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20/11/2017

Ainda o pênis, esse maldoso!


O pênis parece uma seta. Do mesmo modo que a seta fere e mata, essa simbologia se transferiu para outros elementos semelhantes, principalmente para o pênis, também um agente da morte. Gozar é morrer – ao menos por um pequeno tempo, mas com efeitos duradouros para os dias seguintes, uma imensa boa vontade para com o mundo. Quase um Céu.

O jogo de corpos, a “luta” e, enfim, a penetração, estão no sexo como na caça, que começou a ocorrer logo que nossos acentrais desceram das árvores. A disposição dos mamíferos para essa encenação em relação ao fazer sexo se aproximou muito rapidamente essas duas performances predispostas ao teatral: o espetar da lança no animal, para depois comê-lo, o espetar da lança no inimigo, para então submetê-lo, assim tudo veio a calhar com o espetar o parceiro ou parceira sexual, para … possuí-lo. Em todos os casos, há prazer envolvido. Prazer de poder. Nada novo nisso.

Nunca o sexo pode acontecer com ternura. Ao menos não em todas as suas fases. Em algum momento, o sexo entre mamíferos exige gana, capacidade muscular ativa, gestualização relativamente agressiva. As pessoas sabem disso. Mas a filosofia sempre teve dificuldades com esse fato banal.

Kant é tido como o Iluminista par excellence, mas talvez em termos de amor tenha sido um romântico, e não à toa seus livros de cabeceira eram os escritos por Rousseau. Kant nunca entendeu o orgasmo ou gozo, por motivos claros de nunca ter experimentado a prática do sexo. Jamais compreendeu que o ato sexual não é totalmente enquadrável na falta moral, como ele a definiu. Para ele, o pecado moral é o uso do outro como meio. Mas o ato sexual é o cruzamento e a fusão do meio e do fim. Usa-se o outro, mas só há prazer próprio nesse uso se o outro também tem prazer. Casamentos onde o prazer não é mútuo e conjuntos, em troca praticamente altruísta, não funcionam bem. O sexo é o momento de desmentido do imperativo categórico kantiano. Kant considerou o casamento, o sexo com contrato, uma forma de tornar a atividade sexual relativamente moral. Mas esse foi um passo desnecessário, inútil, descabido. A maior parte das mulheres quer as carícias após o sexo, após a penetração, não durante. O fluxo sanguíneo do pênis e da vagina dependem de excitação, e isso em nossa espécie se ligar a certo grau de “violência” envolvido. Ninguém pode entrar na atividade sexual com o corpo amortecidos, amolecido, com falta de “pegada”. Nem as garotas dos anos vinte, escrevendo seus diários, deixavam de saber disso. Claro que mulheres com anorgasmia ou frígidas não fazem parte desse universo e, infelizmente, elas estão por daí ditando regras. A situação delas é terrível, pois só de falarmos delas nesse tom que falei, já as ofende. E com razão. E a conversa se torna impossível com esse tipo de mulher (ou com homens com disfunções equivalentes).

Nem todo mundo é feliz no sexo. Nem todo mundo sabe dos requisitos pedidos por essa arquitetura corporal feita não só de células, mas de “células fonéticas”, de linguagem, de “discursos” (médico, científico, religioso, estético etc.), para lembrar Foucault e Judith Butler. Além disso, o reconhecimento dos discursos formativos não são tão fáceis de circunscrever e analisar. Nem todo mundo consegue se conhecer e saber “o que fizeram com aquilo que outros lhe fizeram”. Muitos são os que se conhecem por meio de um discurso sobre o corpo e sobre o sexo que fazem o pênis ser antes lança, seta, no sentido de instrumento da maldade, e não como simplesmente um membro de carne e sangue que precisa de certa gana para funcionar. Pessoas assim tem uma imagem terrível do sexo. E se elas aprenderam em sua infâncias a tomar o pênis como a seta do demônio, então, na vida adulta não conseguirão associar pênis e criança de forma alguma. As atitudes perante as crianças que tem algum contato com o pênis, por parte de pais assim, vai da repressão estúpida até o fato de passarem vergonha, sem o saber, ao saírem nas ruas acusando todo mundo de pedofilia. Inclusive há pais que não deixam seus filhos olharem para o pênis do cachorro da casa, ou então fazem cara de nojo e horror para o membro ereto do bichinho. Ensinam logo o que aprenderam – aliás, tudo errado.

Se os puritanos e desescolarizados que se revoltaram com a performance da obra de Lygia Clark no MASP tivessem visto uma mulher nua sendo tocada (nos pés) por crianças, a reação seria completamente diferente. Sem o pênis na jogada, tudo correria normal. Se fosse a foto de um menino pegando no pé de uma moça nua, a maior parte dos pais não falaria de “pedofilia”, diria que a atriz, como toda atriz, “é uma vagabunda”, e homenageariam em casa – e até de público – o ato de “garanhão” do garoto. Estragariam a aula de arte do garoto. Felizmente, por conta da mãe da menina que levou a filha no MASP para a aula ser uma pessoa esclarecida, esse tipo de gente não conseguiu atingi-la. Tuitaram e postaram no facebook como bestas loucas, “protetoras de crianças”. Protetoras? Ora, nem todo mundo que empunha o ECA protege crianças – sabemos bem disso. Já vi senador de direita com o ECA nas mãos, quando lhe convinha. E o ato dessas pessoas de seguirem, na mesma toada, a vida passada de Caetano Veloso e Paula Lavigne, mostra bem o tipo delas, o desvio de personalidade que as marca, a maldade que as alimenta.

Por detrás das acusações de pedofilia contra pessoas que reconhecidamente nunca tiveram e não tem qualquer investigação policial nas costas existem duas coisas: primeiro, a simbologia do pênis como instrumento de morte e gozo, de gozo e morte. Algo que desde Agostinho se tornou o símbolo mais taxativo de pecado; segundo, uma sorrateira atividade de exploração infantil no trabalho, envolvendo também atividades sexuais, que é prática entre denunciantes que se apresentam muito desesperados a respeito de pedofilia. Aliás, é interessante conversar com a polícia sobre as investigações de gente que trabalha com exploração infantil. Várias delas são doadoras de campanhas contra a pedofilia!

Investiguem aqueles que vierem aqui no meu blog chamar este autor aqui de “pedófilo”, e vão descobrir verdades antropológicas e policiais curiosas a respeito dos acusadores. Mas verdades já de antemão bem plausíveis.

De resto, para os bem intencionados, vale mesmo um “conhece-te a ti mesmo” reatualizado. As pessoas que têm tanto ojeriza do pênis, deveriam de se lembrar que adoram Wolverine espetando todo mundo com suas múltiplas guarras, suas múltiplas setas, e que nos primeiros episódios havia já um clima erótico entre ele e a garota, ainda criança, a Vampira.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 04/11/2017

Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

 

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