Go to ...

on YouTubeRSS Feed

20/11/2017

Mãe pobre e jovem – por quê?


Este artigo é indicado para o público em geral

SER MÃE POBRE é uma maneira de criar companhia, respeito da comunidade, esperança de ter um homem, sociabilidade com outras jovens, apreço vindo de outras mulheres, reconsideração pela mãe, fuga de uma escola que parecia não ajudar em nada. Há toda uma esperança de aceitação nesse mundo da mãe jovem e pobre. Isso se concretiza? Muitas vezes sim. Mas mesmo que não, a esperança é sempre o motor de tudo na vida. Essa é uma esperança que nasce forte no meio pobre, ainda que já urbano.

Ser mãe é a esperança de saber o que fazer com a adolescência, é como que um requisito de cidadania no meio favelado ou da periferia. Ser pobre e ter filhos aos montes, começando jovem, não é um destino inexorável maldito; pode ser um destino inexorável bendito; em boa medida uma aquisição da condição de se passar de indivíduo a sujeito. E ser sujeito não é o que a modernidade exigiu de todos?

Muitas pessoas da “classe média branca”, mesmo quando estudam antropologia urbana, não conseguem aprender isso. A experiência própria as impede de ver aquilo que, no máximo, conseguem chamar de “falta de informação” dos pobres. Indo à direita,  esses estudantes não tardam em culpar as mulheres pobres pelos filhos que fazem, pelo aumento da despesa de casa e, então, pelo que acreditam que seja a “reprodução da pobreza”. Acham que o aborto, que as mais ricas praticam por causa da carreira ou conveniências contraceptivas, é solução para tudo. Aliás, têm um sentimento confuso sobre isso, sobre o tal “planejamento familiar”. Os homens que entram nessa linha, acham que é melhor o não-aborto (mesmo em caso de estupro!), pois as moças devem pagar pelos minutos de prazer que não quiseram ter com eles, mas com “bandidos” da favela. O “homem branco de classe média” sempre acha que seu pênis é menor do que o do bruto da favela, e então caminha na linha da vingança contra a mulher pobre jovem. O tema do aborto para pobres é sempre um vespeiro que faz emergir na direita e na esquerda todo tipo de entendimento desastrado sobre a maternidade na pobreza. É um tema que faz máscaras caírem.

Um misto de preconceito machista com racismo e preconceito contra a mulher pobre, tomada como “irracional”, é a fábrica de todo tipo de especulação barata contra essas mocinhas geradoras de filhos. Agora, por sua vez, a Construção Civil agradece esses filhos, ainda que existam empresários que chamem a polícia para cuidar deles, ou pague esquadrões para cuidar deles mais rapidamente.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 11/11/2017

Gravura acima: personagem Dodola (Habibi), de Craig Thompson

Tags: , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *