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24/04/2018

Qual a função do “bode expiatório”?


[Artigo indicado para o público em geral]

A função do bode expiatório é expiar os pecados. Sim. Alguém é escolhido para ser sacrificado e, com isso, todo o povo que efetivamente o sacrifica, se livra dos males gerais que estão perturbando aquele povo. O povo mata um animal, pessoa ou todo um grupo social ou étnico e, então, se livra do mal e ainda por cima apaga os erros, os pecados. Comete-se uma violência para que a sociedade fique em paz. Não parece completamente contraditório?

É que em geral descuidamos dos detalhes dessa prática, da sua história. Não raro, também, não damos atenção para a sociologia e para a antropologia, quando estas tocam no assunto. Em 1982 o antropólogo René Girard lançou um livro com o título O bode expiatório. Nesse livro ele falou da força contagiosa da violência. Quando ela se inicia, é fogo em rastro de pólvora. Corre e começa a atingir o mais pacífico dos homens. Instaura-se facilmente a “guerra de todos contra todos”. A sociedade toda entra em colapso e tende ao seu fim, a uma terrível autodestruição. Eis que é necessário que se encontre um único indivíduo ou grupo que possa receber a acusação – real ou imaginária, falsa ou verdadeira, tanto faz – de que ele é o culpado por todo o caos social. A vingança se instaura então com uma vingança final, no sacrifício desse ser único – o bode expiatório. Mas quem tem de ser o escolhido? Aquele que não pode reagir, aquele que é completamente frágil, aquele que está disponível para ser empurrado para a praça pública ou para os guetos, como … bode expiatório.

Por que tem que ser o mais frágil? Porque o mais frágil, o mais isolado, o mais disponível, é aquele que não tem parentes importantes, não tem a possibilidade de reagir, nem gerar qualquer desejo de vingança em seus descendentes. Isto significa que a morte dele será o último assassinato. As vinganças todas poderão parar ali, pois ele sera escolhido para ser sacrificado sem poder reagir e sem programar reações ou vinganças futuras. Todos se sentem aliviados de poder exercer o último ato de violência, gozar sem pena o sangue extraído, e viver então em paz para sempre. Trata-se da marca do fim da vendetta, que até então se punha como infinita e como uma bola de neve de mortes de gerações em gerações.

Faz-se uma violência que pode ser a última. Tem como ter o direito de ser a última. Será a última. Ninguém virá reclamar esse último crime. Não à  toa Jesus ensinou o perdão – para que ele, Jesus, de fato fosse o cordeiro de Deus, para que ele fosse o catalizador e provocador da última manifestação de pecado e, daí para diante, pudesse prometer o que se promete com o bode expiatório: vocês mataram o último, não precisam matar mais, pois este que mataram não virá se vingar. E ninguém virá por ele. “Pai, perdoe-os, eles não sabem o que fazem”. Na Cruz, então, Jesus anuncia de novo o lema do cristianismo: não há vendetta, não há retorno de sangue, não há o que temer matando o próprio filho de Deus. Todo perdão já foi instituído entre os meus. Ele mesmo se oferece de modo que o povo possa, com esse último cálice de sangue, se satisfazer e, dali para frente, venha a conhecer um tempo sem vingança, um tempo de paz.

Todo bode expiatório só funciona como bode expiatório, em seu direito de ser expiatório, pelo seu caráter de fraco, de incapaz de reação, de não ter chance alguma de, no futuro, fazer nascer algum vingador.

Há bodes expiatórios que não funcionam, que não servem, de sociedades que não se pacificam com eles, e que então os re-invocam todos os dias, nos linchamentos de final de semana, físicos ou psicológicos. São sociedades violentas que não encontram seu bode expiatório, até porque hoje em dia é difícil alguém realmente ser bode expiatório. Na verdade, faz tempo que os bodes expiatórios não resolvem.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60. São Paulo, 17/01/2018

Foto: Jesus na Cruz em A última tentação de Cristo, de Scorcese.

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11 Responses “Qual a função do “bode expiatório”?”

  1. EDISON LEE HOLLAND
    19/01/2018 at 07:14

    Vocês leram o texto e não entenderam nada da intenção do bode expiatório…vistam a pele do bode e aí sim vão ver para que serve…

  2. Alice Seixas
    18/01/2018 at 11:49

    As minorias ainda dominam o lugar de bode? Tenho a impressão que os artistas são a bola da vez por aqui. As polêmicas dos museu estão aí, a ameaça de censura também. O desespero para que o anticristo chegue faz com que surjam essas bolhas de mediocridade saltitantes. Que tiro foi esse, viado? Que tal um cabrito?

    • 18/01/2018 at 15:55

      Alice, é preciso sempre ver o poder de reação do bode, para ele ser bode. Este é ensinamento do texto.

  3. Marcio
    18/01/2018 at 10:27

    * Se não há bodes expiatórios, não há pacificação? Todos se tornaram “fortes” e importantes?

    • 18/01/2018 at 15:57

      O bode autêntico precisa não poder responder.

    • Orquidéia
      19/01/2018 at 08:33

      Felizmente, hoje em dia ninguém está completamente sozinho.

  4. Marcio
    18/01/2018 at 10:23

    Se não bodes expiatórios, não há pacificação? Todos se tornaram “fortes” e importantes?

  5. Orquidéia
    18/01/2018 at 08:12

    Hoje em dia,ser “vítima” de um infortúnio ou da sanha popular, é dar mau exemplo.

  6. Juliano
    17/01/2018 at 22:58

    Sócrates foi o bode expiatório da Filosofia? (se é que esta precisasse de um)

    • 18/01/2018 at 00:44

      Claro que não, acho que você não pegou o texto.

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