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16/11/2018

Banksy e a “gaiola de aço” (Weber) do capitalismo


[Artigo para o público acadêmico]

Quando do fim da URSS, Richard Rorty escreveu que ele tinha ainda críticas ao capitalismo, mas que não viessem lhe perguntar o que colocar no lugar, pois ele não saberia responder. Ele não via nenhum horizonte capaz de ser anunciado de modo a conseguir uma melhor distribuição de bens, inclusive culturais, para além da forma de distribuição da sociedade de mercado. Teria Rorty abandonado uma das funções da filosofia, que é pensar sem abrir mão de utopias? Rorty refez a noção de utopia aderindo à fórmula que implicava em solicitar da sociedade futura que pudéssemos nos transformar em “versões melhores de nós mesmos”.

Recentemente, Peter Sloterdijk deu novo impulso aos meus amores filosóficos pela utopia, ao falar de uma sociedade do “dinheiro inteligente”, a sociedade do “fisco voluntário”. Ao invés da felicidade social-democrata, causadora do tédio e da acomodação, e muito além do conformismo do privatismo neoliberal, Sloterdijk defendeu uma sociedade capaz de escolher ter orgulho de manter iniciativas em função de objetivos nobres. Uma sociedade assim descarregaria suas “energias timóticas” na guarda, manutenção e criação de bens culturais e bens de serviço segundo uma ótica da generosidade, não do dinheiro. Uma economia da doação, da dádiva, teria de contar como um elemento central de quem quisesse refazer utopias.

Entre a negação de Rorty de delimitar uma utopia e o feito escorregadio de Sloterdijk, de falar de uma utopia em um sentido forte da palavra, pois de fato temos dificuldade de imaginar uma sociedade só baseada na generosidade e no orgulho de guardiões, não conseguimos uma fórmula intermediária? O que nos tem feito não conseguir mais sonhar para além dos horizontes que temos?

A dificuldade de nossa época em criar novidades reais no horizonte se deve ao fato de estarmos, pela primeira vez na história da humanidade (contando aí também a pré-história), diante de uma maneira de organizar nossas vidas que nos dá a impressão de uma capacidade inaudita de absorção. Seja como “sociedade de mercado”, “sociedade do consumo”, “sociedade de consumo de massa” ou “sociedade do espetáculo”, o nosso mundo parece não permitir que sonhemos com qualquer coisa que não seja a fusão/continuação dessas fórmulas. Por mais criativo que seja o pensamento e a tarefa humana, terminamos no ponto de partida – ou quase isso. Nada escapa à forma mercadoria e seus correlatos.

O exemplo mais recente a respeito disso é o ocorrido no leilão do quadro de Banksy, “Menina com balão”. O quadro foi arrematado por cinco milhões de reais. Batido  o martelo do leiloeiro, o quadro se autodestruiu, ao menos pela metade, diante de todos presentes. O espanto foi geral. Todos pensaram, então, que Banksy havia dado um golpe no mercado, no leiloeiro e na capitalista rica (anônima) que o arrematou. O valor se perdeu, o dinheiro se esvaiu e Banksy, inapreensível como pessoa, teria dado o recado: minha obra também é inapreensível. A obra teria imitado o autor. Nada mais subversivo! Mas ocorre que alguns segundos depois, a enhora que comprou o quadro mandou avisar que ela ficaria com o resto dele, isto é, com a gravura quase toda picotada. Afinal, após o ocorrido, o quadro real não seria mais só o de Banksy, pintado, posto na parede, mas todo o episódio – passado em todas as redes de TV do mundo – é que comporiam a obra, ou a nova obra produzida ali, ao vivo. A obra de alguém que, até então, era famosíssimo, e que pelo episódio saiu mais famoso, mais valioso e, enfim, deixando para o mercado uma obra picada mais valiosa do que quando estava intacta. Nada escapa ao mercado. Nada sai do controle da forma mercadoria.

Talvez o recado de Banksy não tenha sido “o mercado não pega minha obra, como os policiais não me pegam por eu pichar Londres”, mas sim, “eu tenho consciência que na minha liberdade esto preso”. Preso, ao menos pelos tempos, pela “época”, pelo modo como nos enredamos na vida e a organizamos. Um manifesto de Banksy, uma confissão. Algo nada diferente da confissão de Rorty, e da disposição de Sloterdijk. Se há uma utopia, não a posso colocar, nada sei fazer fora do mercado. Se há uma utopia, o máximo que faço é continuar minha generosidade: um quadro de Banksy, alguém quer tê-lo em sua sala? Ora, mas é desnecessário. Banksy é, no fundo, um pichador: suas obras estão espalhadas gratuitamente pela cidade. Fora o que Rorty e Sloterdijk disseram, nada a dizer. E isso é o que estaria dizendo Banksy?

Talvez, em certo sentido. Ou sua intenção tenha sido a de mostrar-se preso à sociedade de mercado mesmo em um ato de afirmação da liberdade, e, sendo assim, Banksy nada tenha dito (e nada querido dizer) senão isto: o máximo que posso fazer para afrontar o mercado é lembrar que todos já têm minha obra sem precisar comprá-la, pois ela está nos muros por aí afora. Todos habitantes da cidade a possuem. Um leilão é uma situação ridícula – seria esta a mensagem de Banksy? Creio que faz sentido pensar isso. Mas creio que isso ainda não é um poder pensar fora dos parâmetros postos para além da forma mercadoria.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

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23 Responses “Banksy e a “gaiola de aço” (Weber) do capitalismo”

  1. LMC
    10/11/2018 at 11:31

    Bancar o rebelde como o Banksy
    na Inglaterra é fácil.Quero ver se
    ele fosse brasileiro.Chamariam
    de comunista mamando na Lei Rouanet.

    • 10/11/2018 at 18:21

      Pois é, com a polícia da Inglaterra é fácil se esconder.

  2. Monalisa
    25/10/2018 at 22:22

    Achei que era ela?

  3. Monalisa
    25/10/2018 at 19:28

    Professor, o visível desconforto da Janaína nesse vídeo

    https://youtu.be/VF4y5m2KN4U

    • 25/10/2018 at 22:02

      Acho que você se confundiu, não tem Janaína nesse vídeo.

  4. Eduardo Henrique
    22/10/2018 at 21:21

    O integralismo é a versão brasileira do fascismo ou o fascismo verde-amarelo. Os fascismos jamais serão iguaizinhos, pois essa posição política não é internacionalista e sim nacionalista. Por exemplo a extrema-direita fascista na Alemanha, será diferente da versão estadunidense, assim como será diferente da versão israelense e também diferente lá em Uganda.

    Cada país terá sua própria versão de fascismo. Na Alemanha o fascismo perseguiu judeus, porém a extrema-direita lá de Israel não os perseguirá por motivos óbvios, os perseguidos serão outros. Nos países africanos e árabes, a extrema-direita se caracteriza pelo radicalismo religioso e étnico. Portanto não existe uma versão internacionalista do fascismo que o unifique em uma só bandeira, como faziam os comunistas. Por exemplo, nunca existiu uma “Internacional Fascista”.

    Porém é óbvio que um integralista brasileiro jamais entenderá isso, pois para entender é preciso ter racionalidade e isso é tudo que os integralistas não possuem. Até porque se tivessem, não seriam integralistas.

  5. LMC
    22/10/2018 at 16:22

    Hoje na Folha,o Pondé Bicha Velha
    criticou Roger Waters.Mas,pra ele,
    Roger Waters,Roger Abdelmassih,
    Roger Rabbit é tudo a mesma coisa.
    kkkkkkkkkkkkk…..OH,YEAH!!!!!!!!!!!!!

  6. pedro pedroso pedreira
    22/10/2018 at 13:47

    o senhor, além de pouco afeito ao diálogo, é dogmático. qndo estou bem humorado, assisto aos seus vídeos no yotube. o senhor, sempre em seus intermináveis monólogos.

    • 22/10/2018 at 14:44

      Pedro, eu adoro dialogar e meus vídeos, na maior parte, são diálogos, mas eu não tenho paciência para burrice. Quando um integralista se diz não fascista, ele é burro, não estudou, não sabe do que está falando. Termine o supletivo.

  7. LMC
    22/10/2018 at 11:07

    Enquanto falamos de Banksy,o
    filho do Bolsonazi quer fechar
    o STF com um cabo e um soldado.
    Rarará!!!!!!!!!!!!!

  8. pedro pedreira
    22/10/2018 at 09:49

    não, filósofo, não vou me matar! tenho muito amor à vida. tenho apenas 34 anos de idade e pelo menos pelo menos nos próximos trinta e seis aqui estarei para questionar todas (in)verdades estabelecidas. inclusive, as do senhor!

    • 22/10/2018 at 12:34

      Meu caro, sua ideologia foi derrotada e sobrou você, a besta. Você não precisa se matar, já morreu.

  9. pedro pedreira
    21/10/2018 at 19:02

    sabe, filósofo, tenho uma enorme simpatia pelo integralismo de pínio salgado e sya democracia orgânica. enão me venha com aquela lorotados marxistas e liberais de que ele era “fascista”! isso é “tertúlia flácida para dormitar bovinos”!

    • 21/10/2018 at 23:05

      Pedro, você é débil mental. Não entender que o integralismo é um tipo de fascismo é ser como os bolsonaristas. Tente se matar.

  10. Carlos Simões
    21/10/2018 at 13:21

    Professor, proponho a seguinte leitura: a tela (o que diria representar nossas ideias, cultura, paradigmas etc.) saindo da moldura (representando a gaiola de aço que delimita e bloqueia a utopia). Assim, Bansky nos diria que é possível SIM uma utopia, uma nova saída, em outras bases, para a nossa sociedade, entretanto esse movimento, apesar de possível, nos será custoso, trabalhoso, dolorido…o que está representado pela destruição de parte da obra.
    Obs.: seu texto é tocante. Estou até agora pensando nos desdobramentos.

    • 21/10/2018 at 13:40

      Carlos, você não notou algo no texto: ele, o quadro, está em vídeo na net, já absorvido como mercadoria, ou na lógica desta. E o meu texto sobre o assunto também, ainda que meu blog não seja comercial.

  11. Rafael Salles
    21/10/2018 at 12:07

    Talvez uma mudança de paradigma. Uma sociedade em que os valores sejam outros que não o material. Por exemplo, a cultura. O mercado seria um meio de alcançar esse valor, que só se mostraria viável num certo equilíbrio do próprio mercado. Não dependendo, portanto, da generosidade, mas também não nos livrando do mercado.

    • 21/10/2018 at 12:35

      Rafael, lei meus dois livros sobre Sloterdijk, vai ajudar você a pensar essa coisa da “generosidade”.

  12. Giulia
    21/10/2018 at 09:53
  13. Eduardo Henrique
    20/10/2018 at 21:02

    De fato não existe mesmo opções ou alternativas viáveis fora do mercado. A tentativa dos regimes comunistas do século XX acabaram num extremo fracasso, pois a economia não conseguia girar de modo satisfatório.

    Se quisermos propor novas utopias ou simplesmente novas formas de sociabilidade, teremos que levar em conta a economia de mercado. Sem ela, a probabilidade do caos é enorme.

    Porém não proponho e nem defendo o fundamentalismo de livre-mercado ao estilo Ludwig von Mises, Friedrich von Hayek e Milton Friedman. Penso que uma economia de mercado controlado (para usar uma expressão do economista Joseph Stiglitz) seria mais razoável.

    • 21/10/2018 at 08:51

      Eduardo isso é velho e está dentro da gaiola de ferro. Já está no horizonte.

  14. Renato
    20/10/2018 at 17:43

    Quebrando a cabeça ate agora com seu belo texto…

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