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17/12/2017

As luzes sobre a menina tocando um … homem nu!


Vi na Folha de S. Paulo um blogueiro que, ao analisar a polêmica sobre “Bicho” no MAM, repetiu aquela explicação que avalio que deveria vir proibida em manuais básicos de jornalismo. Ele disse com todas as letras que a campanha contra o MAM não tem nada a ver com arte ou com proteção à infância, mas é “apenas uma estratégia dissimulada da direita para manipular o público e fazer avançar a agenda liberal de privatizações e redução dos serviços públicos”. A partir dai esse articulista mostra que as pessoas e as organizações que atacaram o MAM tentaram vincular o ocorrido com a pedofilia e esta com o que seria o típico comportamento de esquerda.

É uma tolice achar que a agenda da direita (ou da esquerda) diz coisas que não revelam suas verdadeiras intenções. Ora, a direita fala contra direitos trabalhistas quando as coisas tem a ver com direitos trabalhistas. Quando tem a ver com a cultura, ela diz o que acha sobre a cultura. Não há qualquer ação “dissimulada” e muito menos “manipulação”. A direita é sincera. A política é mais sincera do que julgamos. Ela, a direita, realmente enxerga pedofilia no que ocorreu no MAM. A direita, esta que se manifestou, não tem qualquer apreço pela arte e não faz a menor ideia do que é arte. Um corpo nu, para as pessoas da direita que se manifestou, lembra duas coisas: sexo e violência. Essas pessoas não são estranhas ao povo brasileiro: não vai a cinema, não lê, não vai a museu ou teatro, não frequenta bibliotecas. Que se olhe para o prefeito de São Paulo: o que ele acha que é arte é o Romero Brito!

Analisei o episódio mostrando o lado filosófico da releitura de Bicho, de Clark, e também falei de como não se trata de uma peça que tenha a ver com erotismo ou qualquer coisa que caiba investigação sobre “pedofilia no MAM”. Mas, por conta da visão estreita do articulista da Folha, senti a necessidade de tocar no assunto novamente, a partir de uma visão centrada nas razões maiores a respeito do episódio. Traço aqui um panorama a partir da filosofia social, segundo o conceito de “sociedade da transparência” do filósofo germano-coreano Buyng Chul Han, sobre o qual já escrevi várias vezes.

Han lembra que foi com Rousseau que chegamos, de forma acabada, à sociedade do ideal da transparência. Foi com ele que a sociedade da transparência se mostrou tirânica. Foi genebrino quem pregou o imperativo moral da transparência do coração, o fim da “sociedade de máscaras” –  que ganhou no século XVIII literalidade – do Antigo Regime. Ele chegou a elevar como ideal a comunidade em que todos fariam tudo publicamente, de modo a criar aquela política que pode manter o controle sobre todos. Citado por Han, Rousseau diz: ‘Eu, por meu turno, sempre tive em grande estima aquele romano que desejava que sua casa fosse edificada de tal modo que todos pudessem ver o que ali se passasse’ (Sociedade da transparência. Petrópolis, 2017, p. 102).  Rousseau foi aquele filósofo que pediu a um anjo torto a vinda da sociedade da máxima transparência. Um anjo torto, sim, pois primeiro ela veio com o socialismo estropiado que arrebentou com a vida privada ao mesmo tempo que impôs o segredo para alguns. Trouxe a arte realista de volta, a vida sem véus do ideal das Luzes, da total iluminação, transformado naquela iluminação jogada nos olhos de tal modo que acaba cegando. Agora, o anjo torto continua a agir, nos pondo em uma sociedade informatizada, a sociedade da grande rede, da Internet, na qual o centro é conversa de todos contra todos na exigência do mostrar-se. Quem não se mostra no Facebook logo chama a atenção para si como alguém que “pode estar escondendo algo”!

É essa febre de luzes que provocou o episódio da polêmica do MAM. Algo ocorrido em um museu chamaria a atenção, ao menos no Brasil, de uma pequena elite. Quem estaria interessado nos resultados de uma arte de afronta a preceitos metafísicos, levada adiante por uma artista desconhecida da patuleia? Mas, em uma sociedade como a nossa, plenamente uma sociedade da transparência, todos colocam tudo que ocorre nos celulares, e a comunicação imperativa a respeito do que o outro está fazendo – principalmente se o que ele faz não é inteligível – se abre no presente de imediato. Desaparece a KGB e a CIA uma vez que todos se tornam agentes secretos do que não é mais secreto num mundo onde o secreto não tem semântica alguma. Trata-se da sociedade sem agentes secretos, o ideal da democracia liberal, o fim da tirania e, como se vê, o inicio da nova tirania. Na verdade, todos se tornam agentes da KGB e CIA, mas sem serem secretos.

Ao fim e ao cabo, o que importou a todos foi a foto de uma criança tocando o pé de um adulto nu. Eis a grande exposição da exposição do museu. O MAM nunca foi tão visto! A crueldade e a ironia de Rousseau nos alcançou. Lá do século XVIII, escuto seu brado e sua praga: não querem museu, um lugar de mostragem? Então que venha a mostragem, que venha toda a mostragem do mundo. Mas a mostragem não traz bem nenhum, ela é apenas a exposição do não-inteligível para os grupos enormes de agentes da KGB e da CIA, ou seja, toda a patuleia. Cadê a mãe que levou a menina para a performance? Temos de ver como é a casa dela. Cadê os curadores do MAM, temos que ver como é casa deles. E o artista da performance? Não será ele, na calada da noite, um vampiro  que suga sangue de crianças, inclusive de bebês brancos e ricos? Procura-se mais e mais trazer luz, transparência, e então se cria na imaginação monstros que estariam escondidos. Nada é mais escondido, então, que se imagine que essas pessoas, graças aos celulares, foram pegas fazendo … arte! Arte de arteiros! Escondidas sem se esconderem. O povo reunido em Assembleia, com aval do poder instituído, pode então abrir para a eleição das penas. Deputados que são fanáticos por pornografia e, portanto, os principais arautos da sociedade da transparência, avaliam que devemos torturar (sim, falaram literalmente) o artista da performance.

Han diz: “o vento digital da comunicação e da informação penetra tudo e torna tudo transparente”. E continua: “ele atua através da sociedade da transparência; mas a rede digital como medium da transparência não está submetida a um imperativo moral. É de certo desprovida de coração, que do ponto de vista da tradição foi um medium metafísico teológico da verdade”. A “transparência digital não é cardiográfica, mas pornográfica, produzindo também panópticos econômicos.” (pp. 103-4). Só quando olhamos por esse ângulo, notamos que de fato havia algo de pornográfico nisso tudo, mas ele não estava no MAM, mas na situação toda da ideia de uma sociedade sem véus, sem qualquer lusco fusco, sem lugares que não estejam escancarados, como quando não queremos mais olhar nenhuma roupa e nem mesmo pele, quando tudo se torna exame ginecológico. Gente que vive assim, de fato faz valer na cultura o princípio desse exame médico, e só pensa nele como parâmetro da vida e das atividades todas.

A regra de se ver pornografia em tudo faz parte do povo que só conhece a pornografia, pois a sociedade da transparência hipostasia não a pornografia em si, mas o olhar que tudo vê de modo escancarado, ou seja, o modo pornográfico de ver. Não é preciso falar ou expor o nu numa sociedade assim. Ela, essa sociedade, é a constância do nu. O nu não causa espanto para quem reclama dele nessa sociedade. Mas a função de transparência e de vigilância de todos contra todos se apega ao que pode ainda funcionar como pecado para que a punição se mantenha como função. As pessoas, afinal, precisam de uma função. E os impotentes, mais ainda.

A “sociedade da transparência” é uma prima mais nova da “sociedade do espetáculo”, aquela na qual o império da mercadoria faz tudo virar vitrine. Aquela na qual Debord disse jogar a polêmica do “ter versus ser” para baixo, impondo a ontologia do aparecer.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 04/10/2017

 

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9 Responses “As luzes sobre a menina tocando um … homem nu!”

  1. Dinis Madeira
    10/11/2017 at 11:41

    Temo que voltemos a um período que pareça inquisitório.
    O Brasil, um país ainda do terceiro mundo, não aguentaria mais censura e ditaduras.

  2. Carlos
    07/10/2017 at 12:20

    Uma sociedade liberal é mais interessante.

  3. Fernando
    06/10/2017 at 23:02

    Você não acha que esse episódio se tratou de proxy war? Uma tentativa do MBL de ganhar holofotes?

    • 06/10/2017 at 23:47

      MBL sim, mas que eles são burros, são. Agora, não se esqueça que a coisa arrebanhou evangélicos e desescolarizados em geral.

  4. Matheus
    04/10/2017 at 19:56

    Paulo, agora sim estou triste, chegamos ao fundo do poço tem obra no Louvre, em Paris, FRANÇA, sofrendo retaliação por conteúdo supostamente sexual… Não é só o Brasil que tá se metendo nessa, é um processo global

  5. Eduardo Rocha
    04/10/2017 at 19:33

    Me preocupo com o Brasil. Pessoas que não conseguem ler um artigo do código penal, não entendem o que é pedofilia, pessoas que querem tirar financiamento de eventos assim porque “isso não é arte”. Não basta somente criar manchetes sobre o artista, mas devem fazer ele perder seu emprego, passar fome, vasculharem sua vida ou ganhar esmola (mas claro, ele é artista). Pior ainda o MBL que não possui pauta nenhuma como movimento desde o impeachment e as eleições chegando querem ser papagaio de pirata. E os liberais que querem que a tributação que incidiria no imposto de renda privado vá para o Estado e o Estado depois repasse o dinheiro para a mesma empresa para eventos culturais e artísticos (fora as dívidas que seriam pagas com esses valores). Além dos que não querem financiamento algum desse gênero.

  6. Hilquias Honório
    04/10/2017 at 14:49

    Hoje a Folha cedeu espaço para Olavo de Carvalho. O discurso da besta foi igual ao do blogueiro, mas pelo outro lado: tudo faz parte de uma manobra comunista de doutrinação e perda de “pudor”.
    Isso que é indecência jornalística!

    • LMC
      05/10/2017 at 11:44

      E o MBL e as olavetes não vão
      pedir intervenção militar nos
      EUA depois do massacre de
      Las Vegas?kkkkkkkkkkkkkkk

    • Augusto P. Bandeira
      05/10/2017 at 19:32

      Encontramos alguém que se ofendeu por ver um em jornal, sob a categoria “opinião”… um texto opinativo! A Folha cometeu o ato abjeto de publicar um texto de um potencial leitor em um espaço destinado a tal.

      Essa reação exemplifica o que o artigo demonstra: a reação a um fenômeno não corresponde a uma interpretação baseada no real, antes está ligada a um estado de coisas pautado por uma linguagem estruturada para gerar amor ou ódio, simpatia ou antipatia e assim identificar mais facilmente os inimigos para então combatê-los.

      O que Olavo disse, em essência, foi que tanto um lado como o outro, ao se manifestarem, não tinham a real dimensão dos elementos em jogo. A disputa, não pelo papel da Arte enquanto manifestação humana perante o mundo, (ponto de partida dos textos do Ghiraldelli, penso eu), mas sim pelos elementos de narrativas-chave de explicação do mundo que os grupos têm. Os detentores do poder real, aqueles que influenciam o curso das coisas, dependem da aceitação prévia de ideias, conceitos e valores que deem legitimidade àquilo que lhes sustenta em tal posição.

      É a isto o que Olavo vem chamando de “Guerra Cultural”. Além do mais, leve em consideração que a assim denominada direita “explodiu” em decorrência de um sufocamento que veio pela ausência de representação desde a Redemocratização.

      Essa guerra cultural tende a ser mais grave na medida em que as esquerdas não têm pautas além de idiossincrasias sexuais, pautas de “compensação histórica”, desconstrução do que quer que seja e se apropriar do erário para financiar sua escalada e seu projeto de poder e as direitas têm o resgate de pautas conservadoras com as quais a massa brasileira se identifica verdadeiramente.

      As eleições serão um excelente laboratório social para saber o que, realmente, está em jogo.

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