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20/11/2017

Carta sobre relativismo cultural para Janaína Paschoal


JANAÍNA PASCHOAL ME ESCREVEU dizendo que é triste minha mensagem que diz que a cultura oriental permite que exista casamento de adultos com jovenzinhas. Ou seja, ela acha que devemos mudar Maomé (ele consumou seu casamento com sua esposa quando ela tinha nove anos). Ela diz que há coisas ruins na cultura e que isso tem de mudar. Então, tive de lhe dar essa resposta, ou seja, algo mais longo e, para que outros mais jovens entendessem, didático.

Janaina querida, você ainda não entendeu onde eu quero chegar nessa conversa. Cultura se muda por convívio entre culturas, não pela sua decisão jurídica. Ou seja, com casamentos, moradias conjuntas, viagens, leituras de ambos os lados, participação em trabalhos internacionais comuns, assim pode a cultura oriental assimilar valores ocidentais e vice-versa, não pela decisão de um dos lados. Agora, se uma família oriental vem para o Brasil, aí a cultura dela se muda muito mais por força da lei. E vice versa, claro!

Deixe-me ver se consigo ser realmente didático: os Estados Unidos ganharam a Guerra. Governaram o Japão. Mudaram algumas leis do Japão, por exemplo, introduziram sindicatos livres. Os japoneses aceitaram porque estavam dominados, mas aceitaram, muito mais, porque os Estados Unidos não mataram o Imperador, que acabou dando certo aval à ocidentalização. Consegue perceber onde quero chegar? O modo como você pensa é abrupto: ou seja, a palavra cultura para você não é entendida com a força que ela tem.

Vou dar outro exemplo, ainda mais didático. Eu não como carne. O motivo é que não quero fazer os animais sofrerem. Não quero comer defunto. Agora, é da cultura brasileira as pessoas comerem carne. Eu acho matar animais um assassinato, mas eu não vou sair por aí nos restaurantes dizendo para as pessoas, que estão nas mesas, que elas são assassinas. Eu escrevo de vez em quando sobre isso, eu favoreço grupos que cuidam de animais, eu ensino meus filhos e outras crianças a cuidarem dos animais, eu não compro produto de empresas que sacrificam animais etc. (eu até já perdi a paciência com uma repórter de direita por conta de proteção animal). Ou seja, vou tentando mudar a cultura brasileira, mas tenho de ENTENDER os participantes dela.

Claro que, nesse meio termo, se posso ajudar a aprovar leis que punam quem faça mal aos animais, eu ajudo. E se há leis para tal, eu luto para que elas sejam cumpridas. Mas as leis contra a crueldade devem ser racionais, de modo a não alimentarem, pela punição, mais desejos de crueldade do que aqueles que visa combater. Esse princípio de suavização das punições, dado pelo mercado capitalista, Foucault estudou muito bem. Se proibimos o aborto para proteger os mais fracos e, então, paradoxalmente, temos como penalidade pegar uma mãe desesperada e jogá-la em um presídio (nas condições brasileiras), não estamos sendo racionais, não aprendemos nada com a suavização dos costumes que caracterizam a modernidade. Aliás, nesse caso, não aprendemos nada com o cristianismo. Pagar a brutalidade com a brutalidade é justamente a lei contra a qual o cristianismo se pôs, e que fez, mais tarde, o liberalismo adotar a suavização das relações até chegarmos nas cartas de Direitos Humanos.

Você disse que foi triste ler minha mensagem, mas eu não achei triste a sua mensagem. Elas me deu um motivo para eu poder lhe dizer que seu conceito de cultura está pedindo algo a mais. Sim, está pedindo. E como você é bem jovem, tudo corre a seu favor. Talvez seu trabalho em Direito ficasse mais brilhante do que já é com uma certa curiosidade antropológica.

Mais um exemplo. Há índios brasileiros que enterram crianças deficientes. As mães questionam? Algumas sim, outras não. Quais questionam? As que notaram outras tribos que não fazem o mesmo, ou notaram os brancos. Perceberam que o deficiente podia não ser um déficit social, e perceberam que não precisam abrir mão do amor ao filho deficiente. Essas índias fugiram dessas suas tribos. Fugiram com os filhos, ou antes mesmo, grávidas. Mas, em várias tribos, quem as caçaram não foram os homens, foram as próprias mulheres que viram naquela atitude uma subversão cultural terrível. Agiram como policiais da cultura. Em alguns lugares, padres missionários ensinaram as indígenas a produzir mais para que a comida pudesse se dividida também com quem não produz. Deram chance ao amor. Essa transformação cultural aconteceu na colonização e, recentemente, novamente tivemos notícia disso. Agora, diante dessas mães, há pessoas (inclusive, infelizmente, formadas em Direito) que queriam criminalizar as índias, sem qualquer reflexão, por elas terem deixado os filhos serem enterrados. E houve outros que simplesmente queriam que o estado não interviesse, simplesmente deixasse a cultura intacta. Mas a cultura já não estava intacta, pois as índias já sabiam que podiam sustentar filhos deficientes (embora o tabu fosse religioso também – economia e religião são primos!). Além disso, no contexto da lei brasileira, onde vivem os indígenas, não se pode permitir esse enterro de filhos, pois é simples assassinato. Consegue agora ver onde quero chegar? As coisas não são preto e branco, feitas na base “eu vou mudar o mundo a fórceps, através de gritos da lei”, e nem “eu vou deixar o mundo como está, a salvo dos mudancistas, por meio de gritos da lei”.

Bem, é isso, fiz o máximo de esforço que pude para explicar meu ponto de vista. Se tiver a paciência de ler, e se gostar de um pouco de antropologia, acho que isso vai lhe ajudar ainda mais na sua nobre caminhada.

Para finalizar. Janaína, entenda, a esposa de Maomé, ?Aisha (“a que está viva!”) não era uma menina ocidental. A cultura não é uma palavra, é um modo de vida. Ela se casou aos seis anos e foi preparada só para cumprir o papel de esposa, aos nove anos. Acreditar que isso é um estupro, no sentido ocidental do termo, é possível, mas só no sentido ocidental, no sentido da cultura do tempo e do lugar de Maomé, isso não era uma ofensa ou um ato de violência, por isso mesmo, várias dessas meninas, que hoje estão nesse diapasão antropológico, não se sentem violentas. E de fato, não são. Mas uma ocidental, mudando-se para lá, talvez nem com a preparação dada pela cultura, irá absorver tal coisa. A cultura é uma segunda natureza. Ela se desfaz como segunda natureza a partir de fissuras realizadas pelas areias e águas do tempo, e cabe a cada um de nós, se sabe pensar, entender o fluxo dessas areias e águas.

Prefiro viver na cultura ocidental, Janaína. Mas sei entender um mundo sem Rousseau, onde o conceito de infância não se fez presente como aqui, e onde Lolita podia vir à tona sem se tornar best seller. Nabokov desafiou nossa noção de infância, com Lolita, por saber bem como enfrentar e ridicularizar a cultura ocidental. Nabokov nunca deixou de ser filho de um liberal nobre, russo. Ele foi o grande escritor que fez com que até um nazista, por ser ocidental, dissesse, na prisão, diante de Lolita, que nunca havia lido algo mais perverso. Mas Nabokov não é para qualquer um. Janaína, você sabe disso. Deve ter lido. Há uma nota de rodapé no livro em que o personagem zomba de seu próprio rousseauísmo, ao não avançar sobre a menina deitada na cama. Mas a menina já havia mandado às favas Rousseau e todo o cuidado da infância da cultura americana.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. São Paulo, 30/10/2017

Paulo Ghiraldelli Jr. Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

PS: Um filme interessante para se pensar os limites do poder de uma cultura sobre outra é “Silêncio” (2016), de Martin Scorsese.

CONTINUAÇÃO DA CONVERSA

Resposta de Janaína: Paulo, pode passar o pdf da minha tese para seus alunos. Lá, eu abordo todos esses pontos e mostro que podemos trabalhar com outros meios, que não o Direito Penal. Para uma eventual avaliação, pergunte a eles o seguinte: 1) Pode uma mulher não indígena enterrar seu bebê deficiente, valendo-se da cultura de algumas tribos? 2) Pode um tarado não seguidor do Corão apegar-se a Maomé para desculpar as próprias taras? Boa semana!

Minha réplica: Janaína, justamente por ver isso na sua tese é que estranhei você voltar à desconsideração da questão cultural.  Por que desconsidera, ou melhor, como? Veja: suas perguntas não são perguntas. Note: “Pode um tarado apegar-se a Maomé para desculpar as próprias taras?” Isso não é uma pergunta séria. Ninguém daria aval para um tarado. A pergunta séria é outra, e esta você não põe, pois se colocar, ela complica você, daí a sua não possibilidade do debate: “Pode um seguidor de Maomé, na terra dele, casar-se com uma garota de 11 anos, e receber do Bush, nos Estados Unidos, a fama de pedófilo, para incentivar uma guerra contra o Oriente?” Essa é a pergunta que põe a cultura na jogada, a sua não. A sua já está respondida: um tarado, aqui e no Iraque, seria preso se sua tara fosse pega. A mesma coisa vale para o bebê. A sua pergunta não põe a questão cultural porque ela já está respondida. Aliás, no contexto da tese, tais perguntas ficaram sem sentido. Veja bem: qualquer justificativa para um crime, honesta ou não, não faz o crime deixar de ser crime. Isso não se discute. O que mostra o embate cultural não é o crime consumado, mas o preconceito. Se não posso entender que uma menina pode ser preparada para o casamento numa cultura que não é a minha, mas estando ela naquela cultura e não sob a influência da minha, crio o preconceito e acho que posso invadir aquela cultura para além da invasão do diálogo. Tente pensar nisso. Abração

Paulo

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9 Responses “Carta sobre relativismo cultural para Janaína Paschoal”

  1. Joelmir
    03/11/2017 at 01:56

    Essa aí ficou em último num concurso da USP e escreveu prefácio do livro do japinha do mbl. O que ela fala ou escreve é irrelevante.

    • 03/11/2017 at 09:50

      Joelmir, o fato de você ser um sabe tudo já denota que você não sabe nada.

  2. Ezequias costa
    30/10/2017 at 16:30

    Bom esclarecimentos Paulo, gostei um abraço.

  3. Bruno
    30/10/2017 at 12:45

    Estranha essa resposta da Janaína, parece não ter lido o que você escreveu. Ela diz poder trabalhar com outros meios que não do Direito Penal, mas as duas perguntas são no sentido de ”Poder Dever”: pode uma mulher.., pode um tarado.., tipico do direito penal, está ou não conforme à lei.
    O exercício hermenêutico que é justamente essa tentativa de se despir e tentar entender uma cultura diversa da ocidental sem as mesmas bases onde o saber foi construído ela não consegue fazer.
    Qual o nome da tese dela?

  4. Matheus
    30/10/2017 at 11:52

    Paulo, mais uma vez venho elogia-lo por insistir na conversação com outros intelectuais dispostos ao debate (nao-eleitoral, hehe)

    Isso falta tanto no Brasil, precisávamos de mais disso

    • 30/10/2017 at 12:00

      Matheus, insistir eu insisto. Insisto também em responder aos meus leitores. Mas os intelectuais meus parceiros não respondem, e alguns leitores só xingam. E se respondemos duro, dizem “não é filósofo”. Ou seja, queriam bater sem levar. Mas eu continuo. Sou incansável.

  5. José
    30/10/2017 at 10:50

    Ótimo texto! Bem esclarecedor. Quando estudei História na UPE, final da década de 90, tinha uma disciplina chamada Antropologia Cultural e me fez entender bem tais questões. Faltou conhecimento de Antropologia, pré-requisito para que o trabalho de Janaína ficasse melhor.

    Abraços
    Paulo

  6. Antonio Jorge de Souza Menezes
    30/10/2017 at 07:52

    Simplesmente demais!!!! Esclarecedor. Sou estudante de direito e vejo que nunca existiu uma disciplina que nos ensinasse antropologia de forma tão profunda como a explicação que acabei de ler. Em um simples texto pude entender como um operador do direito deve agir diante das mudanças sociais tão recorrentes no nosso país. Não é somente aceitar o que está acontecendo, nem impedir o que está acontecendo, mas simplesmente fazer parte do processo, seja pra mudar, seja para colaborar. Pois, somente a cultura pode mudar a cultura. As leis somente servem para por limites à sociedade.

  7. 30/10/2017 at 02:53

    Aguardando a resposta da Janaína. Se possível poste aqui no blog Paulo.

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