4 Responses “O que é “Bicho”, de Lygia Clark?”

  1. Paulo R.
    06/10/2017 at 10:19

    Muito esclarecedor o vídeo, sobretudo acerca do significado da obra. Gostaria, entretanto, de saber se a leitura sobre a obra, apresentada no vídeo, diz respeito tão somente a uma visão sua, Ghiraldelli, isto é, se é uma interpretação que você concebeu e julgou adequada à obra ou se a própria Clark ou o Schawartz é quem forneceu esse significado. Sei que o Sr. respondeu isso no final do vídeo, mas gostaria que colocasse por escrito. Meu questionamento central, porém, estando longe de ter sido respondido no vídeo, consiste no seguinte: aquilo (um objeto, por exemplo) que é concebido sem conter um significado ou contendo uma rasa reflexão ,por mais que cause em um expectador brilhantes ideias, deve ser considerado arte?

    • 06/10/2017 at 10:56

      Paulo R., aí vai, sucintamente.
      O que é considerado arte não é mais um pergunta posta pela filosofia e, sim, pela própria arte. Aprendemos isso com a história da arte, quando Duchamp colocou o urinou no museu e depois veio Warrol etc etc etc. Os artistas roubaram a pergunta “o que é arte?” dos filósofos. A partir daí, como Danto disse, chegamos ao “fim da história da arte”. Expliquei isso em meus livros e no blog aqui. Sobre a minha visão exposta, é claro que é minha visão exposta, só minha. Não é a visão de crítico de arte, mas de filósofo. Eu coloquei em palavras o que muitos, sem formação filosófica, mas não desescolarizados, também sentiram e expuseram isso em 1960, através de outras vocabulários. Agora, infelizmente por conta da ignorância dos que estavam fora do museu, essa conversa foi abafada pela conversa da pedofilia ou de “esquerda versus direita”. Estamos numa época que a desescolarização do brasileiro está pesando. As pessoas que ficaram fora do MAM nunca foram lá, e nunca irão. Infelizmente, a internet democratiza as coisas não só no sentido positivo, democratiza no sentido de deixar a patuleia ver o que a patuleia não entende.

  2. Izilda Nascimento
    03/10/2017 at 15:23

    Educação.É a grande chave, para nossa sociedade, falta de cultura, em nosso país as aulas de Arte,Filosofia, Sociologia e mesmo História, não são valorizadas como deveriam. Como fazer esse paradoxo tão complexo , a não ser vendo ali uma sena erótica.

  3. Tony Bocão
    02/10/2017 at 15:07

    Escola faz muita falta mesmo, para entendimento profundo do trabalho de Lygia Clark passei a entender (assim como Mondrian, seu guia) após bons semestres de teoria da arte. Mas não preciso ir tão fundo, um mínimo de instigação do intelecto que é próprio do ensino de base já daria o respeito necessário pelas artes. Hoje a base escolar é um incomodo para o governo, todos sabem o que fazer mas a postura é que não se deve fazer, e o pior, os ignorantes estão confortáveis em ignorância e agora perseguem exposições. Qual a próxima vítima ? acabar com as aulas de desenho clássico ? vou colocar barricadas nas minhas aulas…

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